Quem vive com HIV pode fazer exercícios? Sim, pode e deve!

Uma pesquisa realizada recentemente pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte avaliou a condição de saúde física e mental de pessoas que vivem com HIV submetidas a um programa de exercícios físicos. Durante um mês, os participantes foram instruídos a seguir uma rotina de oito atividades, executadas três vezes por semana. Especialmente para as mulheres, a musculação e os exercícios aeróbicos induziram à perda da gordura visceral, que predispõe as doenças metabólicas, e diminuíram a inflamação geral do corpo. A pesquisa mostra que, após um ano de treino, foram observados efeitos positivos na contagem de células TCD4+, as que comandam o sistema de defesa humano. E mais:

"A atividade em grupo favoreceu o apoio emocional e a reintegração dos participantes mais isolados, aumentando ainda a adesão à terapia antirretroviral".

Outros estudos mostraram evidências semelhantes, como um conduzido por pesquisadores da Universidade da Califórnia, nos Estados Unidos em 2013. Os autores acompanharam 335 pacientes com HIV, sendo que 83 praticavam atividades físicas.

"Verificou-se que adultos soropositivos que se exercitavam tinham aproximadamente metade da probabilidade de desenvolver deficiência neuro-cognitiva em comparação àqueles que não. Segundo Márcia Gonçalves, entre as complicações neurológicas primária da Aids, há a demência associada ao HIV e formas mais leves, como o transtorno cognitivo/motor".

Quando os primeiros casos da Aids foram registrados, no início da década de 1980, a aparência debilitada dos pacientes demandava cautela. "Naquele tempo, o repouso era uma recomendação". Isso aconteceu até que surgisse a terapia antirretroviral. Após 1990, o paciente ganhou qualidade de vida e, com isso, o foco dos médicos e dos cientistas mudou: "Antes era como controlar a doença infecciosa, agora são os problemas e as consequências da terapia", diz o infectologista Werciley Júnior, do Hospital Santa Lúcia, em Brasília.

"Apesar de controlar o vírus, os medicamentos não o eliminam, levando o corpo a um processo inflamatório crônico que favorece o aparecimento de doenças metabólicas: Diabetes, hipertensão e obesidade central, por exemplo. Essas enfermidades podem ser prevenidas justamente com exercícios físicos".

Werciley Júnior conta que, antes da terapia antirretroviral, esses problemas não existiam "porque os pacientes não chegavam a esse patamar". A partir do momento em que o soropositivo ganha qualidade de vida, aparecem também os sintomas metabólicos. E, nesse sentido, a atividade física oferece um ganho enorme, completa.

"O especialista diz que o diagnóstico, por si só, faz com que o paciente se deprima e isole. No consultório, não são raros os casos de pessoas que se culpam pela doença. Não sabem a quem recorrer para conversar, pois têm medo de preconceito. E isso favorece a depressão, relata. A estimativa é de que 20% dos soropositivos sejam depressivos, condição que pode impactar na adesão ao tratamento. Levantamento do Instituto de Infectologia Emílio Ribas com 201 pacientes constatou que 53% abandonaram a medicação e acompanhamento médico por causa do transtorno".

Coordenadora da disciplina de psiquiatria e psicologia médica da Universidade de Taubaté, em São Paulo, Márcia Gonçalves explica que transtornos psiquiátricos, como depressão, abuso e dependência de álcool, drogas e tabaco, são mais frequentes nas pessoas que vivem com HIV/Aids. Em muitos casos, os pacientes têm alguma alteração patológica prévia à infecção. Essas condições potencializam a vulnerabilidade à exposição ao vírus.

"Por outro lado, o diagnóstico pode ter forte impacto psicológico e, eventualmente, desencadear recidivas ou mesmo surgimento de transtornos mentais, diz".

O isolamento, aponta Werciley Júnior, costuma ser o primeiro impacto negativo, com implicações diretas no sedentarismo. A pessoa pensa que ninguém vai querer ficar com ela. O medo gera a depressão e, por isso, o esporte é bom. Ele integra as pessoas, ressalta. Outra coisa: "No estereótipo, doentes não praticam atividades físicas por serem debilitados demais. Os soropositivos que se exercitam, além de convívio social, fogem disso. Os grandes vilões são o medo e a falta de informação. Quem tem o HIV precisa se cuidar, assim como quem não tem, ressalta o infectologista".

"Sempre com avaliação e acompanhamento médico, a prescrição, por um profissional de Nutrição, de uma dieta que vise a compensar e preparar o organismo para a prática de atividades físicas mais intensas e o planejamento de um programa criterioso de exercícios físicos, por um profissional de Educação Física, o portador de HIV/AIDS só tem a ganhar, não apenas em termos objetivos de melhoria do estado geral de saúde, como também em aspectos subjetivos de qualidade de vida e integração social".

Os exercícios físicos indicados para os portadores de HIV/AIDS, de modo geral: "São os aeróbicos e de resistência muscular localizada. Por este motivo, a musculação é considerada a modalidade mais recomendada para os portadores, até mesmo pela própria facilidade de monitoramento das condições gerais do praticante".

Devem ser associados também "exercícios de alongamento e flexibilidade, bem como exercícios que objetivem o incremento do equilíbrio e da percepção e inteligência cinestésicas", explica o profissional. Segundo ele, "para os soropositivos, o programa de exercícios deve ser sempre individualizado, com metas e limites claramente definidos, associado a um monitoramento constante e igualmente programado programa de monitoramento". Também a observação da relação carga e repouso deve ser extremamente respeitada, "pois o portador de HIV/AIDS não pode se sujeitar aos indesejáveis efeitos do sobre-treinamento (overtraining)".

"Em alguns casos, o uso de esteróides anabólicos para portadores do HIV, associado à prática de exercícios tem sido recomendado, desde que prescritos exclusivamente através de critério médico e, mesmo assim, ainda há carência de estudos que indiquem até que ponto os benefícios podem justificar a adoção de tal medida".

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