"O HIV está longe de ser contido. As pessoas querem a cura, mas a verdade é que ainda precisamos percorrer um longo caminho para alcançá-la"

Por: Eron Rezende

Em 2014, quando um avião da Malaysia Airlines caiu na Ucrânia, com 100 especialistas em Aids a bordo, muitos afirmaram que a cura poderia ter desaparecido no acidente. Ricardo Khouri, 35, lembra desse caso como um equívoco.

"As pessoas querem a cura, mas a verdade é que ainda precisamos percorrer um longo caminho para alcançá-la. É pouco provável que a cura tenha ido com aquele avião".

Professor do curso de ciências da saúde da Universidade Federal da Bahia, "Khouri foi um dos patologistas que investigaram, nos últimos dois anos, uma variante mais agressiva do vírus HIV, encontrada em Cuba e que, agora, já se espalha pela Espanha". Longe de colocar em questão os avanços terapêuticos no combate à Aids, a descoberta, para Khouri, expõe a dificuldade que é lidar com HIV desde 1977, quando surgiram os primeiros casos de pacientes infectados.

"É um vírus extremamente mutante e com alta capacidade de replicação. Hoje, já temos 70 variantes relatadas".

No Brasil, segundo as estimativas mais recentes divulgadas pelo Departamento de DST, Aids e Hepatites Virais do Ministério da Saúde, há 734 mil pessoas infectadas por HIV, que ataca o sistema imunológico do corpo e pode levar ao desenvolvimento da Aids. Nesta entrevista à Muito, Khouri fala sobre o crescimento de casos no país, a agressividade do vírus e a possibilidade, tão aguardada de contarmos com uma vacina.

A variante do vírus HIV descoberta em Cuba foi considerada mais agressiva do que as variantes já conhecidas. Como essa agressividade se manifesta?

Em Cuba, em 2014, nós identificamos um surto em que pacientes infectados com HIV estavam desenvolvendo Aids muito mais rápido do que o esperado. O objetivo da pesquisa que fizemos, logo depois, foi identificar quais eram os fatores que levavam a essa evolução. O primeiro passo foi relacionar os vírus que estavam circulando em Cuba naquela época. "As pessoas acham que existe apenas um vírus da Aids, mas existem diversas variantes". Cruzando essa relação dos vírus com os dados clínicos dos pacientes, identificamos que se tratava de uma variante, a CRF19, fruto de uma recombinação viral; "uma variante mais violenta formada por 'pedaços' de outras variantes já existentes".

É possível dizer como essa variante CRF19 surgiu?

Já existiam registros dessa variante desde 2009. O que acontece, no caso do HIV, é que uma pessoa que tem um comportamento de risco repetidas vezes, uma pessoa que faz sexo sem camisinha com parceiros diferentes, por exemplo, "pode ter uma mesma célula infectada por variantes diferentes e essas variantes são capazes de se misturar e gerar novos vírus a partir daí". Isso acontece comumente no HIV. "Hoje em dia, existem em torno de 70 formas recombinantes diferentes já descritas".

Há ocorrência dessa variante mais agressiva fora de Cuba?

Existem trabalhos que mostram que essa variante já está presente e se expandindo na Espanha, independentemente da imigração de infectados cubanos. É uma recombinação que pode acontecer em grupos onde já existam outras variantes.

Até que ponto essa capacidade de reorganização do HIV pode dificultar o tratamento?

O vírus da Aids sofre mutações genéticas com facilidade. Talvez, das viroses que provocam infecção humana, seja a mais mutante de que se tem notícia. E essa capacidade de mutação dificulta muito o tratamento. Os tratamentos que temos disponíveis atuam em regiões específicas do vírus. "A ideia do 'coquetel' é, justamente, usar diversas drogas diferentes para agir em diversos 'compartimentos' do vírus". A capacidade de mutação, por menor que seja, inviabiliza o efeito de uma droga.

Com o 'coquetel', que permite atacar o vírus em diferentes frentes, uma única mutação não inviabiliza o tratamento por completo. Então, há um certo controle da replicação do vírus. "Por isso, o 'coquetel' é diferente para cada paciente, porque o conjunto de medicamentos deve ser pensando levando em conta com qual variante o paciente está infectado". O 'coquetel' tem as drogas de primeira escolha, que são aquelas estabelecidas previamente. "O acompanhamento do paciente indica se é preciso entrar com novas drogas".

Em relatório da Unaids, programa das Nações Unidas sobre HIV/Aids, divulgado no ano passado, "o Brasil é citado como um dos países em que os casos aumentaram. Como explicar isso num país em que programa de distribuição de medicamentos para o tratamento da Aids é considerado exemplar em todo o mundo? Houve um crescimento entre os mais jovens e os mais velhos".

A crença dos especialistas é que, "pelo próprio sucesso da terapia, que não oferece a cura, mas garante uma expectativa de vida próxima à dos não infectados, as pessoas parecem acreditar que a infecção não está mais presente ou que não existam muitas pessoas infectadas". Então, há um descuido em relação às situações de risco. "O crescimento, no Brasil, pode ser atribuído a essa postura comportamental".

