"Lucas Panek: Coisas que eu aprendi ao namorar um soropositivo"

Caro(a) leitor(a), nestes mais de 20 anos vivendo com HIV pude ler centenas, talvez milhares de mensagens, artigos, depoimentos "pessoais" a respeito das relações de convivência entre pessoas portadoras e não portadoras do vírus. Não há como citar aqui todas aquelas que "na minha opinião pessoal" merecem ser citadas. Porém, alguns dias atrás tive a oportunidade de ler o relato de "um jovem" e gostaria de compartilhá-lo com você. "Pessoalmente considero que este relato em poucas palavras tem muito a dizer e até a ensinar à todos nós". Deixo aqui meu agradecimento ao autor, "LUCAS PANEK" (foto), que autorizou a republicação do seu artigo neste blog. No final do artigo estão disponíveis os links do artigo original e do site do Lucas para que você possa acessá-los. Boa leitura e reflexão!

AUTOR: LUCAS PANEK

"RELATO: COISAS QUE EU APRENDI AO NAMORAR UM SOROPOSITIVO. UMA EXPERIÊNCIA CHEIA DE LIÇÕES E FORMA DE ENCARAR A CONDIÇÃO E A VIDA".

Eu tinha 19 anos quando conheci a pessoa que pensei ser o amor da minha vida. Ele usava óculos no estilo super man, tinha um sorriso delicado e cabelos angelicais, mas o que mais me encantava era o brilho no olhar que transparecia amor por tudo que fazia. Nos conhecemos num passeio por pontos turísticos da minha cidade, tivemos o nosso primeiro beijo naquele mesmo dia e, então, tudo aconteceu muito rápido.

O sentimento era muito intenso, a gente se via quase todos os dias e, por isso, comecei a perceber que ele tinha alguns hábitos diferentes: sua personalidade era, por vezes, meio instável, ele tomava muito remédio, ia ao hospital com certa frequencia e não ia além das preliminares, negando fazer sexo.

Então, em um dia de inverno, estávamos deitados na minha cama, na época meu quarto ficava no sótão da minha casa, quando ele perguntou se eu poderia assistir um filme com ele. Contou-me que aquele título, "Agora e Para sempre", significava muito pra ele e que era pra eu prestar atenção. Na trama, a atriz Dakota Fanning interpreta Tessa, uma garota que é diagnosticada com leucemia intensa.

Eu confesso que fiquei com um frio na barriga e, ao passo que o filme ia chegando ao final, o medo ia me consumindo. Não queria ter a conversa que viria a seguir. O filme acabou, eu levantei e fui até a janela, fiquei olhando para a rua esperando que ele dissesse que tinha câncer. Então, ele parou do meu lado e disse:

Eu tinha medo de te contar isso, porque não sei qual será a sua reação. Só quero que saiba que eu continuo sendo a mesma pessoa. Mas eu tenho Aids.

Pode parecer clichê, mas o quarto começou a rodar. Eu não sei o que pensei, só percebi que estava falando um monte de bosta:

Eu não acredito que você fez isso comigo.
Como não me disse antes?
E se eu tivesse com uma ferida quando fiz oral em você?
E se eu contraí quando as coisas esquentaram e eu fiquei sem roupa?

Eu vi que ele murchou e com um misto de tristeza e raiva falou:

Você não sabe do que está falando, não conhece o que eu tenho. Nunca faria algo que pudesse transmitir para outra pessoa porque eu sei o que eu vivo. Eu sei me cuidar e cuidar dos outros. Esperava muitas coisas de você, menos esse ódio ignorante.

Aquilo abriu meus olhos. Eu percebi que realmente não sabia nada sobre a Aids porque a única coisa que as pessoas sabem nos ensinar sobre o HIV é nos botar medo, falar sobre as consequências, mostrar vidas miseráveis.

Uma das poucas referências que eu tinha sobre viver com Aids naquela época eram os personagens soropositivos do seriado Queer as Folk (2000–2005). A série fez um grande serviço na época, mas foi gravada em um período onde o vírus ainda não estava sob controle e os tratamentos não eram tão desenvolvidos, então o tio de Michael, que na trama convive com a doença, era um personagem apático, sempre indisposto, triste e com muito azar.

E aquele menino que estava na minha frente não tinha nada de miserável. Ele era muito feliz, muito bonito, tinha dinheiro e tinha amor por tudo que fazia na vida. E com ele eu aprendi muitas coisas.

Aprendi que a própria comunidade nutre um grande preconceito com pessoas que são portadoras do vírus, pois o discurso é de acolhimento, mas quando um gay sai com um cara e descobre que ele tem HIV, o medo da doença fala mais alto do que o encantamento pela pessoa.

"Aprendi então, que o principal malefício da AIDS é que a pessoa passa a ser reconhecida pela doença e não por quem ela é".

Aprendi ainda que os remédios, o coquetel, tem vários efeitos colaterais e isso causa muitas indisposições. O fato de ele ter um temperamento instável fazia parte desses efeitos. E acho que essa é uma das partes mais tristes do problema. Por fim, aprendi a amar o que eu faço. Ele costumava me dizer que sempre fazia tudo com vontade, e que se doava inteiramente ao momento, por dois motivos:

"Ele ainda tinha a oportunidade de viver, mesmo com uma doença que mata muita gente, e pra provar que a vida vale a pena quando você ama".


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