"PROGRAMA MOSTRA COMO O ESPORTE PODE SER ALIADO NO TRATAMENTO DAS PESSOAS QUE VIVEM COM HIV"


"Esporte Positivo revela histórias de portadores do vírus, o papel de exercício e, com a ajuda de especialistas, explica os efeitos da doença. É neste domingo (02/08/2015), meia-noite, com produção, roteiro e reportagem de Bruna Gosling, imagens de Julio Bittencourt e edição e finalização de Heros Steyka".

"SporTV Repórter (clique aqui)" preparou um programa especial para o retorno do programa, neste domingo, a partir da meia-noite. Com o tema "Esporte Positivo", o episódio vai mostrar como a prática de exercícios físicos pode ser uma aliada no tratamento dos portadores do vírus HIV, com depoimentos de soropositivos e a opinião de especialistas.

São histórias emocionantes, capazes de surpreender, ensinar e conscientizar. Para tratar do tema, a repórter Bruna Gosling conversou com médicos, pesquisadores e especialmente portadores do vírus, que encontraram no esporte, além de motivação, força para lutar contra alguns efeitos da doença.

O maratonista aquático Salomão Petra Bittencourt é um dos personagens. Ex-usuário de drogas e portador do HIV há 16 anos, ele treina diariamente e sonha em completar a travessia do Canal da Mancha.

Quem também revela sua história é o maratonista Givaldo Tomás da Cruz, infectado no Carnaval de 1988, durante o auge da epidemia. Homossexual e pai de dois filhos, ele se apaixonou por corrida de rua, uma aliada no tratamento. Eles dão conselhos, contam suas experiências e mostram como encaram e tratam a doença que, segundo estimativa do Ministério da Saúde, atinge 734 mil pessoas no Brasil.

"Pelos cuidados que o tratamento exige, as atividades físicas também devem ter companhamento médico". 

No programa, você vai saber o que dizem os especialistas e conferir entrevistas com infectologistas, entre eles a experiente Dirce Bonfim e o pesquisador Mauro Schechter. Histórias de atletas famosos que contraíram o vírus, como Magic Johnson, astro do basquete americano, também são destaque.

"VOLUNTÁRIO DA PReP - PROFILAXIA PRÉ EXPOSIÇÃO AO HIV CONTA COMO ESTÁ SENDO SEU DIA A DIA DEPOIS QUE PASSOU A USAR A PROFILAXIA"

(Clique na imagem para ampliá-la)

O estudo norte-americano da "PrEP - Profilaxia Pré-Exposição ao HIV" chegou ao Brasil em 2014 e, neste ano, há centenas de pessoas participando. "A promessa é que, com apenas um comprimido do antirretroviral TRUVADA todos os dias, a pessoa não é infectada pelo vírus HIV". No Brasil, o estudo está senso realizado na Fiocruz no Rio de Janeiro e na USP, em São Paulo, "acesse aqui o site do estudo". O objetivo é encontrar de quais formas a PrEP possa ser adotada pelo Sistema Único de Saúde "e seja utilizada como mais uma ferramenta de prevenção ao vírus".

"Estudos apresentados na Conferência sobre Retrovírus e Infecções Oportunistas (CRIO), em Seatle/EUA, mostraram que o nível de eficácia da PReP foi de 86%, ou seja, para cada 20 infecções que poderiam ter ocorrido, 17 foram impedidas pela PrEP".

O assunto ainda causa polêmica, sobretudo quando é encarado como uma substituição do preservativo ou prática do bareback (sexo sem camisinha). O site "A CAPA" conversou com um dos participantes do estudo, Bruno Chagas de 28 anos. Ele toma todos os dias o Truvada e fala sobre sua experiência, efeitos colaterais e mitos. Leia abaixo:
"É importante deixar claro que o truvada previne apenas o HIV e mais nenhuma outra DST"
A Capa: Falar sobre a PrEP envolve mitos e preconceitos. Em sua opinião, qual é a principal informação que precisa ser passada e desmistificada sobre a PrEP?
Bruno Chagas: Muitos associam o uso do PrEP com a prática de bareback (sexo sem camisinha). É importante deixarmos claro que "o PrEP é apenas um adicional na prevenção e não uma substituição".

A Capa: O que te motivou a participar do estudo da PrEP no Brasil?
Bruno Chagas: Eu fiquei sabendo sobre o PrEP em uma sauna, a qual frequento. O cartaz dizia: "Um comprimido por dia pode prevenir o HIV". Na hora eu me interessei e procurei o estudo já no dia seguinte. Me considero um militante na luta pela descoberta da cura da aids e sempre procurei estar por dentro de projetos e estudos deste tema. Acho de extrema importância que pessoas se tornem voluntárias de estudos como esse.

