"Pessoas que vivem com HIV - SE ESCONDEM - para evitar a discriminação e o preconceito da sociedade"


Por: Marcus Mesquita
(Mídia News/Cuiabá)

O pouco tempo de vida que lhe restaria e todos os sonhos que não conseguiria realizar foram os primeiros pensamentos de Maria, na época com 30 anos, em abril de 2005. Grávida de quatro meses do segundo filho, a mulher acabara de pegar os resultados dos exames de pré-natal e um deles revelou que ela era portadora do vírus HIV.

"Sem muitas informações sobre o tema, ela acreditou que não seria possível conviver com o vírus".

A enfermeira, que informou o resultado do exame, explicou a Maria que ela teria uma vida sem grandes complicações com o HIV, "caso seguisse corretamente o tratamento com os antirretrovirais". A paciente, no entanto, continuava acreditando que a descoberta era o anúncio do seu breve fim de vida. "No começo, quando eu descobri, achava melhor morrer, lembra Maria, que até então acreditava que o vírus circulava somente entre homossexuais". No imaginário da mulher, "o portador do HIV era uma pessoa esquelética, sem saúde e no leito de morte. Ela tinha a figura do soropositivo associada aos pacientes que contraíram o vírus no início da década de 80", período em que foi descoberta a Aids.

"Maria nunca havia usado preservativo em suas relações sexuais, pois sempre se considerou uma pessoa saudável".

O seu peso estava de acordo com a altura e a gestação do primeiro filho não teve complicações. No entanto, no início da segunda gravidez, ela começou a emagrecer, apareceram diversas feridas em seu corpo e a gestante percebeu que estava com baixa imunidade. "Nunca achei que eu pudesse ter HIV, pedi para fazer o exame por curiosidade, porque estava fazendo vários outros no pré-natal", conta. Depois de chorar copiosamente e pedir para que a enfermeira não revelasse a ninguém sobre o resultado do exame, ela decidiu ir para a parte que considerava a mais difícil: "contar ao marido". O caminho para casa, depois do diagnóstico, foi um dos percursos mais tristes que fez em toda a vida. "Eu queria uma luz para entender o que estava acontecendo comigo, queria chorar mais", diz.

Ao chegar à sua casa, ela conversou com o marido e, aos prantos, anunciou que era soropositiva. Sem conhecimento sobre os tratamentos, "Maria ainda revelou que deveria morrer em breve, assim como toda a família, incluindo o feto que carregava em seu ventre. Ela acreditava que todos haviam contraído o HIV". Eu tinha medo que o meu marido me abandonasse depois que contei, "mas ele me pediu calma e me apoiou. Ele permaneceu ao meu lado. Para mim, foi a prova de que ele me ama de verdade". O marido de Maria fez todos os exames para saber se também possuía o vírus. "No entanto, a mulher se surpreendeu com o resultado negativo dos testes". Ela conta que esperava que ele também fosse soropositivo, pois os dois nunca usaram preservativo em suas relações sexuais. "Eu fiquei feliz, mas foi surpreendente, porque eu achava que havia contraído dele", relata.

Depois do marido, o filho mais velho de Maria, na época com pouco mais de nove anos, também realizou os exames. Um dos maiores medos dela era de que ele pudesse ter contraído o vírus através de "transmissão vertical", que acontece de mãe para filho. "O resultado deu negativo, para a minha surpresa. Os médicos disseram que era quase um milagre ele não ter HIV também", comenta. Ainda gestante, Maria começou a ficar debilitada e decidiu dar início ao tratamento com os antirretrovirais. Ela foi a uma unidade do Serviço de Atendimento Especializado (SAE) da Capital (Cuiabá), onde os portadores do HIV recebem acompanhamento, e realizou os exames iniciais para ter acesso aos medicamentos. "Descobri que a minha carga viral estava muito alta e a minha imunidade estava baixa, por causa dos anos que passei sem tratar o vírus".

A mulher passou a receber acompanhamento médico e psicológico na unidade de saúde. Poucos meses depois de ser diagnosticada com o vírus, deu início ao tratamento com os antirretrovirais, tomando quatro comprimidos diariamente. A saúde começou a melhorar e o seu maior medo passou a ser a possibilidade de o filho que carregava em seu ventre poder nascer com o vírus. "Eu tinha muito medo que ele pudesse ter HIV também, por isso fazia exames todos os meses e tomava os medicamentos corretamente, para evitar que ele pudesse nascer com o vírus", explica.

"Depois de realizar todos os procedimentos necessários durante o pré-natal, o bebê nasceu. Para a felicidade da mãe, a criança não possuía HIV".

pois de 11 anos desde a descoberta do vírus, "Maria não descobriu de que forma contraiu o HIV". Ela acredita ter sido contaminada entre os 17 e 19 anos. Uma das possibilidades é a de ter se tornado soropositiva depois de receber transfusão de sangue, após um aborto. "Eu tinha 19 anos e estava grávida, mas acabei perdendo o filho. Eu tive muitas complicações por isso, então acabei precisando de sangue. Não sei se na época faziam os exames adequados para o sangue que era doado", explica.

