O RESULTADO POSITIVO/REAGENTE DO TESTE DE HIV É UM DIAGNÓSTICO MÉDICO, NÃO DE CARÁTER!

A vida é uma doença sexualmente transmissível!


A vida é uma doença sexualmente transmissível!

Esta frase, tão irônica quão verdadeira, cruzou o caminho da minha amiga Ângela em Alenquer.

Por: Maria Eugênia Leitão - Em parceria com o blogue da Letrário.


Realmente, quando pensamos em doenças sexualmente transmissíveis não pensamos na vida, até porque a vida não é uma doença. Mas, no fundo, se pensarmos no assunto, a vida transmite-se no ato sexual.

E a vida é, para muitas pessoas, uma doença, quase como um castigo, como uma segunda pele, que se cola ao corpo e não se consegue despir, por mais que se tente. Infelizmente, muitas são as pessoas que sentem o mesmo que Ricardo Reis: "vivo uma vida/que não quero nem amo".

Trata-se, pois, de uma afirmação muito curiosa, simultaneamente sarcástica e cruel. Mas, tomando este ponto de partida como verdadeiro, podemos concluir que a vida também se pega por contato não sexual.

A vida é contagiosa!

Quando vemos alguém muito alegre ou muito triste, o sentimento muitas vezes contagia-nos e também nos sentimos alegres ou tristes. Sobretudo a alegria, quando bem vivida, é altamente contagiosa.

E isto é bem visível num espetáculo de humor. As gargalhadas são contagiosas, o sorriso é contagioso, a alegria é contagiosa.

O humor é, muitas vezes, um excelente remédio. Um exemplo óbvio é o trabalho desenvolvido pela Operação Nariz Vermelho, que melhora a boa disposição e, consequentemente, a saúde de tantas crianças nos hospitais pediátricos. Uma pessoa bem-humorada sofre menos, porque produz mais endorfinas e, consequentemente, aumenta a capacidade de resistir à dor.

E a alegria é efetivamente contagiosa, mesmo que momentaneamente, pois, como diz António Gedeão, "construo o meu real/conforme me apetece". E, se sou eu que defino o que quero ou não fazer da minha vida, sou eu que construo o mundo à minha volta.

Mas, na realidade, será assim?

Que interessa tudo isto?

"Empresa de material de construção é condenada a indenizar trabalhador com HIV por dispensa discriminatória"


Com fundamento na Súmula 443 do Tribunal Superior do Trabalho (TST), a Terceira Turma do Tribunal Regional do Trabalho da 10ª Região (TRT10) "condenou uma empresa de material de construção, cuja filial de Taguatinga encerrou suas atividades em abril de 2016, pela dispensa discriminatória de um trabalhador com HIV".

"O empregado receberá indenização compensatória referente aos salários acumulados entre o dia da demissão e a data de fechamento do estabelecimento, mais indenização por danos morais no valor de R$ 5 mil".

A decisão do Colegiado foi tomada nos termos do voto do juiz convocado Antonio Umberto de Souza Júnior. Segundo o magistrado, transcorreram cinco meses entre a dispensa do empregado, em novembro de 2015, e o fechamento da filial da empresa em abril de 2016, "o que demonstra ser a demissão do trabalhador decorrente do seu estado de saúde e não da crise econômica que teria levado ao fechamento da filial da loja em Taguatinga".

"Como se infere da diretriz sumular invocada, opera-se aqui clara hipótese de inversão do ônus da prova: ao empregador cumpre demonstrar que não lhe moveu um sentimento menor no ato de dispensa de seu empregado. Logo, a inércia probatória do empregado dispensado não pode prejudicá-lo porque, até prova em contrário, é de ser presumida a índole preconceituosa da dispensa de empregados soropositivos, observou".

De acordo com informações dos autos, o trabalhador foi contratado pela empresa de material de construção em 15 de janeiro de 2015, para exercer a função de auxiliar de serviços gerais, sendo que no dia 17 do mesmo mês foi acometido por doença e afastado de suas atividades até 29 de setembro. Retornou ao trabalho em 30 de setembro "e foi demitido sem justa causa em 11 de novembro de 2015".

