Não temos culpa, não somos vetores a serem exterminados!

Em uma carta aberta à sociedade brasileira, a Rede Nacional de Pessoas Vivendo com HIV e Aids (RNP+), o Movimento Nacional das Cidadãs PositHIVas (MNCP) e a Rede Nacional de Adolescentes e Jovens Vivendo com HIV/Aids (RNAJVHA) manifestaram o descontentamento com a campanha de prevenção do HIV para o carnaval 2017, lançada pelo Ministério da Saúde. No documento, emitido na quarta-feira (22), os ativistas dizem que o vídeo da campanha estigmatiza as pessoas vivendo com HIV e Aids no Brasil. Leia abaixo a carta na integra:

Não temos culpa, não somos vetores a serem exterminados!

A Rede Nacional de Pessoas Vivendo com HIV e Aids (RNP+), o Movimento Nacional das Cidadãs PositHIVas (MNCP) e a Rede Nacional de Adolescentes e Jovens Vivendo com HIV/AIDS (RNAJVHA) vêm à sociedade brasileira manifestar descontentamento com a campanha de prevenção do HIV para o carnaval, lançada pelo Ministério da Saúde nesta terça-feira (21), em Salvador. O vídeo, No Carnaval use camisinha e viva essa grande festa:

"Estigmatiza a nós, cidadãs e cidadãos de todas as idades, gêneros, raças e orientações sexuais vivendo com HIV e Aids no Brasil".

Supostamente a título de informação, o Ministério escolheu ressaltar que 260 mil pessoas com HIV ainda não iniciaram o tratamento antirretroviral com o coquetel de medicamentos fornecidos pelo Sistema Único de Saúde (SUS), quando poderia afirmar que:

"Das 715 mil pessoas diagnosticadas com o vírus, 455 mil estão em tratamento com o coquetel. E que destas, 410 mil, 90% das pessoas em tratamento, são tão pontuais com suas doses diárias que já alcançaram a supressão viral, o que, segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), torna a pessoa não transmissível. Para a OMS, estas 410 mil pessoas não transmitem o HIV porque alcançaram a supressão viral".

Nos serviços de saúde são cada vez mais frequentes "as reclamações sobre a falta e/ou o fracionamento destes mesmos medicamentos antirretrovirais". O Brasil que adotou a estratégia Testar e Tratar é o mesmo que:

"Relega a assistência a segundo plano, que omite que em algumas cidades pode haver espera de até seis (6) meses do diagnóstico positivo à primeira consulta com um médico que possa orientar corretamente a pessoa com HIV para o início de seu tratamento". 

O HIV e a Aids são carregados de estigma. "Por isso, pessoas com HIV sofrem diariamente com o preconceito e a discriminação, maior causa de abandono do tratamento". O acolhimento, "que há tempos deixou de existir", e um serviço com profissionais de saúde capacitados e especializados garantiriam a adesão e a continuidade do tratamento. "O governo sabe disso". É de responsabilidade executiva do Ministério da Saúde que a política de Aids esteja implementada por todo o País, para que:

"Sejam evitadas e reduzidas a média de mais de 12 mil mortes anuais ocorridas nos últimos cinco anos".

Voltando ao lançamento da campanha realizado no templo de Carlinhos Brown, o artista elogiou a iniciativa do Ministério; o ministro da Saúde, em meio à apresentação de dados epidemiológicos, recomendou que as 260 mil pessoas com HIV que não iniciaram seus tratamentos procurassem por apoio espiritual. O cerimonial encerrou a solenidade. O vice-governador da Bahia, o prefeito de Salvador, os secretários estadual e municipal de saúde, e representantes do movimento social organizado, "sem entender nada, enfeitaram a mesa".

Brasil, 22 de fevereiro de 2017.

Rede de Adolescentes e Jovens Vivendo com HIV/Aids – RNAJVHA
Movimento Nacional das Cidadãs PositHIVas – MNCP 
Rede Nacional de Pessoas Vivendo com HIV e Aids – RNP+ 

"FUNED/BH cancela convênios, devolve R$ 23 milhões ao ministério e diz que Estado não tem interesse em fornecer remédios para tratar AIDS"

Unidade I da Fundação Ezequiel Dias está atualmente demolida
e sem perspectivas de reforma - Imagem: O Tempo

Por: Litza Mattos

A paralisação das atividades de praticamente todas as cinco fábricas da Fundação Ezequiel Dias (Funed) nos últimos anos fez a instituição comunicar ao Ministério da Saúde o interesse em "cancelar convênios ligados ao fornecimento de medicamentos antirretrovirais, usados no tratamento da Aids, e realizar a devolução de R$ 23 milhões que seriam destinados às melhorias na unidade I, atualmente demolida e sem perspectivas de reforma".