A outra hipótese é a de que o namorado, com quem ela se relacionou do final da adolescência até os 20 anos, era soropositivo. Ele era o pai do filho que ela havia perdido. "Quase dez anos depois que terminei o nosso relacionamento, me contaram que ele havia morrido porque tinha Aids. Mas não sei se isso era verdade, pois ele nunca me contou nada. É muito complicado saber onde contraí o vírus", declara. Apesar de não ter certeza sobre a forma como tornou-se soropositiva, ela classifica como "sorte" o fato de ter descoberto o HIV anos depois de ter contraído o vírus e ter conseguido manter-se saudável, através do tratamento.

"Hoje em dia levo uma vida normal, a única diferença é que preciso tomar os meus remédios. Tenho algumas pequenas complicações por causa do vírus, como por exemplo, não posso tomar outros medicamentos por conta própria. Mas no geral, não tenho grandes problemas por ser soropositiva, afirma".

Mesmo acreditando que descobriu o HIV cerca de dez anos depois de contraí-lo, "Maria nunca desenvolveu a Aids, doença causada pelo vírus quando o sistema imunológico do paciente perde a habilidade de defesa". O médico e professor de infectologia, Ivens Cuiabano Scaff, que atende soropositivos na Capital, explica que:

"Os pacientes que fazem o tratamento adequado podem nunca chegar a desenvolver a Aids. A doença acontece quando a pessoa tem as células afetadas pelo vírus e sua imunidade acaba ficando muito baixa. Isso não acontece se o paciente realizar corretamente o uso dos antirretrovirais, pontua".

Apesar de todo o tratamento oferecido na rede pública de saúde melhorar a vida do paciente, Scaff afirma que as pessoas não devem deixar de se cuidar. "Para ele, os benefícios dos antirretrovirais acabam diminuindo a preocupação das pessoas em se prevenir contra Doenças Sexualmente Transmissíveis (DST)".

"As pessoas perderam a noção da gravidade da doença. Muitos veem os pacientes vivendo bem com o HIV e têm a falsa sensação de que não precisam se prevenir durante o sexo, lamenta. O médico conta que, em anos anteriores, costumava atender, aproximadamente, um paciente novo por semana. Atualmente, ele revela que há cerca de três novos pacientes no mesmo período".

A afirmação de Scaff referente ao aumento do número de portadores do vírus no estado de Mato Grosso é confirmada em um relatório da Secretaria Estadual de Saúde (SES), "que aponta o aumento no número de novos casos de HIV no Estado". Para Ivens Cuiabano Scaff, "muitas pessoas têm medo de realizar o teste". O exame é oferecido de modo gratuito em unidades do SAE em todo o Estado. Na Capital, há diversas unidades, entre elas uma no Hospital Julio Muller e outra no Centro Estadual de Referência de Média e Alta Complexidade (Cermac). "Scaff explica que os testes rápidos duram, em média, 20 minutos para serem concluídos. Segundo o médico, quanto antes descobrir a doença, melhor será a qualidade de vida do portador do vírus". A regra é "teste e trate". Se descobriu o vírus, a melhor saída é iniciar o tratamento o quanto antes. Atualmente, "vivemos um momento relativamente tranqüilo, pois os antirretrovirais estão mais modernos e conseguem manter a carga viral do portador indetectável", argumenta.

"Apesar da qualidade no tratamento e a evolução dos estudos referentes ao HIV, o médico conta que não há previsão de quando pode ser descoberta uma cura para o vírus. Ainda não podemos falar em cura, mas podemos garantir uma qualidade de vida ao portador".

O profissional destaca que a facilidade para receber o diagnóstico e o acesso aos medicamentos não foram suficientes para acabar com as mortes em decorrência do vírus. De acordo com os dados da SES, centenas de pessoas ainda morrem em razão do HIV no Estado. No ano de 2013, ocorreram 195 mortes por causa do vírus. O número aumentou em 2014, quando 209 portadores faleceram. No ano passado, porém, houve redução na mortalidade, 188 óbitos. De janeiro a março deste ano, foram 22.

"As pessoas continuam morrendo por Aids, ainda há muitos casos de pacientes que descobrem muito tarde ou abandonam o tratamento. Conforme Ivens, muitos pacientes deixam de lado o tratamento ou preferem nunca fazer o teste por medo do que os outros vão dizer ou pensar. Acredito que, atualmente, o maior problema enfrentado pelos portadores é o preconceito da sociedade, diz".

Apesar de ter descoberto o vírus há pouco mais de uma década, Maria ainda convive com o preconceito e o medo de que as pessoas descubram que é portadora do HIV. "Somente o marido sabe de sua condição. Nem mesmo os filhos, hoje com 20 anos e outro com 10, sabem que a mãe é soropositiva".

"Se você assume ser portador do HIV, as pessoas ficam com pavor. Não conto a ninguém porque tenho medo de sofrer preconceito e, principalmente, temo que meus filhos sofram. Não quero que alguém faça piada com eles por terem uma mãe soropositiva, confessa".

