"Especialistas se reuniram em São Paulo pra debater sobre prevenção, avanços, novos medicamentos, males persistentes do HIV e HEPATITES"


"Foi encerrada neste sábado (04/06) a 9ª edição do Hepatoaids realizado em São Paulo. Especialistas e profissionais da saúde estiveram reunidos para debates sobre prevenção ao HIV, infecções oportunistas, comorbidades, novos antirretrovirais, hepatites virais, entre outros".

O professor e pesquisador Ricardo Diaz falou sobre estratégias no tratamento antirretroviral. "Um tratamento efetivo deve conter medicamentos com potência e barreira genética suficiente. Para ele, estratégias de tratamento antirretroviral menos convencionais podem ser utilizadas para suavizar efeitos adversos, tolerabilidade e perda de adesão". Ricardo Diaz explicou que a terapia antirretroviral de alta potência tem apresentado bons resultados, garantindo sobrevida aos portadores desta síndrome. Os inibidores da transcriptase reversa não-análogos aos nucleosídeos (ITRNN) são amplamente empregados na terapia inicial.

"No Brasil, são utilizados os ITRNN de primeira geração, nevirapina e efavirenz, e também o de segunda geração, etravirina". Estas drogas alteram a conformação da transcriptase reversa do HIV, "alteração que inativa a capacidade de retro-transcrição da molécula". Contudo, a grande capacidade mutagênica do HIV "tem oferecido um obstáculo para a terapia". Uma das características desta classe de antirretrovirais é o desenvolvimento da resistência cruzada. "Desse modo, quando ocorre uma mutação em códons relacionados à diminuição de suscetibilidade aos ITRNNs, normalmente se comprometem todos os ITRNNs de primeira geração".

O infectologista Érico Arruda falou sobre a importância da dose fixa combinada na adesão ao tratamento. "A terapia antirretroviral evoluiu de forma espetacular, ela é mais efetiva e tolerável e vem apresentando novas formulações. O esquema com dose fixa combinada, ou seja, um comprimido por dia, tem facilitado a adesão". Érico contou ainda que pesquisas estão comprovando que os novos inibidores da transcriptase reversa não-análogo de nucleosídeo, "se comparado ao efavirenz, por exemplo, são mais tolerados pelas pessoas vivendo com HIV. Os efeitos colaterais são menores".

O processo de envelhecimento em pacientes vivendo com HIV também ganhou destaque neste evento. "Nos últimos anos, vários estudos em todo o mundo vêm mostrando que o corpo de uma pessoa que vive por muitos anos com o HIV acaba funcionando como o de alguém que tem, em média, 15 anos a mais". Foi o que contou a infectologista Gisele Gosuen. "As comorbidades mais comuns são as doenças cardiovasculares, como infarto e AVC (acidente vascular cerebral). Em seguida, vêm os vários tipos de cânceres, como o de próstata, mama e colo de útero. Também são comuns perda de massa óssea, diabetes e distúrbios neuro-cognitivos, como demência precoce".

Uma das falas que mais chamou a atenção foi a da Claudia Oliveira. A especialista falou sobre doença gordurosa não alcoólica do fígado (DHGNA). "Essa gordura pode causar morbimortalidade nos pacientes com HIV. É uma doença caracterizada por gordura no tecido hepático, inflamação hepática associada à presença de gordura, cirrose hepática e carcinoma hepatocelular". Entre as causas de doença gordurosa não alcoólica, destacam-se distúrbios metabólicos (obesidade, diabetes mellitus, dislipidemias), medicamentos (antibióticos, antirretrovirais, glicocorticoides, estrógenos, tamoxifeno), hepatite crônica C e nutrição parenteral. "Segundo Claudia, pacientes infectados pelo HIV frequentemente apresentam distúrbios metabólicos. Reconhecer e prestar atenção na DHGNA deve ser parte da monitorização metabólica desses", disse.

O professor Mario Reis afirmou que: "A maior dificuldade que a gente tem hoje é ter colegas interessados em atender as hepatites. Os ambulatórios especializados estão lotados. Os ambulatórios do SUS no país estão lotados, nós precisamos trazer colegas (médicos) para a hepatite C". A hepatite C ainda é uma doença que tem complexidade no manejo. "Entre elas, decidir qual esquema de drogas o paciente vai usar, o tempo que vai durar o tratamento e avaliar as interações das drogas para hepatite com as outras drogas que ele já usa. Muitas vezes, o médico que está na unidade básica de saúde, tanto não tem conhecimento disso, quanto não tem interesse. E ele também não tem um estimulo", observou Reis.