Na ação trabalhista, o empregado relatou que sua encarregada o viu tomando a medicação e começou a especular o motivo. "Após entregar os atestados médicos que continham a CID de seu afastamento, o trabalhador percebeu o comportamento da encarregada que, segundo ele, ficava de 'conversinha' com os demais colegas. Desde então, afirma que todos passaram a tratá-lo de modo diferente, ignorando-o, não querendo aproximação com ele".

Em sua defesa, a empresa negou todas as acusações e sustentou que o trabalhador foi dispensado sem justa causa. Argumentou ainda que o empregado mostrou-se desidioso e de difícil trato após o retorno da licença médica. Também pontuou que junto com o autor da ação demitiu mais de oito empregados da região de Brasília, em decorrência da necessidade de redução do quadro. "Com relação à doença do trabalhador, disse desconhecê-la", pois o atestado apresentado por ele descrevia CID 39.9, histoplasmose, ou seja, infecção de sintomas variados (anemia, febre, acidentes respiratórios, digestivos ou cutâneos), causada por fungo Histoplasma Capsulatum.

"Para o juiz convocado Antônio Umberto, a jurisprudência consolidou o entendimento de que a dispensa de empregados portadores do vírus HIV ou de doenças estigmatizantes é considerada, presumidamente, discriminatória, como prevê a Súmula 443 do TST".

Considerando o superveniente fechamento do estabelecimento em que trabalhava o reclamante, "dou provimento parcial ao recurso para condenar a reclamada a pagar ao reclamante indenização compensatória no valor correspondente aos salários acumulados entre o dia seguinte à sua dispensa e a data de fechamento do estabelecimento patronal mais férias com o terço constitucional e décimo terceiro proporcionais e indenização do FGTS acrescido da multa de 40% correspondentes a tal período e, considerando a índole discriminatória da dispensa operária e os parâmetros jurisprudenciais turmários, indenização por dano moral no importe de R$ 5 mil", concluiu.

Em dez anos, dobraram os casos de HIV/AIDS entre jovens. Especialistas dizem que o Brasil enfrenta o pior momento da epidemia. O que aconteceu com o país referência na luta contra a doença?



O assistente social Pierre Freitaz, de 29 anos "descobriu ter o vírus quando estava com 15 anos e pensou em se matar". Pierre pulou o gradil que separa a calçada de pedestres dos limites da Ponte Eusébio Matoso, uma das mais movimentadas de São Paulo. Colocou os braços para trás, agarrou a grade e se inclinou em direção ao abismo. Lá embaixo, viu o Rio Pinheiros, sujo, parado, escuro. Aos 15 anos, naquela tarde de setembro de 2003, Pierre pensava em acabar com a própria vida. "Horas antes, num consultório a 1 quilômetro da ponte onde se pendurava, ouvira de um médico a notícia: tinha o vírus HIV. Ao lembrar aquele momento, o rapaz diz que nenhum pedestre ou ocupante de carro o acudiu". Ele só escutou alguém gritar: Pula logo! "Eu tinha certeza de que ia morrer em semanas, diz Pierre".

Por motivos que não lhe são claros, não saltou da ponte. Após 30 minutos, pulou o gradil de volta para a calçada, caminhou até um ponto de ônibus e voltou para casa, em Taboão da Serra, na região metropolitana de São Paulo. Naquela noite, "chamou quatro amigos para contar a notícia", aproveitando que a mãe, empregada doméstica, não chegara do trabalho. Sentaram-se à mesa da cozinha. Pierre disse que tinha o vírus da Aids. "Imediatamente, um dos amigos afastou a perna. Com aquele gesto, tive certeza de que havia feito besteira em contar". No fim de semana seguinte, "percebeu que a notícia havia se espalhado".

Em uma festa, "ninguém queria cumprimentá-lo. No lugar dos abraços afetuosos que costumava trocar com os amigos, via mãos estendidas. Havia quem se afastasse". Contrariando suas expectativas iniciais, a vida prosseguiu. Ele terminou a escola, trabalhou como assistente administrativo e se tornou o primeiro em sua família a se formar em uma faculdade, em julho deste ano. O assistente social Pierre Freitaz, de 29 anos, é hoje um dos centenas de milhares de brasileiros que aprenderam, nos 35 anos de epidemia do HIV, "que é possível viver com o vírus. Não sem enfrentar lutas cotidianas que deixam marcas, algumas visíveis, outras invisíveis, todas dolorosas".