A Capa: Teve algum tipo de preparo ou conversas com especialistas antes de começar?
Bruno Chagas: Sim. Foram algumas consultas com médicos e psicólogos, além de uma bateria de exames. Depois de duas consultas eles me classificaram como apto a me tornar voluntário do estudo. Eu confio plenamente no estudo e nos profissionais envolvidos. Por isso, decidi, em dezembro do ano passado a começar a tomar.

A Capa: Qual é a rotina que você tem com o medicamento? Sentiu algum efeito colateral?
Bruno Chagas: Eu tomo um comprimido do truvada por dia. E eu não sinto nada. No meu caso, não observei nenhum efeito colateral. Entretanto, tomar um comprimido por dia não é tão simples. É preciso disciplina e certa coragem". Afinal, você está tomando uma medicação".

A Capa: Apesar do tratamento, o "medo" de se infectar ainda é presente durante o procedimento ou no sexo? Como lida com ele?
Bruno Chagas: Como eu faço PrEP "em conjunto com o uso do preservativo", me sinto completamente seguro e não há medo. Antes eu sempre temia, mesmo usando preservativos. Posso dizer que sou mais feliz e mais seguro tomando o truvada. Durante estes 8 meses, esqueci de tomar apenas um dia, então não tem como falhar.

A Capa: A sua vida sexual mudou depois da PrEP?
Bruno Chagas: Me sinto apenas mais seguro e sem neuras.

A Capa: O que os parceiros dizem sobre isso? Aceitariam transar sem camisinha?
Bruno Chagas: "A camisinha continua fazendo parte, no meu caso". Outras pessoas realmente deixam de usar, mas isso é uma questão individual. "É importante deixar claro que o truvada previne apenas o HIV e mais nenhuma outra DST". Acredito que o uso do preservativo "em conjunto" com o medicamento seja o ideal para aqueles que queiram se sentir mais seguros.

A Capa: Tem conversado com outras pessoas que também passam por esta experiência? O que elas dizem?
Bruno Chagas: Infelizmente não é um assunto tão comum em conversa com amigos. Conheço poucas pessoas que fazem PrEP e todas elas não gostam muito de falar a respeito. Eu sou um dos poucos que gosta de falar abertamente sobre o assunto. Mas é unanime que todos se sentem mais seguros e felizes. Acredito que no estudo que eu sou voluntário existem cerca de 500 homens participando.

A Capa: Uma curiosidade: muda a coloração ou consistência do esperma?
Bruno Chagas: Não, não muda.

A Capa: Da sua experiência, o que tem de melhor e pior na PrEP?
Bruno Chagas: O melhor é se sentir mais seguro. Já o pior é ser visto como "promíscuo". Acredito que algumas pessoas pensam isso de mim, mas eu não ligo.

A Capa: Você acha que o PrEP é melhor a solução para evitar uma nova epidemia de HIV/AIDS?
Bruno Chagas: Não sei se é a melhor, mas torço para que o governo adote o PrEP assim como acabou de adotar a PEP. Acredito que haverá uma grande diminuição de pessoas infectadas pelo HIV. "O truvada ainda não é regulamentado pela anvisa aqui no Brasil e é um medicamento comercial e caro". Nos EUA há uma quantidade grande de gays fazendo PrEP, inclusive subsidiado por planos de saúde. "Penso que todas as formas de prevenção devam ser adotadas". Eu torço para que em um futuro próximo o truvada esteja acessível para todos aqueles que queiram usá-lo "como um aliado na prevenção".

A Capa: Tem alguma informação que você acha importante a gente passar para os leitores?
Bruno Chagas: Existem muitos gays, inclusive os mais jovens, "que deixaram de usar o preservativo nos últimos anos". Não condeno aqueles que adotaram esta prática e acredito que é uma escolha individual e que não deve ser julgada pela sociedade. Entretanto, esses gays precisam tomar conhecimento de que existe uma nova maneira de prevenir o HIV fazendo o PrEP. O termo "PrEP" ainda é desconhecido de muitos jovens gays.

Fontes:
A Capa - Agência de Notícias da Aids

"HIV/AIDS: RELACIONAMENTOS SORODISCORDANTES"


"Sorodiscordância e prevenção do HIV: Percepções de pessoas em relacionamentos estáveis e não estáveis"

Autoras:
Amanda Pinheiro e Eliane Maria Fleury

"Este estudo objetivou descrever percepções de pessoas com HIV/AIDS sobre a prevenção da transmissão do HIV no contexto da sorodiscordância".