A pedido do Departamento do Complexo Industrial e Inovação em Saúde (Deciis), que pertence à Secretaria de Ciência, Tecnologia e Insumos Estratégicos (SCTIE), a Funed reconheceu e comunicou ao órgão que não tem viabilidade técnica e econômica para manter as Parcerias para o Desenvolvimento Produtivo (PDP) voltadas ao fornecimento dos "antirretrovirais 2 em 1 (tenofovir e lamivudina) e 3 em 1 (tenofovir, lamivudina e efavirenz)". Os medicamentos combinados permitem tratar o HIV com apenas um comprimido ao dia.

Além disso, o documento a que O TEMPO teve acesso com exclusividade também afirma que "não é mais interesse do Estado manter a parceria para a reforma, ampliação e adequação da unidade I prevista em R$ 23 milhões para atender ao Certificado de Boas Práticas de Fabricação (CBPF)". Essa unidade fabril foi interditada pela Vigilância Sanitária no fim de 2013. Antes disso, ela produzia talidomida para o SUS, medicamento usado contra hanseníase. Pelo novo projeto, "a fábrica deveria abrigar a linha de produção do tenofovir, usado contra a Aids", mas, de acordo com o documento, juntos os projetos envolveriam ainda uma contrapartida de R$ 46 milhões do governo estadual.

A presidente em exercício da Funed, Cármen Lúcia Soares, diz que a decisão de abandonar a reforma da unidade I é do Conselho Curador, pois o órgão definiu como prioridades as áreas de biológicos, produção de soro, transferência de tecnologia da insulina e dos anticorpos monoclonais. De acordo com a presidente, a devolução de R$ 23 milhões está acontecendo apenas por questões burocráticas. "Quando o convênio foi feito em 2012, ele foi descrito com um objeto não executável. Então, a Funed devolveu esse dinheiro e combinou de apresentar e mesmo pedido com outra descrição executável", diz Cármen.

Segundo ela, para tentar colocar a fábrica funcionando novamente, foi feito um chamado público aos interessados em transferência de tecnologia, mas o pedido fracassou. "Não tem fábrica, não tem parceiros privado, não tem recursos de contrapartida e há necessidade de recursos humanos para produção", diz o documento. "Cármen afirmou ainda que os antirretrovirais estão sem demanda pelo ministério".

A fundação que já foi referência nacional na produção de medicamentos para o SUS, "hoje não produz praticamente nada". Até janeiro, apenas a fabricação de soros antipeçonhentos para o Ministério da Saúde estava em operação, mas essa produção foi interrompida para uma reforma na unidade para atender as exigências da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). "A unidade V, que consumiu pelo menos R$ 80 milhões em investimentos e nunca chegou a operar", atualmente apenas embala e rotula vacina contra meningite C que deveria estar produzindo desde 2014. No mês passado, a produção de talidomida, substância sedativa, anti-inflamatória e hipnótica, foi retomada, mas contrato finaliza em maio.

A Funed realiza diagnósticos da febre amarela. Segundo Cármen, a fundação já se ofereceu para ajudar a Fiocruz na fabricação de vacinas para a doença. Porém, o vice-diretor de Produção de Bio-Manguinhos, Antônio Barbosa negou a informação. Ele disse a O TEMPO que, para atender à demanda imediata, isso não seria possível. A Fiocruz busca parceiro internacional para reforçar a produção da vacina.

O Ministério da Saúde informou, por meio de nota, que foi iniciada, em 2016, revisão das Parcerias para o Desenvolvimento Produtivo (PDPs), visando o fomento à produção industrial brasileira e reduzir a vulnerabilidade do sistema de saúde. O país conta com 22 laboratórios públicos oficiais para a produção de medicamentos e insumos e, com a revisão, eles seriam especializados em oito plataformas que receberam um investimento privado de R$ 6,4 bilhões.

A Funed é uma instituição de extrema importância e foi contemplada, em uma portaria publicada no Diário Oficial da União dessa quarta-feira (22/02/2017), com um dos laboratórios públicos participantes da redistribuição dos projetos para a produção de insulina, diz o ministério. "O órgão garante que mesmo que a Funed pare de fornecer os medicamentos a população não ficaria desassistida".