Nos últimos anos, "cada vez mais jovens como Pierre enfrentam os mesmos temores. Nunca tantos foram diagnosticados com o vírus ou com a doença que ele causa, a Aids", segundo dados divulgados pelo Ministério da Saúde na semana passada. Treze anos após o exame de Pierre, "mais que duplicou o número de jovens do sexo masculino, entre 15 e 19 anos, que desenvolveram a doença. São sete a cada 100 mil habitantes. Entre aqueles com 20 a 24 anos, a epidemia também dobrou. São 33 a cada 100 mil habitantes". O crescimento é motivado em parte pelo aumento dos casos entre homens que fazem sexo com homens. Entre 2003 e 2015, o número de pessoas com a doença nessa população cresceu uma vez e meia.

"Os dados sugerem que, no futuro, poderemos ter uma epidemia maior no Brasil do que a de hoje, diz o cientista social Alexandre Grangeiro, especialista em epidemiologia e avaliação de sistemas de saúde da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP). A incidência do vírus entre os jovens que nasceram a partir dos anos 1990 já é maior do que entre os que nasceram nas décadas de 1960 e 1970, a geração que mais havia contribuído para o número de casos no Brasil até hoje".

A política brasileira de combate à epidemia é reconhecida internacionalmente. O país foi um dos primeiros a adotar uma estratégia contra a doença. Fundado em 1986, o programa nacional encontrou condições ótimas para se desenvolver em plena abertura democrática, com o fim da ditadura e o início das discussões da nova constituição, que adotaria um sistema de saúde universal, uma das bases do sucesso do modelo. "Mas, nos últimos anos, o aumento de casos como o de Pierre e mudanças na política adotada pelo Ministério da Saúde levam especialistas e ativistas que ajudaram a fundar o programa a questioná-lo. A resposta brasileira não é mais um exemplo a ser seguido", afirma o psicólogo Salvador Corrêa, coordenador executivo da Associação Brasileira Interdisciplinar de Aids (Abia). "A política fracassou e colocou em xeque a capacidade do país de enfrentar a epidemia".

A crítica não é unânime. O infectologista Ricardo Diaz, da Universidade Federal de São Paulo, lembra que muitas epidemias seguem ciclos de alternância entre períodos com mais e com menos casos. "Isso aconteceu com a Aids em San Francisco, nos anos 1980 e 1990. Pode estar acontecendo no Brasil", afirma. Essa seria uma explicação mais reconfortante para o aumento do contágio entre jovens. Seria um mau passo do governo, porém, basear-se apenas nela para definir seu curso de ação.

Em 2003, meses antes de Pierre cogitar se matar, o governo brasileiro começava a receber reconhecimento internacional pela estratégia contra a Aids. Em uma cerimônia em Washington, em maio, o então chamado Programa Nacional de DST/Aids do Ministério da Saúde recebeu da Fundação Bill e Melinda Gates US$ 1 milhão como prêmio. A política combinava acesso gratuito e em massa a medicamentos antirretrovirais com campanhas ousadas de prevenção. No mesmo mês, o então coordenador do programa, Paulo Teixeira, havia aceitado um convite da Organização Mundial da Saúde (OMS) para formular a nova política da entidade para a Aids, inspirado na experiência brasileira.

Um grande acerto ocorrera em 1996, quando cientistas confirmaram que novas drogas antirretrovirais, combinadas, poderiam evitar a replicação do vírus no organismo. O governo brasileiro foi ágil e aprovou no mesmo ano a distribuição gratuita, pelo Sistema Único de Saúde, do coquetel de antirretrovirais para pessoas com vírus HIV ou Aids. Naquele momento, OMS e Banco Mundial defendiam ênfase na prevenção e não no tratamento. Ao agir contra essa orientação internacional, "o Brasil inovou e se tornou o primeiro país em desenvolvimento a investir em massa nos antirretrovirais". As mortes pela doença, que estavam na casa de 15 mil em 1996, caíram para 12 mil no ano seguinte e alcançaram o patamar das 10 mil em 1998. O reconhecimento da estratégia pela OMS em 2003 foi a coroação internacional da política brasileira.