Participaram do estudo treze pessoas soropositivas, quatro do sexo feminino e nove do masculino, cinco delas em relacionamento estável e oito em relacionamento não estável, com diferentes orientações sexuais, que estivessem fazendo acompanhamento em serviços de saúde do Distrito Federal para HIV/AIDS, que sabiam do seu diagnóstico há pelo menos seis meses e que tivessem parceria sorodiscordante, em relacionamento estável ou não.  A idade variou de 24 a 52 anos, com média de quarenta anos. O tempo médio de conhecimento do diagnóstico foi de dez anos, sendo o menor tempo sete meses, e o maior 19 anos. Apenas uma pessoa não estava fazendo uso da terapia antirretroviral (TARV).

"Parceria Sorodiscordante: Quando um(a) parceiro(a) é portador(a) do vírus e o(a) outro(a) não".

A partir dos roteiros e das transcrições dos conteúdos dos dois grupos focais, foram identificados quatro eixos temáticos: Conhecimento sobre as novas medidas preventivas; implicações das novas políticas sobre as práticas preventivas; facilidades e dificuldades na realização de práticas sexuais seguras em relacionamentos estáveis e não estáveis; serviços de saúde e as práticas de sexo seguro.

"A fim de preservar a identidade dos participantes, foram adotados nomes fictícios".

Conhecimento sobre as novas medidas preventivas: O primeiro eixo temático abordado nos grupos focais foi o conhecimento a respeito das novas políticas de prevenção da infecção sexual pelo HIV e das informações divulgadas pelo Ministério da Saúde (MS):

"A PEP - Profilaxia pós Exposição Sexual e o Tratamento como Prevenção (carga viral indetectável e redução de chances de transmissão sexual do HIV)".

Do total de treze participantes dos dois grupos focais, "cinco referiram que conheciam as novas medidas preventivas, quatro informaram que já tinham ouvido falar de alguma destas estratégias, mas não as conheciam bem, e quatro as desconheciam". Dentre os cinco que já conheciam essas medidas, três possuíam relacionamento estável. Os relatos de Luan (47 anos) e de Rosângela (39 anos), respectivamente, exemplificam o conhecimento sobre o assunto, com destaque para a PEP:

"[...] a PEP foi criada pra quando você tem um parceiro sorodiscordante, você sabe que ele é positivo e você é negativo e estoura a camisinha, ou você de repente bebeu demais e transou sem camisinha, aí você vai e pega [...]".

"[...] a questão da PEP é quando há contato, aquela medicação que é após o contato sexual, ela tá sendo ofertada, se você teve o contato sexual e o parceiro não foi preventivo, pode tá tomando a medicação imediatamente. Acho que são até 72 horas".


As principais fontes de conhecimento mencionadas pelos participantes foram: Os próprios serviços de saúde, por meio de explicações de profissionais em contextos de atendimento, de cartazes do Ministério da Saúde sobre a PEP e de atividades coletivas como rodas de conversa. Também referiram informações obtidas em congressos sobre HIV/AIDS, bem como a difusão do tema na mídia.

"Em relação a este último aspecto, alguns participantes teceram críticas no sentido de que temiam a forma como estas informações estavam sendo divulgadas, sendo que foi ressaltada a importância de esta divulgação se dar de forma clara e objetiva, de maneira a minimizar a ocorrência de distorções ou mal-entendidos por parte da sociedade em geral".

Implicações das novas políticas sobre as práticas preventivas: Foram indagadas, aos participantes, as implicações dessas medidas sobre as práticas sexuais preventivas. De forma geral, eles pontuaram aspectos positivos, descrevendo-as como estratégias preventivas importantes, especialmente em casos de estupro ou de abuso sexual. "Vários participantes, de ambos os grupos, relataram receio de infectar os(as) parceiros(as), mesmo com a utilização do preservativo. Para alguns deles, a responsabilidade da infecção ocorrer ou não deveria ser compartilhada pelo casal em contextos soroconcordante ou sorodiscordante".

"Parceria Soroconcordante: Quando ambos(as) são portadores(as) do vírus".

