Não é só de antirretrovirais que vivem as pessoas com HIV!


Tratamento como Prevenção (TASP): Como, quando, onde, para quem, com que remédio? Para o pesquisador Veriano Terto, da ABIA (Associação Interdisciplinar de Aids), são muitos pontos de interrogação sem respostas. Será que as pessoas vivendo com HIV conhecem os benefícios da TASP?

"Apesar de muitos estudos, há pacientes que não acreditam que com a carga viral indetectável não transmitem o vírus HIV. Eles temem DST, estigma, criminalização. Há médicos que nem falam sobre isso. Falta explicar quais são os benefícios da TASP tanto para as pessoas com HIV, como para aquelas que não têm o vírus".

O benefício para o paciente, assim como o respeito à sua autonomia e aos direitos humanos são fundamentais para o sucesso desta e de qualquer outra estratégia de controle da epidemia.Veriano participou na manhã desta sexta-feira (13/05), em São Paulo, do debate sobre o papel dos antirretrovirais na prevenção do HIV.

"Não somos vetores de transmissão como mosquitos e não adianta oferecer tratamento como prevenção e o cidadão não ser atendido de forma integral. Não é só de antirretrovirais que vivem as pessoas com HIV".

Como falar de TASP e não oferecer o mínimo de conhecimento sobre o tratamento ao paciente? Na prevenção combinada temos de levar em consideração as estratégias comportamentais, sociais, políticas e biomédicas. "O medicamento não é uma bala mágica que resolverá o problema da prevenção", observou Veriano. Como virar protagonista da sua própria saúde se a gente nem sabe o que está tomando?

A infectologista do Programa Municipal de DST/Aids de São Paulo, Zarifa Khoury, também participou da discussão no Seminário Nacional sobre os 20 anos de Terapia Antirretroviral no Brasil e concordou com Veriano. O Departamento de Aids foi infeliz em chamar essa estratégia de tratamento como prevenção.

"Não é prevenção, é tratamento. Quanto mais cedo um paciente iniciar seu tratamento antirretroviral, menos comprometido fica o seu sistema imunológico, então, há sim muitos benefícios para os soropositivos".

Mas, segundo Zarifa, todo tratamento precisa ser negociado entre médico e paciente:

"A gente (o médico) não é dono da vida de ninguém. A vida é dele (paciente) e é só ele quem decide se vai tomar ou não o medicamento".

Antes de iniciar qualquer tratamento com os meus pacientes peço que eles leiam sobre, pesquisem mais e voltem assim que tiverem certeza de que querem começar a tomar remédio. "Prefiro não iniciar o tratamento quando a pessoa está em dúvida, ela pode não aderir e criar um vírus resistente, explicou a médica".

A coordenadora-adjunta do Programa Estadual de DST/Aids de São Paulo, Rosa Alencar, acrescentou que: "Não temos o melhor tratamento no Brasil. Temos um tratamento adequado, que ainda dá conta, mas há toxicidade". E este é um problema importante que precisa ser manejado o tempo todo. Mas adesão ao serviço e ao tratamento também são fatores de sucesso na luta contra a Aids.

"Tratamento como Prevenção (TASP)"

A política de tratamento como prevenção é uma consequência da pesquisa considerada pela revista "Science" a descoberta científica de 2011.

"O estudo mostrou que pacientes com HIV adequadamente tratados, ou seja, com o vírus não detectável no sangue, transmitem 96% menos que os não tratados".

"O estudo Partner, divulgado em março de 2014, corroborou o princípio, pois não mostrou, em seus resultados preliminares, nenhum caso de transmissão entre casais sorodiscordantes (um soronegativo e o outro soropositivo, em tratamento), mesmo havendo relações sexuais sem o uso de preservativo".