"Sobre os antirretrovirais, a pasta esclarece que existem três plataformas produtoras que serão apoiadas e que houve uma atualização no protocolo de antirretrovirais, incluindo medicamentos mais modernos".

"PENTE FINO DO INSS: No total, já foram cancelados mais de 43 mil benefícios de auxílio-doença"


O pente-fino dos benefícios do Instituto Nacional Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) já proporcionou uma economia de R$ 715.432.233,00 ao Fundo da Previdência. Os recursos são referentes ao cancelamento de mais de 43 mil benefícios de auxílio-doença, autorizados pelas Medidas Provisórias 739, de julho de 2016, e 767, de janeiro de 2017. Ao todo, já foram revisados 37.323 benefícios de 108.643 pessoas convocadas por meio de carta.

Na avaliação do secretário-executivo do Ministério do Desenvolvimento Social e Agrário (MDSA), Alberto Beltrame, o resultado da revisão mostra o comprometimento do governo federal em melhorar a gestão e governança dos recursos públicos. "Nosso objetivo é apenas direcionar os benefícios previdenciários a quem realmente precisa", explica.

"Do total de benefícios revisados: 11.502 foram cessados por não comparecimento; 28.872 foram cancelados na realização da perícia; 2.636 tiveram data remarcada para cessação; 547 benefícios foram convertidos em auxílios-acidente; 1.695 foram encaminhados para reabilitação profissional e 3.383 transformados em aposentadoria por invalidez".

O MDSA e o INSS estão seguindo todos os critérios estabelecidos pela legislação para não cometer nenhuma injustiça. "As pessoas podem ficar tranquilas, pois não vamos cancelar benefício de quem tem direito", reitera Beltrame.

"Revisão: No total, serão chamados 530.191 mil beneficiários com auxílio-doença e 1.175.916 aposentados por invalidez com menos de 60 anos de idade que estão há mais de dois anos sem perícia. A convocação será feita por meio de carta com aviso de recebimento. Após o comunicado, o segurado terá cinco dias úteis para agendar a perícia pelo número 135".

"O beneficiário que não atender a convocação ou não comparecer na data agendada terá o benefício suspenso. Para reativar o auxílio, ele deverá procurar o INSS e agendar a perícia. Na data marcada para a realização da avaliação, o segurado deve levar documento de identificação com foto e toda a documentação médica disponível, como atestados, laudos, receitas e exames".

Benefícios: O Programa de Revisão dos Benefícios por Incapacidade reúne os segurados que estão há mais de dois anos sem realizar perícia médica. Veja, na tabela abaixo, a quantidade de benefícios que serão revisados por estado pela MP 767.


Benefícios mantidos há mais de 2 anos sem perícia
Auxílio-doença
Aposentadoria por Invalidez
Acre
3.467
2.827
Alagoas
17.445
18.450
Amapá
873
626
Amazonas
2.689
7.466
Bahia
31.154
73.219
Ceará
17.601
29.713
Distrito Federal
4.909
13.277
Espírito Santo
4.571
22.754
Goiás
11.445
30.082
Maranhão
20.785
22.602
Mato Grosso
9.578
14.788
Mato Grosso do Sul
7.832
15.856
Minas Gerais
36.648
190.100
Pará
15.165
15.363
Paraíba
13.221
20.683
Paraná
35.151
73.966
Pernambuco
14.127
34.801
Piauí
8.117
16.472
Rio de Janeiro
41.100
88.754
Rio Grande do Norte
6.031
17.446
Rio Grande do Sul
88.301
94.616
Rondônia
7.757
10.160
Roraima
587
1.366
Santa Catarina
28.076
73.444
São Paulo
91.578
272.451
Sergipe
7.899
10.079
Tocantins
3.994
4.555
Brasil
530.191
1.175.916

"Uma semana de otimismo na luta contra o HIV"


Nesta segunda-feira (20/02/2017), o site Universo A, publicou um artigo do infectologista Ricardo Vasconcelos a respeito das novidades divulgadas durante a Conferência Anual sobre Retrovírus e Infecções Oportunistas (Conference on Retroviruses and Opportunistic Infections – CROI), que aconteceu na última semana (de 13 a 16) em Seattle (EUA). A conferência reúne pesquisadores de todo o mundo e é o principal espaço internacional para a construção de uma ponte entre a pesquisa básica e clínica e a prática clínica no campo do HIV e vírus relacionados. "No artigo, o médico se diz otimista com a evolução das opções terapêuticas, incluindo a subcutânea que poderá ser administrada uma vez por mês; com as drogas mais potentes que apresentam menos efeitos adversos; e com o inicio do que poderá a ser uma profilaxia pós-exposição para a sífilis". Leia abaixo o artigo na integra:

