"INFECÇÕES GINECOLÓGICAS EM CRIANÇAS"

"Veja os cuidados para afastar o risco de infecções ginecológicas em crianças"

Há cerca de dois meses, a empresária Ana Maria Dorneles Ramos de Almeida, 39 anos, foi dar banho na filha Maria Cláudia, 3, quando sentiu um mau cheiro oriundo da genitália da menina. Logo depois, ao olhar a calcinha, observou uma mancha amarelada.
Me assustei com aquele corrimento e o odor em uma criança de 3 anos. Fiquei me perguntando como é que ela poderia ter adquirido aquilo. Imaginei até que pudesse estar sofrendo abusos. No dia seguinte, estava no pediatra e ele me mandou para um ginecologista. “Jamais pensei que procuraria um ginecologista para a minha filha nessa idade”, disse. A experiência relatada pela empresária, porém, é mais comum do que as pessoas imaginam.
“Problemas ginecológicos infantis existem e devem ser tratados com atenção para não evoluir”, afirma José Domingues Júnior, ginecologista infantojuvenil. Segundo o médico, os processos infecciosos específicos da vagina são raros em crianças, o que se vê são processos inflamatórios externos da vagina e da vulva. Na maior parte das vezes, a queixa é de corrimento vaginal, ocasionado pela má higienização da genitália. Normalmente, ele vem acompanhado de um mau cheiro forte, secreção amarelada e leitosa, podendo, ou não, apresentar coceira. “Na idade de 3 a 6 anos, as meninas, e as mães, já acham que sabem se limpar adequadamente, mas isso não ocorre. Então, bactérias do ânus acabam sendo levadas para a vagina, na hora de passar o papel”, explica Júnior.
É muito comum também a menina prender a urina por muitas horas. A maioria não gosta de ir ao banheiro na escola e acaba sempre prendendo um pouco de urina. Por ser muito ácida, ela inflama toda a região vulvar. Outro aspecto são crianças pequenas, entre 2 e 3 anos, que podem introduzir objetos na vagina, como grãos, pedaços de plásticos, etc. Esses objetos às vezes não saem e podem inflamar a região. O ideal, de acordo com os médicos, é observar sempre a genitália da criança. Contudo, outros fatores podem contribuir para o corrimento, entre eles processos inflamatórios e infecciosos no organismo.
Transmissão : Domingues explica que meninas gripadas, com sinusite, otite, rinite e infecção na garganta, por exemplo, podem transmitir as bactérias para a região genital. “Basta levar a mão à boca e colocar na genitália”, diz. Por outro lado, crianças muito alérgicas, que têm crises repetidas, podem apresentar o corrimento, por conta de bactérias que são levadas pela corrente sanguínea até à vagina.
“Nesse caso, tratando a alergia tudo melhora”, informa o ginecologista. O tratamento para corrimentos é simples, feito à base de banhos de assento, sabonetes e pomadas específicos, mas a orientação da mãe é fundamental. “É importante demonstrar para a criança a maneira correta de fazer a higiene e não só falar”, ensina o médico.
Verrugas. assaduras e inflamações : Outro caso comum é a menina apresentar verrugas na vulva. De acordo com José Domingues, a verruga pode ser passada, por exemplo, pelo cuidador da criança, ou mesmo pela própria menina que tenha a verruga. “Por outro lado, a presença de verrugas pode indicar que a criança esteja sofrendo abusos sexuais. Doenças sexualmente transmissíveis apresentam lesões, como feridas e verrugas. Os pais devem estar atentos”, alerta o médico.
A coalescência(*) dos pequenos lábios é uma outra situação que leva a menina, muitas vezes bebê, ao ginecologista. Segundo o pediatra Cristóvão Gadelha, ela ocorre em torno de 1,4% das crianças, sendo mais frequente na primeira infância. É causada pelo hipoestrogenismo fisiológico (estrogênio baixo) associado a processos inflamatórios. “Muitas mães chegam desesperadas ao consultório achando que as filhas não vão poder ter filhos ou não têm o aparelho reprodutivo. Isso não é verdade”, diz o pediatra.
A administradora Thelma Letícia Gonçalves, de 51 anos, tem três filhas e sabe bem o que é uma menina com coalescência de pequenos lábios. Sua filha do meio, que ela prefere não citar o nome, apresentou o problema com um ano de idade. “Me desesperei quando vi a situação da minha filha. Levei ao pediatra e ele me indicou um ginecologista, que fez uma intervenção cirúrgica no consultório mesmo”, relata Thelma. Domingues alerta que a cirurgia é um método banido na medicina para o tratamento da coalescência.
“O tratamento deve ser feito com higiene local e uso de cremes de estrogênio de forma parcimoniosa, por um período máximo de duas semanas”, diz.
As fraldas também são grandes vilãs nos processos inflamatórios da vulva e da vagina. Além da causar alergia em algumas crianças, a demora em sua troca pode ocasionar inflamações que vão além das assaduras. “As fezes podem entrar em contato com a vagina e transmitir bactérias do trato digestivo”, explica Gadelha.
A professora Milena Vasconcelos, de 33 anos, sofreu com a alergia à fralda que sua filha Gabriela, de 3 anos, teve quando tinha quatro meses. “Toda a região genital dela ficou quase em carne viva. Era uma coisa horrorosa”, lembra. Ela relata que procurou diversos pediatras e nenhum dava uma solução para o problema. “Fiquei desesperada por conta daquilo. Ninguém me dava uma solução”, conta.
Depois de ir a quatro médicos, um pediatra a encaminhou para um ginecologista que diagnosticou dermatite atópica (de contato). “Ele me passou uma pomada e a vermelhidão sumiu em poucos dias”, comemora Milena. Os médicos afirmam, contudo, que é importante que os pais procurem orientação médica antes de usar qualquer tipo de pomada. “Há pomadas com corticoides que não devem ultrapassar um período de tratamento. Seu uso indiscriminado pode acarretar complicações futuras para a criança”, explica o ginecologista José Domingues Filho.
(*) Advertência - Há vários nomes para o problema: sinequia, coalescência ou fusão dos pequenos lábios vaginais. Mas todos eles resumem a mesma disfunção, que pode acometer meninas até por volta dos 10 anos de idade: a aderência dos pequenos lábios vaginais. Não tratar a sinequia pode levar ao acúmulo de secreção no local, o que aumenta o risco de infecções, e à retenção urinária, caso atinja a uretra.

Recomendações - o que fazer para evitar inflamações ginecológicas na criança :

•  A limpeza deve ser feita sempre da vagina para o ânus, nunca ao contrário.
•  Depois de defecar, a menina deve ser limpa com uma ducha de água.
•  Depois de ir ao parquinho, faça a higiene com uma ducha de água.
•  Ensine a criança a não introduzir objetos na vagina.
•  Fique atenta à higiene genital principalmente se a criança toma banho sozinha.
•  Troque com frequência a fralda da menina, principalmente após ela defecar.
•  Evite que a criança use calças muito justas.
•  Não deixe a menina ficar de biquini ou maiô molhados.

FONTE : CORREIO BRAZILIENSE

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