Gradualmente, a estratégia vem sendo adotada pelos governos sob a forma de antecipação do tratamento. Antes, os antirretrovirais eram recomendados quando a contagem de CD4 (células de defesa) caía para menos de 350, o que significa uma queda moderada da imunidade. Em junho do ano passado, a Organização Mundial de Saúde (OMS) recomendou tratar a partir de 500, ou seja, só uma queda leve já justificaria o tratamento. "Hoje, a recomendação é para todos, a partir do diagnóstico". Assim, desde 2013, o Ministério da Saúde do Brasil disponibiliza os medicamentos antirretrovirais de forma gratuita a todas as pessoas vivendo com HIV/Aids, independentemente do nível do CD4. "Foi o terceiro país a optar por esse tratamento universal, depois de Estados Unidos e França".

"Estratégias de prevenção"

Rosa de Alencar explicou que as novas estratégias de prevenção, mais conhecidas como prevenção combinada, surgem como ferramentas complementares no enfrentamento da epidemia de HIV. "Nada mais é do que estratégias com objetivo de garantir a diversidade de opções e escolha, tendo sempre como princípios a garantia de direitos humanos e a autonomia do indivíduo".

"Entre as novas estratégias para a prevenção da transmissão do HIV destacam-se o uso do Tratamento como Prevenção (TASP), a Profilaxia Pós-Exposição (PEP) e a Profilaxia Pré-Exposição (PrEP)".

No Brasil, a promessa é de que "a PrEP seja incorporada ao SUS (Sistema Único de Saúde), este ano", segundo Rosa. Desde 2014, o estudo PrEP Brasil está avaliando em três capitais como será a aceitação, a viabilidade e a melhor forma de oferecer o medicamento no país. O estudo já acontece no Rio de Janeiro, pela Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz) e São Paulo, pela USP (Universidade de São Paulo) e pelo CRT-SP (Centro de Referência e Treinamento em DST/Aids do Estado de São Paulo). Em Porto Alegre, é coordenado pelo Centro de Testagem e Aconselhamento do Hospital Sanatório Partenon (CTA-HSP).

Segundo o novo protocolo de tratamento da Organização Mundial da Saúde (OMS), a PrEP deve ser considerada pelos países, em suas políticas públicas, "como alternativa de prevenção voltada a populações com risco substancial de infecção pelo HIV". Nossos estudos já concluíram que há interesse elevado entre os homens que fazem sexo com homens (HSH) na utilização da PrEP.

A maior utilização de PrEP entre os de maior risco de infecção e com conhecimento prévio sobre PrEP enfatiza a necessidade e a importância de se estabelecerem estratégias para melhorar a percepção de risco e o conhecimento sobre PrEP nas comunidades HSH e entre a população trans no Brasil. Ainda, segundo Rosa, no CRT, "das 159 pessoas que participaram do estudo, há ainda em acompanhamento 138 e nenhuma infecção por HIV foi registrada. Mas há duas infecções registradas no estudo, uma na Fiocruz e uma na USP".

"Profilaxia Pós-Exposição (PEP)"

Outro assunto em destaque na reunião foi a divulgação e o acesso à PEP sexual em São Paulo. Diferente da PrEP, em que o medicamento é tomado antes para evitar a infecção, a PEP é uma espécie de "coquetel do dia seguinte".

"Indicada para quem já se expôs ao risco, ela impede a instalação do vírus se tomada em até 72 horas após o contato e durante 28 dias seguidos, sempre com orientação médica".

O protocolo de Profilaxia Pós-Exposição (PEP) do HIV unificou em 2015 os três tipos de PEP existentes:

"Acidente ocupacional, violência sexual e relação sexual consentida".

Agora, "qualquer médico pode prescrever a PEP, não precisa ser especialista, o importante é sempre lembrar que essa é uma profilaxia de urgência", explicou a infectologista do CRT  Cláudia Binelli. Segundo a especialista, ainda há desafios na implementação deste insumo como prevenção. "As pessoas não conhecem, há serviço que não dispensa o medicamento. Outros dispensam, mas não funcionam aos fins de semana. Mas tem crescido a procura por PEP. Só em 2015, 7.535 PEP foram dispensadas no estado de São Paulo para prevenção por exposição sexual".

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