"Uma explosão de DST"

A partir desse período, porém, o país começou a registrar a piora de alguns indicadores. Isso ocorreu por uma combinação de acomodação no sucesso e aumento da burocracia para correções de rumo na estratégia. "Na média nacional, o número de casos de Aids parece estável nos últimos dez anos". Mas isso esconde detalhes importantes. Quedas nas regiões Sudeste e Sul ajudaram a puxar para baixo a média nacional. No entanto, houve crescimento do número de casos no Norte e no Nordeste. "Existe a possibilidade de o aumento de casos nessas regiões resultar apenas da melhora de notificação. Mas ele pode se relacionar também à dificuldade de acesso a informações e serviços de saúde", diz a sanitarista Tatiana Lima, professora de epidemiologia na Universidade Estadual do Rio de Janeiro, que estudou as disparidades regionais da epidemia.

Surgiu um arranhão na imagem do Brasil como referência mundial. Em 2014, dados do Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/Aids, o Unaids, "sugeriam que o número de casos no país havia aumentado entre 2005 e 2013, enquanto caía no mundo. Um novo relatório, de julho, mostra o Brasil no grupo de países em que a epidemia cresce". Após a divulgação, o diretor executivo da Unaids, Michel Sidibé, em entrevista ao jornal O Estado de São Paulo, apontou a responsabilidade do governo brasileiro.

"No Brasil, vemos um aumento da Aids e, em parte, por complacência, afirmou Sidibé. Por anos, vimos a força incrível do Brasil liderando o debate mundial. Hoje, essa força foi perdida".

Atrapalhou o Brasil, "a sensação de epidemia sob controle". Com o reconhecimento internacional, a política brasileira perdeu o impulso de encontrar seus pontos fracos e adaptar-se à evolução da epidemia. "Somos vítimas de nosso próprio sucesso", diz Grangeiro, da USP. Na visão dele, o programa brasileiro começou a enfatizar as vitórias em vez chamar a atenção para os problemas. Grangeiro lidou com a ambiguidade entre março de 2003 e agosto de 2004, quando chefiou o programa nacional de HIV/Aids. "Nenhum governo quer expor problemas. É como se isso estragasse um programa de êxito internacional".

O discurso de estabilização da epidemia, "o mesmo repetido na divulgação dos dados na semana passada", fez o  combate à Aids perder prioridade no governo. "O departamento perdeu poder político e autonomia para decidir", afirma o epidemiologista Pedro Chequer, que liderou o programa duas vezes, de 1996 a 2000 e de 2004 a 2006. O programa foi integrado formalmente à estrutura do ministério e, em 2009, transformou-se num departamento da Secretaria de Vigilância em Saúde. Nos anos 1990, o coordenador do programa era chamado de "ministro da Aids" pelo então ministro da Saúde, Carlos Albuquerque. Com a perda da autonomia, tornou-se mais difícil para os coordenadores da área despachar diretamente com o ministro da Saúde.

Outra mudança importante ocorreu no mesmo período. Até 2002, o financiamento da prevenção era feito, sobretudo, com duas linhas do Banco Mundial, repassadas a estados e municípios por convênios. ONG's e outras organizações da sociedade civil recebiam parte do dinheiro inscrevendo projetos em concursos públicos. Em 2003, os recursos passaram a ser distribuídos diretamente a estados e municípios que, por sua vez, assumiram ações e o repasse aos projetos da sociedade civil. A ideia tinha fundamento: os recursos internacionais haviam diminuído e a descentralização poderia aumentar o alcance das ações.

O número de municípios que recebem recursos cresceu, de 150 em 2003 para 929 atualmente, mas o impacto conjunto das ações não acompanhou essa evolução. "Alguns estados não conseguem desenrolar o repasse de recursos para ONG's por causa da burocracia", diz a socióloga Cristina Câmara, que chefiou entre 2000 e 2003 a unidade de articulação com a sociedade civil do programa de combate à Aids. "Em outros, não há vontade para aplicar os recursos, por se considerar que outras áreas da saúde são prioridade ou por não se querer destinar recursos a populações como profissionais do sexo e homens que fazem sexo com homens". Em 2012 descobriu-se que, quase dez anos após a descentralização, estados e municípios haviam deixado de usar R$ 161 milhões repassados pelo Ministério para ações de HIV/Aids. A situação persiste. "Há recursos que não estão sendo aplicados corretamente", afirma o ministro da Saúde, Ricardo Barros. "A informatização total do sistema estará pronta em poucos meses. Aí teremos o acompanhamento e só receberão recursos os estados, municípios e entidades que derem a informação sobre a aplicação do recurso".