"Direto de Seattle: Uma semana de otimismo na luta contra o HIV. Qualquer pessoa que tivesse participado do congresso mundial de HIV teria ficado eufórico e otimista como eu fiquei"

O CROI (Conference o Retroviruses and Opportunistic Infections) é o encontro de médicos, cientistas, pesquisadores e da comunidade que vive com HIV do mundo todo, que ocorre anualmente nos Estados Unidos, com o objetivo de unir forças para vencer a epidemia de HIV, tentando melhorar a vida de quem já vive com o vírus e procurando maneiras de zerar o número das novas infecções. Durante toda essa última semana o mundo científico da infectologia parou para ensinar e aprender o que há de novo entrando em campo no mundo do HIV. "E, acreditem, é muita coisa nova e boa que vem por aí". Aí vão algumas das coisas que foram discutidas por aqui:

Para quem "já vive com HIV" as opções terapêuticas não param de se multiplicar, tanto nas novas drogas antirretrovirais, que são cada vez mais eficazes contra o vírus e tem excelente perfil de efeitos colaterais, como é o caso dos novos "bictegravir ou doravirina"; quanto em novas formas de administração dos medicamentos, como por exemplo o novíssimo e potente antirretroviral GS-CA1, "que poderá ser administrado por via subcutânea 1 vez a cada mês ou talvez até em intervalos maiores".

Somado a isso, entende-se agora que, com drogas mais potentes contra o vírus, "poderemos montar esquemas de tratamento com cada vez menos medicamentos associados, melhorando e muito a vida de quem os utiliza, sem perder a segurança no controle da evolução da doença". Do ponto de vista técnico, está cada vez mais fácil viver com HIV e com saúde.

Para quem "não tem HIV", a certeza é cada vez maior de que a melhor maneira para se manter livre do vírus é associar estratégias de prevenção em vez de apostar que uma sozinha dará conta da tarefa. A essa associação damos o nome de Prevenção Combinada.

"Uma pessoa que na sua vida usa a camisinha em relações de risco o máximo que conseguir, e conta com a segurança garantida pelas profilaxias pós e pré exposição sexual (PEP e PrEP) nos momentos em que a camisinha está sendo deixada de lado, vai passar por esse mundo certamente sem HIV. E associado a isso, a certeza de que pessoas que já vivem com o vírus, quando estão em tratamento antirretroviral adequado com carga viral indetectável, deixam de ser transmissoras da doença (tratamento como prevenção), potencializa ainda mais as possibilidades de redução dos novos casos de infecção por HIV".

Um exemplo de implantação maciça da estratégia de prevenção combinada contra o HIV é o programa "EtE: Ending the Epidemic (acabando com a epidemia) da cidade de Nova Iorque", no Estados Unidos, apresentado no CROI 2017 pelo seu diretor Dr. Demetre Dascalakis. O EtE pretende financiar e facilitar o acesso à testagem para HIV, preservativos, PEP e PrEP para a população gay e outros grupos vulneráveis, e garantir tratamento para os já positivos, com o objetivo de controlar a epidemia de HIV na cidade até o ano de 2020.

Outro assunto quente foi o uso de anticorpos neutralizantes para o HIV, "que encontram-se em fases iniciais de pesquisa porém são muito promissores tanto para tratamento com indetecção de carga viral sem uso de antirretrovirais, quanto para prevenção com PrEP, e chegando até a possibilidade de um caminho para a cura da doença".

Do ponto de vista técnico, está cada vez mais fácil se proteger do HIV!

No entanto, a apresentação que mais chamou a atenção foi a do francês Dr. Jean-Michel Molina, que apresentou um ensaio clínico do grupo Ipegay que mostrou que "o uso de um antibiótico até 3 dias depois de uma relação sexual de risco reduziu de maneira significativa a incidência de infecções por sífilis e clamídia" entre gays da França e Canadá. Mais informações ainda são necessárias para se afirmar que a medida será eficaz de maneira duradoura e o impacto que isso traria para a resistência bacteriana a antibióticos, mas a boa notícia é que começa a se desenhar no horizonte a possibilidade de termos uma PEP para sífilis em breve.