A afirmação de Reis foi utilizada para explicar o motivo pelo qual especialistas trouxeram para o Brasil um projeto que tem a capacidade de conectar médicos de todas as regiões do país. O Echo é uma plataforma que reúne diversos especialistas por meio de videoconferência. Liderado pelo Hospital de Clínicas de Porto Alegre em parceria com a Universidade Novo México, segundo Reis, 21 centros espalhados pelo Brasil fazem parte do projeto, tanto centros de hepatologia, gastroenterologia, infectologia e recentemente uma unidade básica. "Para chegarmos à periferia e tratar a hepatite, temos que educar muito nossos colegas".

Segundo a Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI): "A hepatite C é a principal causa de transplantes de fígado no país, respondendo por 40% dos casos. Ela pode causar cirrose, câncer de fígado e levar a morte". De acordo com o Ministério da Saúde, De 1999 a 2011, foram notificados 343.853 casos de hepatites virais no Brasil, incluindo os cinco tipos da doença (A, B, C, D e E). "No caso da hepatite C, ela é uma doença crônica que na maioria dos pacientes não apresenta sintomas, seu tempo de evolução varia entre 10 e mais de 30 anos e o número total de pessoas vivendo com o vírus ainda é desconhecido".

Para o infectologista Paulo Abraão, nos últimos anos, o tratamento da hepatite C foi revolucionado com as novas medicações, gerando muitas novidades no tratamento com poucos efeitos colaterais. "A gente não pode perder a oportunidade de encontrar esses pacientes, ver qual é a gravidade da doença deles e conforme os critérios do Ministério da Saúde tratar o quanto antes para que eles não evoluam para a piora da doença", afirmou.

Diversos estudos com as novas drogas para o tratamento da hepatite C e possíveis interações foram apresentados durante o seminário. Entre eles combinações do sofosbuvir com simeprevir e sofosbuvir com daclatasvir. Ainda foi apresentada a eficácia do esquema 3D, "que ainda não está disponível pelo SUS, mas o seu uso já liberado no Brasil". De acordo com Reis, o esquema 3D inclui três drogas (paritaprevir, ombitasvir, dasabuvir) em uma combinação de dois comprimidos. Ele atua em várias fases do ciclo da vida do vírus C, na inibição potente da replicação viral. "Com qualquer um desses esquemas, tanto o 3D, quanto o sofosbuvir e simeprevir ou sofosbuvir e daclatasvir, que é distribuído pelo SUS, nós temos estudos de vida real, com pacientes de diferentes perfis, atestando uma resposta virológica sustentada (altas taxas de cura da doença)", disse.

O infectologista Mário Gonzáles alertou que: "Mesmo com tantos dados otimistas, os médicos precisam estar atentos à interação medicamentosa, ou seja, se o uso do remédio para a hepatite C combinado com remédios que o paciente já utiliza não fará mal ao paciente". Às vezes a vontade de tratar um paciente com os novos medicamentos é tão grande que não observamos alguns detalhes de interação. "Precisamos identificar todas as outras medicações que o paciente usa, até a que ele acha que não é importante. Existem muitas possibilidades de interação. É preciso sempre alertar os nossos colegas". O tratamento ainda não é simples, mas podemos tratar o paciente com segurança, afirma.

Professores e hepatologistas falaram sobre cirrose, "especialmente em pacientes coinfectados com os vírus da hepatite C e do HIV". A cirrose é o estágio final da fibrose hepática avançada que resulta na perda da arquitetura normal do órgão e que tem inúmeras causas, sendo as principais hepatite B e C crônicas e alcoolismo. O vírus da hepatite C causa uma inflamação no fígado, 10 a 20% das pessoas com essa inflamação crônica acabam desenvolvendo cirrose entre 20 a 25 anos, após a infecção pelo vírus. "Depois que a inflamação se torna uma cirrose, ela evolui para a formação de tumores como carcinoma, câncer de fígado ou insuficiência hepática. Até a doença chegar ao estágio avançado, o indivíduo não apresenta sintomas. Por isso, a necessidade de fazer os testes para hepatites", alertou o infectologista Érico Arruda. "Na pessoa com HIV, explicou o médico, a hepatite C é mais grave, pois a progressão da doença acontece de forma muito mais rápida".

Acesse o site da Agência de Notícias da Aids (fonte dessa postagem) e leia as matérias na íntegra.

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