"Assim como personagens da ficção, no mundo real, muitas mães abrem o coração e adotam crianças que vivem com HIV"

Por: Naiara Sobral
(Gshow)

"No final das contas, é só uma criança querendo ser amada. Só isso. Nada mais".

É assim que Adriana Cesar, de 47 anos, resume em poucas palavras seu encontro com Mateus. Este é o mesmo caso de amor de Carolina, personagem de Juliana Paes na novela Totalmente Demais. Na trama, ela se apaixona pelo pequeno Gabriel (Ícaro Zulu), soropositivo, e não desiste de adotá-lo por conta da sua condição. "Achei genuína a atitude de adotar. Diante de uma impossibilidade, eu adotaria", disse a atriz em entrevista recente ao Gshow.

Hoje com quatro anos, Mateus entrou na vida de Adriana aos seis meses de vida, quando estava na Sociedade Viva Cazuza, no Rio de Janeiro. Foi amor à primeira vista. Assim como a editora de moda da ficção, a história da turismóloga se mistura a de muitas outras mães da vida real, que encontram na adoção uma forma de realizar o sonho de ter um filho. Depois de algumas tentativas frustradas de inseminação artificial, ela e marido, o músico Sérgio Cavalcante, entraram na fila do Cadastro Nacional de Adoção.

"Aquela folha é uma coisa muito superficial, fria. Entramos no processo com a vontade de ter um filho e não ficamos muito presos a detalhes. E essa questão do HIV era só um detalhe pra gente, conta".

Em pouco mais de um ano, Mateus estava morando com a nova família. "Quando uma criança chega na sua vida, tudo muda. Você não pensa muito no restante. É só a carinho, amor e cuidado", revela Adriana. Ao completar dois anos de idade, Mateus precisou passar por uma nova prova de fogo: confirmar os exames para ter certeza sobre a infecção pelo vírus. O resultado negativo foi apenas mais um capítulo na história da família. "Realmente nunca vivemos nenhum tipo de preconceito. Tivemos muita sorte, pois não sentimos nem a cobrança para fazer o exame. Só queríamos viver", diz.

O chamado "falso positivo" ainda assombra muitas crianças que vivem em instituições no Brasil atualmente. Por conta do resultado, que pode se repetir por alguns meses após o nascimento devido aos anticorpos da mãe, muitos bebês são impedidos de entrar na fila de adoção. Segundo Georgiana Braga-Orillard, diretora do UNAIDS (Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/AIDS) no Brasil, esse é um dos principais entraves na adoção de uma criança soropositiva.

"Muitas crianças não vão para adoção porque alguns juízes ficam esperando essa negativação eterna, que pode acontecer ou não. Esse processo todo faz com que crianças fiquem mais velhas nessas instituições, o que é muito triste, salienta".

Georgiana observa que o objetivo é chegar a zero bebês infectados através da transmissão vertical, de mãe para filho, em geral no parto ou na amamentação, mas os números ainda são altos. Estima-se que 300 crianças nasçam com HIV por ano. Atualmente, 90 estão na fila da adoção esperando por um lar. "É muito complicado. Apenas 3% aceita criança com HIV e quando faz o cruzamento dos desejos, fica ainda mais difícil. Tem a questão da idade, raça, cor... uma série de impedimentos por parte do adotante", lamenta.

"A infecção pelo vírus não tem cura, mas isso não quer dizer sinal de doença. Ter HIV (o vírus) não é o mesmo que ter AIDS (a síndrome clínica). Crianças com HIV são como outras crianças: precisam de amor, atenção, escola. Com o tratamento correto, conseguem ter uma vida absolutamente normal, completa".

Esse é o caso de Rafaela Queiroz, de 24 anos, soropositiva desde pequena. A trajetória da estudante de psicologia fez uma pequena curva quando seus pais biológicos descobriram o HIV tardiamente e faleceram. Rafaela e a irmã, soronegativa, foram adotadas pelos tios. "Meu diagnóstico foi mais um entendimento do que eu já ouvia falar desde pequena. Não teve impacto algum porque nunca houve distinção entre a criação da minha irmã e a minha. Posso dizer que fui brindada pela falta de preconceito", lembra. Desde os cinco anos a jovem faz tratamento com remédios e sabe do vírus desde os nove. "Sua carga viral é indetectável. Militante da causa desde os 15 anos, Rafaela nunca se escondeu, mas tudo ganhou outro contorno no final de 2015, quando começou a participar mais ativamente de campanhas e entrevistas nas redes sociais".

De lá pra cá, o processo foi muito natural e ela não se assusta com a exposição. Nunca sofri preconceito, mas se vier a acontecer sou muito bem resolvida. Isso tudo foi só uma questão de ampliar minha história, vivenciar, acolher essas pessoas que não estão sendo acolhidas pelo serviço. Meu medo é não dar conta da demanda. Fico pensando: e se me perguntarem alguma coisa e eu não conseguir responder todo mundo?. Pondera.

Rafaela e Mateus tiveram sorte, mas nem sempre é assim. Adriana Cesar sabe disso, e é justamente por isso que a mãe de Mateus continua nos grupos de adoção e gosta de falar sobre o assunto. "Não quero me distanciar desse mundo. Quero que as pessoas parem para pensar. Filho é filho. No final das contas, é sempre a história de uma pessoa ou um casal querendo amar uma criança e uma criança que está num abrigo querendo ser amada. Independente de cor, idade ou qualquer outra coisa. É só uma criança querendo ser amada", defende.

"Georgiana Braga-Orillard endossa o discurso de Adriana e de tantas outras mães, em nome de crianças que não têm voz, mas continuam à espera de um lar. O que a gente pode dizer é que esses jovens e crianças não precisam de um rótulo, só precisam de amor, finaliza".

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