"Não temos o melhor tratamento para o HIV/Aids no Brasil. Há medicamentos menos tóxicos que ainda não estão incorporados no SUS"


A cidade de São Paulo recebeu nesta quarta-feira (8), representantes de diferentes municípios para a edição 2016 do Fórum Estadual de Dirigentes de DST/Aids do Estado de São Paulo. Logo na primeira discussão, sobre prevenção combinada, "o clima esquentou".

De um lado, ativistas criticando o tratamento antirretroviral oferecido no Brasil. "Segundo eles, os remédios estão ultrapassados e provocam inúmeros efeitos colaterais, que pioram a qualidade de vida das pessoas com HIV". Do outro, a coordenadora do Programa Estadual de DST/Aids, Maria Clara Gianna, "defendendo que esse argumento prejudica a adesão ao tratamento".

"Não temos o melhor tratamento no Brasil, há medicamentos menos tóxicos que ainda não estão incorporados no SUS (Sistema Único de Saúde). Então, precisamos, sim, cobrar a inclusão de novas drogas".

Hoje, "o paciente sofre efeitos colaterais severos". Lutar pela qualidade do tratamento é uma bandeira da sociedade civil, enfatizou Rodrigo Pinheiro, presidente do Fórum de ONGs/Aids de São Paulo (Foaesp).

De Araraquara, o militante Alberto Andreone questionou: "Será que o CRT (Centro de Referência e Treinamento em DST/Aids) tem uma estratégia para informar seus novos pacientes sobre os efeitos colaterais dos medicamentos? São efeitos fortíssimos".

Representando a Rede Nacional de Pessoas Vivendo com HIV (RNP+) São Paulo, Paulo Giacomini (foto) criticou a primeira linha de tratamento ofertada no Brasil, composta pelo 3 em 1: tenofovir (300 mg), lamivudina (300 mg) e efavirenz (600 mg). "Antes de aderir ao tratamento é preciso aderir ao diagnóstico". Ainda, segundo Paulo, entre testar e tratar é preciso um tempo para aderir à condição sorológica.

"Temos na primeira linha de tratamento a 'porcaria do efavirenz', esse medicamento causa uma sensação de pesadelo, desconforto, insônia. Esses efeitos podem passar em três ou quatro meses, mas o jovem gay de 20 anos não vai aguentá-los".

Aborrecida e com tom de voz mais elevado que o habitual, Maria Clara disse que "concordava com a crítica dos ativistas, mas pediu cuidado

"Não podemos desestimular a adesão ao tratamento, são esses remédios que mantêm as pessoas vivas".

Nossa resposta ao HIV tem melhorado muito depois que ampliamos o acesso ao tratamento e a nossa briga hoje é para os pacientes vivos. "A maior parte dos óbitos por Aids no estado é pela falta de adesão".

"Então, temos, sim, de vincular cada vez mais nossos pacientes aos serviços e não ter um discurso que faça com que as pessoas não se tratem".

Ao rebater Maria Clara, Rodrigo disse que o movimento social não é contra a adesão ao tratamento. "Nossa luta é pela incorporação de novas drogas. Só queremos garantir que o paciente seja informado sobre os efeitos colaterais".

Simone Queiroz Rocha, gerente da Assistência Integral à Saúde no CRT, finalizou o debate dizendo que: "Apesar de não ser considerado o melhor tratamento, a primeira linha brasileira funciona". Não existe no mundo a terapia que serve para todos. Já tivemos tratamentos piores, com mais efeitos. "Agora, temos que lutar por recursos para incluir novas drogas. Nosso tratamento é universal e é para todos e os recursos vêm do SUS".

A gerente da área de Prevenção do Programa Estadual DST/Aids de São Paulo,  Ivone de Paula, aproveitou o evento para apresentar aos profissionais de saúde as novas estratégias de prevenção, mais conhecidas como prevenção combinada. "Nada mais é do que estratégias com objetivo de garantir a diversidade de opções e escolha, tendo sempre como princípios a garantia de direitos humanos e a autonomia do indivíduo".

Entre as novas estratégias para a prevenção da transmissão do HIV destacam-se o uso do tratamento como prevenção, a profilaxia pós-exposição (PEP) e a profilaxia pré-exposição (PrEP). "Temos uma meta a atingir, a 90-90-90, e só vamos alcançar se as nossas estratégias contra a Aids focarem em populações-chave. Temos 230 mil pessoas infectadas no estado que desconhecem o diagnóstico".

"A meta 90-90-90 consiste em ter 90% das pessoas com HIV diagnosticadas; deste grupo, 90% seguindo o tratamento; e, dentre as pessoas tratadas, 90% com carga viral indetectável. Com relação à meta de zero discriminação, ainda há muito a se avançar no mundo para diminuir o estigma contra as pessoas vivendo com o HIV".

A especialista chamou a atenção para a importância do acompanhamento dos pacientes. "Não adianta só testar e testar, é preciso acompanhar o paciente, vincular essa pessoa ao serviço e monitorar o tratamento. Este é um elemento importante da linha de cuidado".

No Brasil, "a promessa é de que a PrEP seja incorporada ao SUS (Sistema Único de Saúde), este ano", segundo Rosa Alencar (foto), da coordenação estadual de DST/Aids de São Paulo. "Desde 2014, o estudo PrEP Brasil está avaliando em três capitais como será a aceitação, a viabilidade e a melhor forma de oferecer o medicamento no país. "O estudo já acontece no Rio de Janeiro, pela Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz) e São Paulo, pela USP (Universidade de São Paulo) e pelo CRT-SP (Centro de Referência e Treinamento em DST/Aids do Estado de São Paulo). Em Porto Alegre, é coordenado pelo Centro de Testagem e Aconselhamento do Hospital Sanatório Partenon (CTA-HSP).

Segundo o novo protocolo de tratamento da Organização Mundial da Saúde (OMS), a PrEP deve ser considerada pelos países, em suas políticas públicas, "como alternativa de prevenção voltada a populações com risco substancial de infecção pelo HIV". Nossos estudos já concluíram que há interesse elevado entre os homens que fazem sexo com homens (HSH) na utilização da PrEP. A maior utilização de PrEP entre os de maior risco de infecção e com conhecimento prévio sobre PrEP enfatiza a necessidade e a importância de se estabelecerem estratégias para melhorar a percepção de risco e o conhecimento sobre PrEP nas comunidades HSH e entre a população trans no Brasil.

"Ainda, segundo Rosa, no CRT, das 159 pessoas que participaram do estudo, há ainda em acompanhamento 138 e nenhuma infecção por HIV foi registrada. Mas há duas infecções registradas no estudo, uma na Fiocruz e uma na USP".

Por: Talita Martins
Fonte: Agência de Notícias da Aids

4 comentários :

  1. Boa noite alexandre , tenho uma duvida gostaria de saber se todos os pacientes que tomam raltegravir mudarão para o dolutegravir ja que o mesmo tem custo menor que o raltegravir

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    1. Boa noite. Se você utiliza o raltegravir, converse com seu médico infectologista a respeito pois só ele pode lhe dar essa resposta e confirmar ou não, se essa substituição já é uma recomendação do Ministério da Saúde.

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  2. Alexandre, por favor, uma pessoa com carga viral indetectável pode receber resultado NEGATIVO se for fazer o teste anti-hiv?

    Atenciosamente,

    Anônimo do Recife

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