"Para que serve o exame de genotipagem do HIV? Especialistas ouvidos pela Agência de Notícias da Aids esclarecem dúvidas sobre este exame"


Você descobriu que tem HIV e, para manter o vírus controlado, precisa tomar uma combinação de antirretrovirais diariamente. Caso seu infectologista perceba que essa combinação não está gerando eficácia no seu caso, a situação será investigada e essa medicação, trocada. "Porém, além do vírus HIV ter diversos subtipos, existe os que são resistentes a alguns medicamentos". No Brasil, segundo o Departamento de DST, Aids e Hepatites Virais (DDAHV), as pessoas vivendo com HIV contam com 22 tipos de antirretrovirais, distribuídos pelos SUS. Então, como saber, em caso de necessidade de troca, se a nova combinação vai ter eficácia?

"Um dos meios de investigação é a genotipagem. Um exame que, de acordo com os especialistas, identifica o genoma, a presença de mutações de resistência do vírus e é fundamental para estruturar um novo esquema terapêutico".

A interpretação do exame de genotipagem não é simples, por isso existe uma rede de especialistas que analisam e dão sugestões para os médicos que estão na ponta, "a Renageno (ede Nacional de Laboratórios de Genotipagem)", explica Denise Lotufo, infectologista da Gerência de Assistência Integral à Saúde, do CRT (Centro de Referência e Tratamento em DST/Aids-SP).

Frequentemente, a Agência de Notícias da Aids recebe dúvidas a respeito da genotipagem e reclamações sobre demora em marcar o exame. Conversamos com alguns especialistas para entender a função, quando precisa ser feito e a importância desse procedimento.

O que é a genotipagem para HIV e para que serve?

A genotipagem é um exame que informa o código genético do vírus. Então é possível comparar o genoma com que a pessoa está infectada com o que se considera "selvagem", ou seja, que não tem mutações que resistam aos antirretrovirais. "Assim, analisamos e identificamos o genoma para saber o ponto de ação dos medicamentos. No caso de esquema que falhou, ele ajuda a escolher um novo tratamento", explica Érico Arruda, presidente da Sociedade Cearense de Infectologia.

O exame de genotipagem é de alta complexidade. Segundo o DDAHV, são realizados, pelo SUS, 12 mil exames por ano, ao custo de R$ 516,65 por paciente, ou seja, R$ 6.199.800 por ano. Para José Vidal, médico de referência em genotipagem, do Instituto Emílio Ribas, "este exame é importante por que permite definir qual o melhor esquema antirretroviral para conseguir controle da replicação do vírus, objetivo importantíssimo para preservar as defesas dos pacientes e, assim, evitar doenças oportunistas e outros eventos relacionados à imunodepressão grave. Do meu ponto de vista, o exame devia ser realizado sempre, antes do início do tratamento", afirma Vidal.

Quem pode fazer?

No Brasil, o Ministério da Saúde (MS) define que "apenas pacientes que já usam terapia antirretroviral e apresentam falha virológica confirmada podem fazer a genotipagem". No caso de pacientes que iniciarão a terapia, são definidos os seguintes grupos: "Grávidas, pessoas que tenham se infectado com parceiro em uso de terapia antirretroviral (atual ou pregressa) e crianças". Além de casos de falha terapêutica, "nos países desenvolvidos a genotipagem é solicitada para todos os pacientes soropositivos antes do tratamento", afirma Denise Lotufo.

O tempo de espera para o exame varia de acordo com cada região do país. "Tem regiões em que colegas afirmam esperar de quatro a seis meses pelo resultado da genotipagem. Então, precisamos avaliar sempre com cuidado pensando no paciente", explica Vidal.

Segundo Érico Arruda, sem a genotipagem no pré-tratamento, os pacientes em terapia inicial são tratados com os medicamentos sugeridos pelo PCDT (Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas), ou seja, "tenofovir + lamivudina + efavirenz (formulação fixa combinada – 3 em 1)", que é a primeira opção para os pacientes adultos. "Aqueles que têm alguma condição que implique em contraindicação de alguns desses medicamentos recebem combinações alternativas avaliadas pelo especialista que o acompanha", continua Arruda.

E se o paciente precisa e o exame não é feito?

Para Vidal, no caso de pacientes que já fazem uso de antirretrovirais que apresentam falha virológica confirmada, "se o teste não é solicitado oportunamente, existe o risco de acúmulo de mais mutações do vírus associadas à resistência dos medicamentos. A consequência, o médico explica, é a perda progressiva de futuras opções terapêuticas". Se, nesse caso, "o teste não é solicitado, existe a possibilidade de o paciente receber esquemas antirretrovirais com um ou mais medicamentos resistentes. Isso pode trazer riscos, uma vez que ele pode receber esquemas que não suprimem a multiplicação do vírus nem melhorem suas defesas", explica Vidal. Porém ele também observa que a avaliação individual é necessária para indicar a realização de genotipagem de cada paciente.

E a genotipagem no pré-tratamento?

De acordo com Amilcar Tanuri, pesquisador da Universidade Federal do Rio de Janeiro e coordenador do Estudo Renic (Rede de Isolamento e Caracterização do HIV para a Vigilância Epidemiológica Nacional da Fármaco-Resistência do HIV), que verifica a resistência transmitida do HIV, uma amostragem no território nacional indicou diferentes taxas de resistência a medicamentos no pré-tratamento. "As taxas variaram de 8 a 10% de resistência em todos os pré-tratamentos".

No sudeste e, principalmente, em São Paulo essa taxa chega a 14%. "O antirretroviral efavirenz é o principal componente de primeira linha e o que possui as maiores taxas de resistência". Se você tem uma taxa de 14%, "1 em cada 6 pacientes estão iniciando o tratamento com resistência", diz Tanuri.

A resistência aos medicamentos pode acontecer "quando um paciente deixa de fazer o tratamento regularmente ou o abandona. Em caso de transmissão, ele passa a ser infeccioso para um vírus resistente. A pessoa que é infectada por um vírus resistente, também transmite resistente".

Esse é um dos motivos pelos quais "se faz ideal a genotipagem antes do tratamento, pois há anos temos o dado da resistência". Então, existe o problema de começar o tratamento em pacientes com resistência a não nucleosídios (classe à qual o efavirenz pertence). "Então, muitas vezes, uma pessoa toma remédio, mas toma errado, e acaba transmitindo o vírus resistente", afirma Denise.

Denise explica que um dos meios de acompanhar a evolução do paciente, quando a genotipagem não é feita no pré-tratamento, "é fazer o pedido precoce da carga viral e seu status". Segundo a infectologista do CRT, a carga viral indetectável indica o controle ideal do vírus e os médicos precisam estar atentos a isso. "Vale lembrar que o coquetel é composto por três drogas. Então, se um falha, os outros estão trabalhando. Por meio de estudos, a gente sabe que a pessoa com vírus resistente, alguma hora vai falhar. Daí a importância de o médico estar acompanhando", diz Amilcar.

Por: Daiane Bomfim da Agência de Notícias da Aids

Nenhum comentário :

Postar um comentário