Mas observou-se uma percepção dos participantes no sentido de que, "muitas vezes, cabe às pessoas soropositivas não apenas solicitar, mas exigir a utilização do preservativo, por exemplo". A responsabilidade e o sentimento de culpa advindos de uma possível falha neste método preventivo também caberiam à pessoa soropositiva, e, neste sentido, a PEP foi vista como uma estratégia vantajosa para a realização de práticas sexuais, como evidenciado na seguinte fala:

"Acho que pra quem tem (o HIV) é uma segurança (a PEP), pois você corre o risco de contaminar menos pessoas (Márcia, 52 anos)".

"O relato de Luan (47 anos) também exemplifica essa posição: Pra mim a PEP facilitou demais essa questão do pequeno receio que ainda fica no uso da camisinha, [...] antes me preocupava quando não sabia da PEP, mas depois que a PEP veio, tanto eu quanto o meu parceiro sabem, se estourar, pode se medicar".

Alguns participantes destacaram, no entanto, eventuais aspectos negativos dessas políticas, tanto a PEP como o Tratamento como Prevenção, especialmente no que diz respeito à possibilidade de banalização de outras práticas preventivas, "o não-uso do preservativo, favorecendo a infecção e a reinfecção pelo HIV e outras doenças sexualmente transmissíveis (DST)". Outra possível consequência adversa dessas medidas seria "a diminuição na corresponsabilização do parceiro soronegativo com a prevenção". No grupo estável, quatro dos cinco participantes afirmaram este receio. As falas de Rodrigo (52 anos) e de Mirela (43 anos), ambos do grupo não estável, ilustram estes temores:

"Acho que no momento fazer essa divulgação é muito perigosa no Brasil, principalmente na exposição que tá acontecendo entre os jovens";

"O risco aumenta, [...] deixa eles muito tranquilos: dou uma transadinha agora, sem camisinha, sacio a minha vontade e depois eu tenho o coquetel durante um mês e tô livre".


Alguns participantes manifestaram a opinião de que "entre pessoas jovens o risco de banalização é maior", visto que, antes mesmo do advento da PEP e da redução de risco de transmissão quando a carga viral está indetectável, já havia uma dificuldade, por parte desta população, em utilizar métodos preventivos, tal como verbalizado por Márcia (52 anos):

"Tem muitos adolescentes que acham que não tem que se prevenir porque tem tratamento, que a AIDS não tá matando mais".

Se, por um lado, os benefícios dessas políticas e ações têm sido constatados, por outro, foi apontada a necessidade de que houvesse uma maior conscientização da população acerca desses temas. "A mídia foi referida por ambos os grupos como importante fonte de divulgação e difusão de conhecimento, especialmente a televisiva. Disponibilizar informações, notícias e propagandas em rede nacional durante todo o ano, atreladas à distribuição gratuita dos preservativos, seria a parcela de responsabilidade do Estado, enquanto caberia às pessoas se responsabilizarem pela prevenção de forma consistente e ativa". O relato de Rodrigo (52 anos,) ilustra essa posição:

"Os programas do MS são veiculados na mídia de uma forma bem expressiva, [...] nós não podemos colocar a culpa que é o governo que não dá informação, [...] usar a camisinha é um dever nosso. O governo distribui, nosso dever é usar".

Facilidades e dificuldades na realização de práticas sexuais seguras em relacionamentos estáveis e não estáveis: Observou-se que o conhecimento do diagnóstico pelo(a) parceiro(a) soronegativo(a) foi considerado fator facilitador no que se refere às práticas sexuais seguras, embora não tenha havido consenso entre os participantes quanto à necessidade de revelação do diagnóstico nos relacionamentos amorosos-sexuais. "No grupo não estável, a maioria dos participantes concordou que, quando o casal passa a viver uma relação estável, deveria haver a revelação", e para Mirela (43 anos) esta deveria ter, inclusive, caráter obrigatório. "Os participantes justificaram esta opinião ressaltando as dificuldades na manutenção de uma rotina de cuidados por parte da pessoa soropositiva, sem que haja conhecimento dessa condição pelo(a) parceiro(a)". Este trecho da fala de Rodrigo (52 anos) exemplifica essa posição:

"Muitas vezes você nem faz o tratamento correto porque guarda tantos medicamentos no armário que perde o horário de tomar ou não toma na hora certa. Como esconder de um parceiro estável que tá contigo na cama todo dia, toda noite, que almoça, janta, lancha, passeia, viaja? Não tem como... É muito melhor contar".

Dois participantes do grupo não estável enfatizaram que existem formas de cuidado e de proteção do(a) companheiro(a) sem necessidade de haver a revelação do diagnóstico. "Para ambos, um relacionamento se constitui de muitos outros fatores, além de um diagnóstico, e defenderam que deve ser levado em conta todo um contexto para que haja a revelação". Foi mencionado, também, o direito ao sigilo por parte de pessoas soropositivas, garantia que não precisaria ser violada em prol da proteção do outro.