"E de quebra ainda encontrei num restaurante jantando o notável paciente de Berlin, Timothy Brown, o único homem curado do HIV até hoje. Sorridente e descontraído, vivendo sua vida com saúde e esperança".

Nessa semana foi emocionante ver que os pesquisadores do mundo todo estão empenhados para encontrar soluções para problemas de saúde que atingem de maneira desproporcional a população gay, como o HIV e a sífilis. "A parte técnica dessa história não para de melhorar, mas cabe a cada um de nós fazer a sua parte e estar sempre em dia com a prevenção combinada, testagem e tratamento do HIV e demais ISTs (infecções sexualmente transmissíveis) que podem vir a aparecer".

FONTES: UNIVERSO A - AGÊNCIA DE NOTÍCIAS DA AIDS

"Como a Tailândia eliminou o HIV de mãe para filho, e o que pode ensinar ao Brasil"


"O exemplo da Tailândia, que conseguiu o feito em 2016, ressalta a importância de oferecer acompanhamento e tratamento adequado às gestantes. Resultados brasileiros indicam que avançamos na área, mas as dimensões do país criam distorções regionais".

Quando a Organização Mundial da Saúde (OMS) anunciou que a Tailândia eliminara a transmissão do HIV de mãe para filho, aquilo que os epidemiologistas chamam de transmissão vertical do vírus, a novidade mereceu recepção acalorada das autoridades de saúde: "Depois de 20 anos de esforços intensos nessa região, nós temos provas de que é possível assegurar a todas as crianças o direito de nascer livres do HIV", disse, na ocasião, Marie-Pierre Poirier, diretora regional do Unicef para a Europa e Ásia  Central.

Àquela altura, em junho de 2016, "a Tailândia se tornava o segundo país do mundo a obter esse tipo de validação da OMS. O primeiro, Cuba, recebera o carimbo do órgão no ano anterior. Para isso, ambos baixaram a taxa de transmissão vertical a níveis inferiores a 2%, ou seja, a cada 100 gestantes infectadas pelo HIV nesses países, nascem duas crianças, ou menos, com o vírus".

O caso Tailandês chamou atenção por ser o primeiro em toda a Ásia, e por causa da extensão do problema que o país enfrentara: "na Tailândia, a epidemia de Aids alcançara números mais expressivos que em Cuba (um país conhecido pelo sistema de saúde universal exemplar). Em 1997, pior ano da epidemia no país asiático, 2 adultos a cada 100 mil estavam infectados pelo HIV". Em Cuba, no mesmo ano, "a taxa de infecção era de 0,02 pessoas a cada 100 mil". A população tailandesa é também maior que a cubana, são pouco mais de 11 milhões de cubanos contra 67 milhões de tailandeses (ambas parecem pequenas, comparadas aos 200 milhões de brasileiros). "O feito tailandês dava sinais de que outros países com população expressiva podiam alcançar resultados semelhantes". Um artigo publicado na semana passada no periódico Jornal Internacional de Pediatria e Saúde Infantil reconta a história das políticas de saúde tailandesas, para tentar explicar o sucesso do país na área.

"A transmissão do HIV de mãe para filho pode acontecer durante diferentes etapas da gestação e aleitamento. Na ausência de tratamento, estima-se que as chances de a criança ser contaminada pelo vírus variem entre 15% e 35%. Se a mãe receber o tratamento devido, por outro lado, os riscos caem para algo inferior a 5%".

Na Tailândia dos anos 1990, algo entre 20% e 40% das crianças nascidas de mães portadoras do vírus acabavam sendo contaminadas também. "Essa taxa caiu para 1,9% em 2015". Para Usa Thisyakorn, professora da Universidade de Chulalongkorn em Bangcoc, e autora do estudo, esse sucesso só foi possível graças à disposição do governo tailandês em desenhar políticas públicas contra a aids que tiveram continuidade ao longo dos anos, e cujos progressos eram avaliados pelo ministério da saúde do país: "Nosso resultados mostram o quanto pode-se alcançar quando a ciência e a medicina são usados para nortear compromissos políticos e sociais", disse Thisyakorn a ÉPOCA.