A diminuição do repasse de recursos às ONG's afetou as ações de prevenções para grupos vulneráveis, como homens que fazem sexo com homens e profissionais do sexo. Para os ativistas, há ênfase no tratamento com medicamentos (que tornam a carga viral indetectável e impedem a transmissão do vírus), em detrimento de campanhas de prevenção mais agressivas. "Parece que o medicamento vai resolver tudo e não se discute mais prevenção", afirma Veriano Terto Junior, coordenador da área de acesso ao tratamento da Abia. A ênfase não é motivada só por avanços médicos, mas também pelo avanço do conservadorismo no Congresso. "Fomos impedidos de fazer campanha", afirma o infectologista Dirceu Greco, que dirigiu o departamento de DST/Aids entre 2010 e 2013. Ele foi exonerado após ter autorizado, sem aval do ministério, uma campanha voltada para profissionais do sexo que tinha como tema "Sou feliz por ser prostituta". "Não pode falar de gay, não pode ensinar prevenção na escola, não pode falar sobre sexualidade", afirma Greco.

"O avanço da epidemia entre jovens, especialmente entre gays, não é um problema exclusivamente brasileiro. Em termos globais, o número de casos entre homens que fazem sexo com homens aumentou 12% entre 2010 e 2015".

O recrudescimento da epidemia "acontece mesmo em países que avançaram muito em sua resposta à Aids", afirma o brasileiro Luiz Loures, diretor executivo adjunto do Unaids. Parte da explicação para o aumento vem de um fenômeno geracional. "Quando os nascidos no início dos anos 1990 começaram sua vida sexual, em meados dos anos 2000, os medicamentos antirretrovirais mais potentes já haviam transformado a Aids de mal fatal em doença crônica. Eles não viram ídolos morrer", afirma Fabio Mesquita, que foi coordenador do departamento entre 2013 e 2016. Essa falta de medo coincide com o declínio no uso de preservativo. De 2009 para cá, caiu de 76% para 66% a parcela de adolescentes de 14 anos que já tiveram relações sexuais e que afirmam ter usado camisinha na última vez.

Iniciativas recentes do Ministério da Saúde começam a aproximar as campanhas de prevenção do cidadão mais jovem, nem sempre com muito sucesso. Em 2015, perfis falsos criados pelo ministério no Tinder, um aplicativo para marcar encontros, procurava parceiros dispostos a fazer sexo sem preservativo para, então, informá-los: "É difícil saber quem tem HIV. Se divirta, mas se proteja". A campanha não agradou aos usuários. Na Olimpíada do Rio, a abordagem mudou. Orientados pelo ministério, 18 jovens usuários do aplicativo de encontros Hornet se tornaram conselheiros para informar sobre prevenção. Seus perfis estavam identificados com o lacinho símbolo do HIV/Aids. A versão no Twitter não foi tão bem-sucedida. A conta do ministério usou a gíria close certo como hashtag para espalhar mensagens de prevenção. A ação foi criticada por associar o vírus a homossexuais. Na semana passada, o ministério apostou em um bate-papo com youtubers. São iniciativas bem-intencionadas, mas ainda sem a frequência e consistência necessárias. "Em países que começaram a resposta cedo, como o Brasil, vemos que ficou uma resposta para o jovem de 30 anos atrás, diz Georgiana Braga-Orillard, diretora no Brasil do Unaids. É preciso atualizar a estratégia".

"Jovens como Pierre ajudam a modernizar as mensagens de prevenção. Ele está à frente de grupos de discussão de jovens soropositivos e faz palestras para jovens que não têm o vírus. Não quer que eles se arrisquem por não ter informações ou alguém com quem conversar. Quer evitar que outros jovens se vejam contemplando o abismo por terem um exame positivo para HIV em mãos".

POR: MARCELA BUSCATO
FONTE: ÉPOCA

É melhor viver sem Aids!