"Acho que isso é uma segregação, eu não sou um vírus. Então é como se eu chegasse numa pessoa, a conhecesse hoje e dissesse: oi, prazer, eu sou ateu. Qual o contexto que teve pra eu falar isso? Acho que a gente precisa se conhecer mais. (Kleber, 25 anos)".

"Eu discordo de ter que falar pra pessoa, [...] eu não vejo necessidade de falar, [...]. Tem muitas formas de evitar, de preservar e, pra mim, não temos necessidade (de revelar). (Guilherme, 24 anos)".


No grupo de pessoas em relacionamentos não estáveis, foi mencionado, como aspecto facilitador para a realização e manutenção de práticas sexuais seguras, o fato de que, ainda sem vínculo ou sentimentos mais fortes, a negociação do preservativo se dava de forma mais fácil e até natural.

"Acho que na relação não estável você escolhe seu parceiro, tô a fim de transar, rolou um clima, o cara ou a moça, [...] ah não quero, por quê?, você nem precisa dizer o porquê talvez, [...], se a pessoa insiste (em não usar a camisinha), então vamos só se beijar, beber uma cerveja, depois ir embora. Então você até pode ter uma coisa agradável no final das contas, sem prejudicar ninguém. (Kleber, 25 anos)".

Para as mulheres, a possibilidade de engravidar em uma relação sexual sem preservativo configurava-se como fator facilitador para o seu uso, sem necessidade de revelação da soropositividade. Em uma relação não estável, "esta justificativa pode ser ainda mais forte, pois, à medida que um relacionamento se configura como estável, o uso do preservativo como método contraceptivo pode ser até mesmo indesejado". Esta opinião foi compartilhada por pessoas de ambos os grupos. Os participantes dos grupos consideraram como fator facilitador do uso do preservativo "a proteção de si próprios", na medida em que:

"Pessoas HIV positivas também estão sujeitas, sem o uso da camisinha, a se reinfectarem pelo HIV e/ou adquirirem outras DST. Garantir a autoproteção e manter o autocuidado foi percebido, pelos participantes, como proteção e cuidado do outro também, tal como exemplifica esse trecho":

"Primeiro a gente, porque o parceiro pode não ser (HIV), mas ele também pode passar outra coisa que pode prejudicar, por isso temos que pensar primeiro na gente. Se eu tô bem, o parceiro também, porque eu tô me prevenindo, cuidando pra que ele também (esteja bem). (Estênio, 42 anos)".


Entre as dificuldades mencionadas no grupo de pessoas em relacionamentos não estáveis, merecem destaque: A questão de se fazer ou não a revelação, o uso de bebidas alcoólicas levando à negligência com relação ao uso do preservativo, e a negociação do seu uso em contextos como festas e baladas.

"Gilberto (43 anos) afirmou que já houve ocasiões em que se viu sem argumentos para justificar o uso do preservativo, e para não consumar o ato sexual sem proteção e nem revelar sua soropositividade, optou por interromper o contato imediatamente".

No grupo de participantes em estabilidade conjugal, esta modalidade de relacionamento foi destacada ao mesmo tempo como facilidade e dificuldade na manutenção das práticas sexuais seguras. "Se, por um lado, seria mais fácil conversar e negociar com um parceiro fixo, de maior intimidade e com conhecimento do diagnóstico, por outro lado, o fator tempo pode contribuir para que o uso do preservativo seja deixado de lado". O contexto da estabilidade seria potencializador, portanto, de sentimentos de confiança e, também, da crença de que o amor e a fidelidade são inabaláveis, podendo contribuir para que ocorra uma descontinuidade nas práticas de sexo seguro. Essa posição pode ser exemplificada pelas seguintes falas:

"[...] eu tive um relacionamento por 20 e poucos anos, que fiquei estável mesmo, foi onde me contaminei de tanta estabilidade (Rodrigo, 52 anos)".

"Com o tempo a pessoa não quer mais usar, é uma luta, aí você tem que bater na mesma tecla toda hora, que vai acontecer isso e aquilo, que existem outras doenças, que mesmo que der uma escapada lá, porque tem muitos que tem relacionamento fixo e escapa, [...]. A princípio é mais fácil a pessoa se proteger (em relacionamento estável), mas depois que vai ganhando um pouquinho de confiança na relação não quer (usar preservativo) mais não. (Márcia, 52 anos)".