A Tailândia não precisou ser muito inovadora para reverter suas taxas elevadas de transmissão vertical. Em grande parte, segundo Thisyakorn, "o país seguiu, de maneira consistente, estratégias já traçadas pela OMS". Para evitar a contaminação de mulheres em idade reprodutiva, o governo investiu em campanhas educativas, com o objetivo de estimular o uso de preservativos. Mais recentemente, a partir do ano 2000, "incluiu a testagem voluntária para HIV aos exames que as gestantes fazem durante o pré-natal, e foi bem sucedido ao garantir que cerca de 99% das mulheres grávidas recebessem esse tipo de acompanhamento". Outra medida importante, tomada em 1995, foi a emissão de licenças compulsórias para produção de antirretrovirais. Esses medicamento, usados para tratar quem tem o vírus, eram vendidos no país a preços proibitivos. Ao emitir licenças compulsórias (algo popularmente conhecido como quebra de patente) o governo permitiu que empresas nacionais fabricassem os medicamentos. Graças a isso, pode comprar em grande quantidade os remédios mais baratos.

"O resultado: em 2015, 95% das gestantes contaminadas por pelo HIV recebiam tratamento com antirretrovirais. A continuidade dessas medidas só foi possível porque o governo decidiu investir. Em 1988, o orçamento do programa para HIV/aids era de US$684 mil. Em 1997, já chegara a US$87 milhões".

Além de "Cuba e Tailândia, Armênia e Moldávia também receberam a validação da OMS, depois de fazer suas taxas de transmissão vertical cair abaixo de 2%". Estima-se que outros países, como EUA e Canadá também tenham estatísticas semelhantes, apesar de não ter buscado a validação da OMS. Nas Américas, a Organização Panamericana da Saúde (Opas) "situa o Brasil em um grupo de oito países do continente que estão próximos de eliminar a transmissão vertical do HIV, e têm taxas de transmissão vertical entre 2% e 5%". Segundo o órgão, a taxa brasileira de era de 4,4% em 2014. Dados do Ministério da Saúde brasileiro atestam que o país avançou nesse campo: em 2004, a taxa de transmissão vertical no país era de 6,8%.

No Brasil, em lugar da taxa de transmissão vertical, o governo usa a incidência de aids em menores de 5 anos como indicador para monitorar o desempenho do país nesse setor, entende-se que, na maioria dos casos, as crianças nessa faixa etária foram contaminadas durante a gestação, parto ou amamentação. Em 2003, a taxa de incidência era de 5,6 crianças com aids a cada 100 mil. "Em 2015, último ano para o qual há dados disponíveis, caíra para 2,5". Parte dos bons resultados brasileiros pode ser atribuída a medidas semelhantes às tomadas pelos tailandeses: O programa de DST/aids do Brasil é pioneiro. E foi modelo para o Tailandês, inclusive, diz Silvana Quintana, professora do departamento de Ginecologia e Obstetrícia da Faculdade de Medicina da USP de Ribeirão Preto.

No Brasil, é alto o número de gestantes com acesso a acompanhamento pré-natal: segundo estimativas de 2014, 98% das gestantes brasileiras recebem esse tipo de acompanhamento. O governo também garante que 95% das gestantes com HIV tenham acesso a antirretrovirais, um número considerado ótimo pela OMS, que cobra essa cobertura dos países ao atestar que eles eliminaram a transmissão vertical. Ainda assim, há tendências que preocupam. Apesar dos bons resultados gerais, há diferenças regionais. "A incidência de aids em menores de 5 anos é maior na região Sul (3,9) que nas demais regiões do país. E mantém-se alta em alguns estados da região norte: chegou a 8,1 em 2015 em Roraima. Além disso, nos últimos dez anos, cresce a taxa de detecção de HIV em gestantes no Brasil, segundo o Ministério da Saúde, aumentou 28,6% entre 2006 e 2015".

"O grande problema do país é o nosso tamanho, diz Silvana. Existem locais onde o acesso é difícil. Onde a cobertura para sorologia ainda é pequena. Nós ainda não temos o mesmo alcance que a Tailândia - mas somos 200 milhões, eles são 67 milhões".

Em novembro do ano passado, o governo federal lançou um programa que deverá certificar as cidades brasileiras, com mais de 100 mil habitantes, que eliminarem a transmissão vertical. "Para receber a certificação, elas terão de apresentar taxas de detecção iguais ou inferiores a 0,3 crianças contaminadas pelo HIV para cada mil nascidas vivas". Segundo a pasta, o objetivo do programa é estimular as cidades brasileiras a aumentar seus esforços no combate a esse tipo de transmissão.

POR: RAFAEL CISCATI
FONTE: ÉPOCA/GLOBO