Não vejo um relaxamento das políticas de combate à Aids por parte do governo. Ao contrário, no ano passado, o país aprovou uma medida que estabelece que todas as pessoas infectadas com HIV podem receber tratamento imediato, independentemente do estágio de infecção. Isso não acontecia no Brasil e ainda não acontece em muitos países. O tratamento, tradicionalmente, começava quando se chegava a um determinado nível de contaminação.

Quais os benefícios de se iniciar o tratamento em níveis mais baixos de contaminação?

"O tratamento reduz a carga viral e diminui o risco de propagação do HIV". A medida tem o objetivo de reduzir as possibilidades de transmissão e oferecer melhor qualidade de vida ao paciente. Esse novo protocolo clínico é um grande avanço para a história da epidemia da Aids no Brasil.

Quando esteve em Cuba, qual foi o cenário de combate ao vírus que encontrou?

O cuidado com os pacientes de HIV em Cuba é bastante criterioso e muito contínuo também. É um acompanhamento próximo. Existe uma postura de analisar todas as pessoas que vão para o sistema de saúde. Quando chegam lá, elas são submetidas a um teste de HIV. E há um acompanhamento próximo de como a doença está evoluindo no país. Isso possibilita que se encontrem determinadas variantes ou possíveis variantes mais agressivas muito cedo, que foi o que ocorreu.

No ano passado, a Organização Mundial da Saúde atestou que "a ilha conseguiu feito inédito de erradicar a transmissão, de mãe para filho, do vírus HIV e do vírus da sífilis". Todo ano, cerca de 1,4 milhão de mulheres com HIV engravidam no mundo. "Se não recebem tratamento, as chances de que transmitam o vírus ao bebê durante a gestação, o parto ou a amamentação variam entre 15% e 45%". Portanto, é um grande desafio conseguir romper esse círculo vicioso.

Há pessoas que se expõem ao vírus mais de uma vez e não são infectadas. Há uma constituição genética que favorece?

Sim. Há algumas variações genéticas que facilitam a multiplicação do vírus e sua ação deletéria mais rápida. "Em certas pessoas mais protegidas, o vírus encontra maior dificuldade para penetrar na célula. Em outras, esse obstáculo desaparece". Por outro lado, num relacionamento sexual, contam muito as condições em que se encontra a superfície dos órgãos genitais. "Se a mucosa dos parceiros estiver saudável, a transmissão do vírus será mais difícil quando comparada com outra que tenha, por exemplo, uma ferida".

As pessoas infectadas, tomando remédios que suprimem a detecção do vírus, podem transmiti-lo por contato sexual?

"Bem, a queda da carga viral no paciente diminui as chances de transmissão. Mas a gente não pode contar com essa sorte. Quem tem HIV não pode prescindir da proteção". Quando uma pessoa infectada começa o tratamento, exames são realizados periodicamente, para acompanhar o nível de contaminação. Num determinado momento do tratamento, muitos pacientes realizam os exames e os resultados mostram o nível de carga viral (quantidade do vírus no sangue) indetectável. "Mas isso não significa, de maneira alguma, que a pessoa foi curada e o risco de transmissão, zerado. Significa, apenas, que os exames que temos hoje não são tão sensíveis para detectar aquela replicação mínima do vírus no paciente".

O que podemos esperar do tratamento para a Aids no futuro? Acredita que virão mudanças importantes?

Acredito que grandes avanços já estão sendo realizados na profilaxia pré-exposição e pós-exposição ao vírus. "Na pré-exposição, por exemplo, pessoas que têm um comportamento de risco são estimuladas a contar com uma combinação de remédios extra que diminui bastante a capacidade de infectar novas pessoas. Isso não exclui a necessidade outras formas de prevenção", mas é um cuidado interessante que deve avançar nos próximos anos em muitos países, a exemplo do Brasil. No caso da pós-exposição, "pessoas que tiveram um contato de risco podem recorrer a um posto de saúde e iniciar imediatamente o tratamento contra o HIV, o que, em muitos casos, bloqueia a possibilidade de infecção". É uma medida que deve se popularizar também.

Alguns especialistas dizem que uma vacina contra o HIV estaria disponível a médio prazo, em 10 ou 15 anos. Acha que isso é realmente possível?

Existem dois tipos de vacina, a profilática e a terapêutica. "A profilática evita que a pessoa seja infectada. A terapêutica re-estimula o sistema imune a combater uma infecção já instalada". No caso do HIV, há testes bastante avançados sobre uma vacina terapêutica. Ela agiria fortalecendo a terapia que já usamos hoje.

Ainda estamos distantes de uma vacina profilática, que ofereça a imunidade?

Nesse sentido, estudam-se ferramentas de edição do DNA. O grande problema do HIV é que ele entra no DNA da célula do hospedeiro. Então, para destruir o HIV, você tem que destruir a célula. Se fica uma única célula infectada, ela tem capacidade de re-estimular novos vírus. "O que se estuda hoje é uma forma de retirar o HIV do DNA da célula.

"É algo muito novo e ainda distante. A contaminação por HIV está longe de ser resolvida".

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