"Esta participante também apontou que idade e o contexto conjugal que o(a) parceiro(a) viveu anteriormente podem ser desafios a serem enfrentados: Não são só os jovens que não querem se prevenir, os homens acima de 45 anos, eles também não querem usar (preservativo), não foram acostumados. A maioria saiu recentemente de casamento, relacionamento longo e é muito difícil você convencer. (Márcia, 52 anos)".

Um aspecto interessante que surgiu nos relatos dos participantes em relacionamento estável "diz respeito à crença de que o contexto da sorodiscordância, em contraste com o da soroconcordância, seria um fator facilitador na manutenção das práticas de sexo seguro". De acordo com os participantes, há uma banalização do uso do preservativo por parte da parceria soroconcordante, "pois a infecção pelo HIV, já tendo ocorrido, não mais seria uma preocupação do casal". Além disso, o medo de transmitir o vírus a(o) parceiro(a) soronegativo(a) poderia funcionar como fator motivador para a utilização do preservativo, bem como a adoção de outras práticas preventivas (a PEP sexual em contextos de risco, por exemplo) nas relações sorodiscordantes.

Os participantes que conviviam em estabilidade conjugal citaram algumas estratégias para a adoção de práticas sexuais seguras no contexto da sorodiscordância. "Foram mencionados, além do preservativo masculino: A camisinha feminina para o sexo com penetração, em relações homo e heterossexuais, bem como para o sexo oral nas mulheres; o uso do lubrificante, garantindo mais conforto e proteção; e, ainda, o uso de alguns objetos e brincadeiras pré-atividade sexual, com intuito de promover mais tranquilidade entre os parceiros". Ao lado dessas práticas, não deixar a rotina se instalar e buscar a manutenção do diálogo entre o casal também foram citados.

Pôde-se perceber, portanto, "que foi unânime a opinião de que, nas relações não estáveis, a negociação e utilização de práticas preventivas ocorrem com muito mais facilidade do que nas relações estáveis". Os aspectos que justificaram esta posição de ambos os grupos foram citados anteriormente: "O caráter efêmero de relacionamentos não estáveis, sem vínculos e sentimentos como amor, confiança e fidelidade; o fator tempo dos relacionamentos estáveis como dificultador da continuidade das práticas seguras; e a possibilidade de as mulheres usarem o preservativo como método contraceptivo".

Serviços de saúde e as práticas sexuais seguras: Nos dois grupos, os participantes remeteram, a órgãos governamentais e à mídia, "a responsabilidade pela divulgação das informações, em especial referentes à PEP sexual e ao Tratamento como Prevenção". A respeito do papel dos serviços de saúde, foi bastante enfatizada "a necessidade de que os profissionais disponibilizassem informações a respeito do HIV e da AIDS, sobre seu tratamento e cuidados, mas que, também, fossem divulgados conteúdos relacionados aos avanços e às descobertas científicas mais recentes".

"A PEP sexual e a carga viral indetectável como fator de redução de risco de transmissão poderiam ser incluídos nestes novos avanços e descobertas".

As principais formas sugeridas pelos participantes para que houvesse divulgação das informações seriam: "Por meio de cartazes afixados nos serviços, no próprio contato com os profissionais nas consultas e atendimentos, bem como por meio da realização de eventos para encontros entre os pacientes, como é o caso de rodas de conversa promovidas pelo serviço onde foi realizada a pesquisa".

O estabelecimento de vínculo com o paciente foi outro ponto levantado pelos participantes, "uma vez que um tratamento cordial e humanizado disponibilizado pela equipe de saúde faz diferença significativa, desde a recepção até as intervenções multidisciplinares dos profissionais". Um aspecto fundamental citado por um dos participantes do grupo não estável referiu-se à não-existência de preconceito nos serviços, pois:

"De acordo com os participantes, a soropositividade ainda é percebida como uma condição estigmatizante. Em suma, alguns atributos básicos de uma relação profissional-usuário de qualidade seriam: acolhimento e vínculo, humanização e tratamento sem discriminação".

Os resultados deste estudo, "ainda que exploratório e descritivo": Apontam para aspectos positivos acerca das novas estratégias de prevenção da infecção pelo HIV adotadas pelo Ministério da Saúde, mas que, ainda, colocam desafios para sua implementação.

"Quase dois terços dos participantes possuíam informações insuficientes ou desconheciam a PEP e a associação entre tratamento com antirretrovirais, carga viral indetectável e redução de risco de transmissão, resultados que vão ao encontro do estudo que pesquisou 828 pessoas que vivem com HIV/AIDS e verificou que 48,7% estavam conscientes sobre a PEP sexual, ou seja, cerca da metade não estava devidamente informada ou desconhecia essa estratégia preventiva".