Por: David Uip (foto)
Médico infectologista e secretário de Estado da Saúde de São Paulo

Integrante da equipe do professor Vicente Amato Neto, auxiliei no diagnóstico do primeiro caso de Aids contraído no Brasil, em 1982. Era um homem do interior de Minas Gerais, que chegou ao consultório extremamente magro, com febre e sem histórico de viagem ao exterior. Cuidei do paciente até a sua morte. E vi muita gente morrer desde então, de complicações causadas pelo HIV.

"Na década de 1980, o óbito em curto espaço de tempo era o destino certo dos soropositivos. Não havia remédio, tampouco exame para detectar a infecção pelo vírus. Os pacientes sofriam demasiadamente. Era uma agonia. O desconhecido acompanhado do preconceito".

A exposição pela mídia do aumento do número de casos, em progresso geométrico, das vitimas da Aids, à época, foi maciça, suscitando medo na população que só com o passar dos anos, começou a se prevenir. Com a política de distribuição universal de medicamentos, adotada acertadamente no Brasil a partir da década de 1990, bem como o avanço das drogas desenvolvidas pela indústria, houve nítida e expressiva redução da morbidade e mortalidade por Aids. Um avanço, sem dúvida.

"Mas, ainda há  muitos óbitos de pessoas com Aids no mundo, inclusive no Brasil. Somente em São Paulo morrem em torno de 2,8 mil pessoas soropositivas todos os anos. Para efeito de comparação, embora qualquer morte seja lamentável, em 2015 houve 490 óbitos por dengue, no pior ano da história de transmissão da doença em nosso Estado".

É sintomático. Enquanto a dengue é uma doença que geralmente agudiza e evolui rapidamente para a morte em suas formas mais graves, e contra a qual não há medicamento específico, a Aids se tornou doença crônica, com tratamento disponível distribuído pelo SUS (Sistema Único de Saúde), e os soropositivos passaram a levar uma vida mais longeva.

Mas não é normal e nem bom ter Aids!

O atual silêncio sobre a doença, a postura de alguns setores e políticas retrógradas têm contribuído para se disseminar "a falsa imagem de que não há problemas em ser soropositivo", e isso contribui de forma decisiva para que a prevenção seja deixada de lado, não raramente abandonada e com muitos comportamentos de extremo risco.

"O tratamento contra a Aids por meio de antirretrovirais pode causar efeitos adversos importantes, como alterações metabólicas, doença arterosclerotica, alterações corpóreas (a exemplo de redistribuição irregular de gordura), alterações renais, hepáticas e ósseas, entre outras.

Definitivamente, é melhor não ter o vírus!

Não se pode fechar os olhos para a epidemia dentro da epidemia de Aids, que vem acometendo adolescentes e jovens, especialmente os homens que fazem sexo desprotegido com homens. "Eles não viveram o terror da doença na década de 1980/90, desconhecem o risco e não se previnem porque ninguém diz a eles que Aids mata e que o tratamento não é simples".

Convencer as pessoas a usar camisinha passa nitidamente por mudar a forma de se comunicar com a sociedade, e uma das saídas talvez seja adotar tom similar ao que hoje é feito em relação aos males do cigarro, e também reforçar o uso de novas mídias, mais acessadas pelos jovens.

São louváveis as iniciativas adotadas nos últimos anos para incentivar o diagnóstico precoce do HIV por meio de testes rápidos oferecidos na rede pública e mutirões de testagem. Neste ano a Secretaria de Estado da Saúde conseguiu mobilizar 580 municípios paulistas para a campanha "Fique Sabendo", que começou no último dia 25 de novembro e termina hoje.

Também é importante a política de prevenção pós-exposição (PEP) em centros de referência. A questão da pílula pré-exposição ainda merece uma discussão mais aprofundada, uma vez que envolve algumas indagações como o real potencial de adesão, além de não proteger contra outras Doenças Sexualmente Transmissíveis e gravidez indesejada.

"Mas o grande e urgente desafio é discutir novas políticas de prevenção e comunicação, sobretudo em relação aos grupos mais vulneráveis, que se contaminam todos os dias no país. Poder público, mídia e sociedade precisam falar mais, muito mais, sobre Aids, porque a epidemia ainda não tem data para acabar".