Ela trabalha como auxiliar de serviços gerais em uma empresa de Cuiabá. "Apesar de haver, na Constituição Federal, um artigo que proíbe uma empresa de dispensar o funcionário pelo motivo de ser soropositivo", Maria optou por não contar a ninguém no local de trabalho. Não sofro preconceito no meu trabalho "porque não comento sobre o assunto". Mas quando vejo alguém falando sobre o vírus, sempre tento esclarecer quando dizem coisas erradas.

"Para ela, muitas vezes o portador do HIV é tratado com coitadismo, como alguém que não deve ser inserido na sociedade. As pessoas olham para o soropositivo como um coitadinho, não veem como uma pessoa lutadora e batalhadora. O HIV pode acontecer com qualquer um, declara"

O preconceito também faz parte da vida de Luiz, de 32 anos, que descobriu ser soropositivo há oito anos. Somente cinco conhecidos sabem que ele tem o vírus e faz o tratamento.

"São poucos aqueles que aceitam conviver com quem possui HIV, sempre existe o preconceito na sociedade".

Ele mora com a avó e alguns tios, mas nunca comentou sobre o assunto com eles. Apesar disso, acredita que os parentes sabem de sua condição. "Nunca falei para a minha família, mas acho que eles sabem, sim. O meu avô, que já faleceu, sempre me levava para o SAE, mas nunca me perguntava o motivo. A minha avó sempre pergunta se já tomei os remédios. Acho que meus parentes sabem, mas não comentam", conta. Luiz revela que contraiu o HIV de um rapaz com quem se relacionou durante três anos. "Eles não usavam camisinha durante as relações sexuais". e o parceiro nunca disse que possuía o vírus.

Eu tive uma ferida no corpo, comecei a ficar debilitado e decidi procurar um médico. "Quando fiz os exames, descobri que estava com HIV e SÍFILIS", Ao descobrir a doença, o rapaz chorou durante o dia inteiro e acreditou que viveria poucos anos a mais. Ele decidiu iniciar o tratamento alguns meses depois de descobrir o vírus. "Eu tive suporte dos médicos e das enfermeiras para o meu tratamento. Antes de começar a tomar os remédios, eu havia ficado debilitado, pois estava com uma carga viral alta. A situação melhorou depois que iniciei as medicações", conta.

Atualmente, "Luiz toma três comprimidos de antirretrovirais por dia". Além do HIV, ele também teve que lidar com a descoberta de que o ex-namorado havia mentido sobre a própria identidade. "Ele me viu debilitado e comentou que eu estava magro. Ele também falou que havia tido uma pneumonia recentemente e o acusaram de ter HIV. O pior de tudo, foi quando eu vi o documento dele e descobri que ele mentiu pra mim até sobre o nome que tinha", lembra. O ex-namorado e o rapaz nunca mais se falaram. No entanto, ele conta que às vezes o reencontra e chega a sentir "calafrios". Quando o vejo hoje em dia, sinto tremedeira, pois me traz lembranças ruins. Ele também deve fazer tratamento, pois está bem.

"Nunca imaginei que ele pudesse ter HIV, acreditava que somente pessoas muito magras ou com aparência abatida fossem soropositivas".

"Antes de começar a tomar os remédios", eu havia ficado debilitado, pois estava com uma carga viral alta. "A situação melhorou depois que iniciei as medicações". Desempregado, Luiz conta que "nunca assumiu ser soropositivo no último emprego", na área de faturamento de uma empresa. No entanto, como teve um problema de saúde e precisou alterar a medicação, as constantes reações contrárias do organismo o fizeram pedir demissão. "Eu comecei a faltar muito ao serviço, porque estava me adaptando ao novo remédio. O meu patrão conversou comigo e me aconselhou a pedir licença, mas eu preferi me demitir, pois não queria ficar empregado sem trabalhar", diz.

"O vírus de Maria e Luiz está indetectável, em razão dos tratamentos com os antirretrovirais. Em meio às dificuldades de aceitação, aos medos e aos preconceitos, eles tiveram que aprender a viver com com o HIV".

O primeiro relacionamento amoroso de Luiz aconteceu quatro anos depois da descoberta do vírus. "Ele conta que tinha medo de transmitir o HIV para um futuro parceiro e, por isso, optou por se manter sem relações durante anos". Atualmente solteiro, ele afirma que nunca mais fez sexo sem camisinha. "Hoje eu uso preservativo em todas as relações sexuais que tenho". Não estou namorando, mas sempre que tenho relações, me protejo. "Não revelo de imediato que sou soropositivo, pois me cuido para não apresentar riscos ao meu parceiro. Somente falo sobre o HIV se o relacionamento tornar-se sério", relata. Ele destaca as mudanças que aconteceram na sua vida desde o dia em que pegou o exame que apontou que era portador do vírus. "Mudou muita coisa em mim. Hoje tenho mais consciência sobre as coisas, antes era muito desregulado. Agora eu aproveito mais a vida, vivo o hoje como se fosse o último dia, reflete".

"Os nomes dos portadores de HIV citados nesta reportagem foram alterados a pedido deles. Com medo de serem alvos de preconceito, eles solicitaram que suas identidades não fossem reveladas".