Os resultados do presente estudo, "ainda que o número de participantes tenha sido pequeno", permitem concluir sobre "o desconhecimento dessas medidas preventivas por grande parte de pessoas soropositivas, mostrando a importância de sua divulgação para ampliar, de forma efetiva, o acesso a esses procedimentos diante de sua necessidade". Neste sentido, é pertinente considerar a relevância de intervenções, pelas equipes de saúde, com casais, e não apenas com uma pessoa da díade, pois esta parece mais eficaz e poderia diminuir a ocorrência de dificuldades, como é o caso de Rosângela (39 anos) "que relatou o medo de seu parceiro soronegativo de ter qualquer prática sexual desde a descoberta da soropositividade da esposa". Além de intervir sobre a ansiedade e o medo de infectar e ser infectado:

"Intervenções direcionadas a casais sorodiscordantes podem prover informações e ações educativas sobre as novas estratégias de redução de risco de infecção pelo HIV, como a PEP e o Tratamento como Prevenção, visando reduzir o medo de infecção e ampliar a confiança dos parceiros nos métodos preventivos, favorecendo uma vida sexual ativa e saudável. No que se refere aos papéis dos serviços de saúde, destaca-se a importância do aconselhamento de casais, da testagem sorológica do parceiro(a) soronegativo(a), e da distribuição gratuita dos preservativos como estratégias eficazes para a diminuição do risco de transmissão do HIV".

O direito ao sigilo acerca do diagnóstico foi visto pelos participantes de maneiras distintas: "Houve a defesa desse direito e a compreensão de que é possível se proteger e proteger o parceiro sem necessidade de revelação do diagnóstico"; mas, também, foi defendido, pela maioria das pessoas de ambos os grupos, que, "em casos de estabilidade e comprometimento conjugal, haveria necessidade da revelação, como uma exigência embasada em preceitos morais e éticos". No entanto, aponta-se que, "em muitos casos, a quebra do sigilo em casais estáveis restringe-se ao momento estrito da revelação do diagnóstico, não havendo, posteriormente, diálogos sobre questões relativas à soropositividade".

"Alguns participantes, como Rodrigo (52 anos), apontaram dificuldades adicionais, como a dificuldade de adesão ao tratamento antirretroviral em contextos de manutenção do segredo sobre o diagnóstico ou em situações onde não há espaço para a comunicação e o diálogo sobre a soropositividade".

Em relação às facilidades encontradas na adoção de práticas seguras, o grupo não estável pontuou mais fatores favorecedores dessa prática que o grupo estável: "A não-existência de vínculos afetivos consolidados, diminuindo a cobrança por segurança e confiabilidade, ao lado da possibilidade de utilização do preservativo como método anticoncepcional". No grupo em relacionamento estável, a revelação foi citada como fator ambivalente, "pois, enquanto favorece o diálogo e a negociação, dado o diagnóstico sabidamente conhecido, também implica a ocorrência de sentimentos de confiança e fidelidade entre os parceiros, o que fragiliza a adoção de práticas preventivas".

No grupo não estável, a questão da revelação também foi citada como possível dificultador. "Por um lado, se ocorre a revelação, podem emergir os mitos acerca do HIV/AIDS, que trazem insegurança às pessoas soropositivas; por outro lado, a não-revelação pode levar o parceiro soropositivo a uma situação na qual o argumento final para justificar a utilização de métodos preventivos seria a própria revelação da soropositividade".

A necessidade de revelação, bem como as facilidades e dificuldades encontradas para adoção de práticas sexuais seguras, compuseram o principal quadro de diferenças entre pessoas em contextos de relacionamentos estáveis e não estáveis. "Por outro lado, a necessidade de serem transmitidas informações acerca das novas políticas, de forma mais acurada, acessível e permanente, foi mencionada como essencial, e obteve grande consenso entre os participantes, e que esta seja efetivada pelos serviços de saúde".

"Os resultados permitem afirmar ainda que: Mesmo diante da ampliação do leque de estratégias preventivas, que podem ter efeitos relevantes na redução da infecção pelo HIV, o uso consistente e regular da camisinha se mantém como medida de prevenção de alta relevância no controle da epidemia. Assim, garantir, às populações, o amplo acesso a preservativos e ampliar sua aceitação e uso nas relações sexuais ainda constituem políticas centrais no campo da prevenção em HIV/AIDS".

Clique aqui e leia o estudo completo, originalmente publicado no site: SciELO - Scientific Electronic Library Online, fonte dessa postagem. (Licensa: Creative Commons)

"A PARTIR DE HOJE (23/07/2015) TODA PESSOA QUE PASSAR POR SITUAÇÃO DE RISCO DE CONTRAIR - O VÍRUS HIV - TERÁ ACESSO À PEP (TRATAMENTO PREVENTIVO EMERGENCIAL) NOS SERVIÇOS ESPECIALIZADOS DE SAÚDE"


Com a publicação no Diário Oficial da União de hoje (23/07/2015) do novo protocolo de diretrizes terapêuticas, "toda a pessoa que passar por situação de risco de contrair o vírus HIV terá acesso ao tratamento emergencial/preventivo, A  PEP - PROFILAXIA PÓS EXPOSIÇÃO SEXUAL, na rede pública de saúde".

"O tratamento, que utiliza medicamentos antirretrovirais, deve ser iniciado em no máximo até 72 horas após a exposição ao vírus. Sendo ideal que seja iniciado nas primeiras duas horas após a situação de risco, e para que seja eficáz deve ser realizado durante 28 dias consecutivos, sem interrupção e com acompanhamento médico"

O protocolo recomenda que a PEP seja indicada "tanto num acidente ocupacional (como médicos ou enfermeiros que tiveram contato com sangue de paciente, por exemplo), quanto às vítimas de violência sexual ou pessoas que tiveram relação sexual desprotegida". E recomenda também a redução do tempo de acompanhamento do tratamento, de seis para três meses.

Clique aqui e leia na íntegra o Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas para PEP - Profilaxia Antirretroviral Pós-Exposição de Risco à Infecção pelo HIV.

O objetivo da nova estratégia é facilitar o acesso e, principalmente, evitar a recusa de alguns serviços de fornecer a terapia, eficaz para prevenção da doença. "Antes da mudança, havia o entendimento incorreto de que um serviço especializado poderia atender apenas a um grupo determinado", afirmou o diretor do Departamento de DST, Aids e Hepatites Virais do Ministério da Saúde, Fábio Mesquita. Com isso, serviços que prestam atendimentos a vítimas de violência, por exemplo, alegavam que só poderiam fornecer remédios às mulheres ali atendidas. "A maior parte das recusas ocorria para pessoas que recorriam ao serviços depois de manter relações sexuais desprotegidas", completou Mesquita.

Para facilitar o acesso aos serviços, o Ministério da Saúde vai lançar um aplicativo em dezembro com orientações sobre os postos mais próximos de distribuição. Além de centros de serviços especializados em DST/AIDS, em algumas cidades antirretrovirais são fornecidos também em unidades de emergência. "Nos casos de serviços 24 horas, a distribuição de medicamentos não é feita para 28 dias, os serviços dão o suficiente para três ou quatro dias de terapia e pedem que o paciente retorne, num segundo momento, para pegar o restante". A rede de assistência conta atualmente com 517 Centros de Testagem e Aconselhamento (CTA), 712 Serviços de Assistência Especializada (SAE) e 777 Unidades de Distribuição de Medicamentos (UDM).

"MS COLOCA ANTIRRETROVIRAL 'DOLUTEGRAVIR (TIVICAY)' EM CONSULTA PÚBLICA PARA INCORPORAÇÃO NO SUS"


"Consulta Púbica nº 22 de 14 de julho de 2015"
(Publicada no DOU de 15 de julho de 2015)

O Secretário de Ciência Tecnologia e Insumos do Ministério da Saúde torna pública, nos termos do art. 19 do Decreto 7.646, de 21 de dezembro de 2011, consulta para manifestação da sociedade civil a respeito da recomendação da Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no Sistema Único de Saúde relativa à proposta de incorporação no Sistema Único de Saúde do:
"Dolutegravir (Tivicay) Sódico"
Para tratamento da infecção pelo HIV (vírus de imunodeficiência humana), apresentada pela GlaxoSmithKline Brasil Ltda., nos autos do processo MS/SIPAR n.º 25000.207207/2014-48.

Fica estabelecido o prazo de 20 (vinte) dias, a contar da data de publicação desta Consulta Pública, para que sejam apresentadas contribuições, devidamente fundamentadas. A documentação objeto desta Consulta e o endereço para envio de contribuições estão à disposição dos interessados no site:


A Secretaria Executiva da Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no Sistema Único de Saúde (CONITEC) avaliará as contribuições apresentadas a respeito da matéria.