Dr. Ricardo Vasconcelos: Pessoas que vivem com HIV em terapia antirretroviral adequada e com carga viral indetectável não transmitem por via sexual o vírus HIV!


Por: André Cabette Fábio

O tratamento com antirretrovirais reduz drasticamente a presença do HIV, o vírus da Aids, por milímetro cúbico de sangue. Alguns estudos buscaram entender qual a probabilidade de alguém que vive com HIV, "com baixa proporção do vírus", transmiti-lo.

Não há evidências de que uma pessoa com carga viral indetectável seja capaz de transmitir o vírus!

Afirma em entrevista ao Nexo Jornal, "Ricardo Vasconcelos, infectologista do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. Isso não exclui, no entanto, a necessidade do uso da camisinha".

A quantidade do HIV é indetectável, pelos exames disponíveis no Sistema Único de Saúde, quando há menos de 40 cópias do vírus por milímetro cúbico de sangue. Pessoas com HIV que se tratam corretamente podem chegar abaixo dessa presença de vírus no sangue. "Por isso, têm probabilidade baixa de infectar outras pessoas".

O que dizem as pesquisas:

Um marco para esclarecer esse ponto foi o estudo HPTN 052 (sigla em inglês para rede de testes de transmissão de HIV), realizado a partir de 2005 por uma rede internacional de pesquisadores de 13 países e publicado em 2011. A Fundação Oswaldo Cruz participou da pesquisa no Brasil.

A pesquisa acompanhou 1.763 casais sorodiscordantes (nome dado quando uma das pessoas do casal é soropositiva e a outra não) de 13 países, incluindo o Brasil através da Fundação Oswaldo Cruz. A maior parte, ou 97%, era heterossexual. Eles não apresentavam, a princípio, sintomas da Aids.

Os casais foram divididos entre dois grupos distintos. Um deles recebia os medicamentos logo no início. O outro, apenas quando o sistema imunológico começava a apresentar sintomas da infecção pelo vírus da Aids. Em ambos os casos, os medicamentos eram dados apenas para o parceiro infectado.

"Primeira conclusão: Em 2011, a conclusão foi de que o tratamento reduzia, após um período de 18 meses, em pelo menos 96% a probabilidade de transmissão do vírus entre os casais em que o parceiro soropositivo se medicava com antirretrovirais. Trata-se de um nível de proteção comparável ao da camisinha".

"Segunda conclusão: 1.171 casais continuaram a ser acompanhados periodicamente. Em 2015, a conclusão final foi de que houve redução de 93% na probabilidade de transmissão do HIV entre casais sorodiscordantes, os dados ainda não foram publicados, mas os pesquisadores já realizaram apresentações à comunidade científica".

Foram apenas oito casos de transmissão nesse público após o tratamento do parceiro infectado. "Mas, segundo o trabalho, quatro dessas contaminações ocorreram pouco depois do início do tratamento, ou seja, possivelmente antes de o vírus ser suprimido. Ainda de acordo com o estudo, os outros quatro casos de transmissão do vírus podem ter ocorrido porque os pacientes soropositivos tinham tipos de HIV resistentes à terapia, ou porque os medicamentos não foram tomados da maneira correta".

"Para os casos em que o parceiro infectado tinha efetivamente baixado o vírus da Aids a níveis indetectáveis, não foi encontrado nenhum caso de transmissão do HIV".

Como os estudos começaram a ser realizados em 2005, os métodos para encontrar o vírus eram menos precisos do que os usados atualmente pelo SUS, e eram capazes de captar a partir de 250 cópias do HIV por milímetro cúbico de sangue. "Ou seja, quando se fala em indetectável para um soropositivo brasileiro, a proporção de vírus é ainda menor do que a considerada pelo HPTN 052".

Como a proporção de casais homossexuais acompanhados era relativamente pequena, o HPTN 052 não serviu para determinar se as conclusões valiam também para esse público. "Resultados intermediários de outro trabalho divulgados em 2014 apontam, no entanto, que sim. O estudo Partner acompanha 767 casais sorodiscordantes, dos quais 40% são formados por pessoas do mesmo sexo".

Até a divulgação de 2014, foram registrados 28 mil atos sexuais sem proteção entre casais heterossexuais, e 16,4 mil entre homossexuais. Alguns dos homossexuais se tornaram soropositivos no período do estudo, "mas a análise genética do vírus mostrou que esse não vinha de seus parceiros". Não ter ocorrido nenhuma transmissão durante o estudo é diferente de dizer que é impossível que isso ocorra em qualquer caso. "Mas, até o momento, o trabalho aponta que uma transmissão do tipo é improvável".

Através de cálculos estatísticos é possível determinar a probabilidade de que o resultado do estudo valha para a população em geral. Para casais sorodiscordantes com perfil de atividade sexual parecido com o do grupo estudado, há 95% de probabilidade de que o risco máximo de transmissão por um parceiro seja de 0,45% por ano. Através do sexo anal, essa probabilidade máxima é de 1%.

"Em entrevista ao Nexo Jornal, Ricardo Vasconcelos, afirma que as pesquisas apontam que pessoas que vivem com HIV que encontram-se em terapia antirretroviral adequada e com carga viral indetectável não transmitem por via sexual seu vírus".

A ideia de que pessoas soropositivas que se tratam e têm o vírus suprimido não transmitem a doença impacta na forma como se pensa em políticas de saúde pública sobre o tema. Em entrevista ao Nexo Jornal, Veriano Terto, da Abia (Associação Brasileira Interdisciplinar de Aids) afirma que o governo se baseou nesse tipo de pesquisa para alterar, em 2013, as diretrizes sobre o tratamento de HIV.

Até então, o tratamento com terapia antirretroviral levava em consideração a contagem de células de defesa, que são alvo do vírus da Aids no organismo, e o monitoramento da quantidade de vírus no sangue como critérios para o tratamento. "Mas, pelas novas diretrizes, o tratamento deve ocorrer para qualquer paciente com o vírus".

"Isso ocorre por uma lógica simples: ao tornar indetectável a quantidade de HIV no sangue dos soropositivos, eles deixam de transmitir o vírus. Além de tratar quem está infectado, essa política serve para frear a propagação do HIV".

A ONU lançou em 2014 uma campanha para, até 2020, diagnosticar 90% das pessoas com HIV no mundo, tratar 90% das diagnosticadas e conseguir que 90% das pessoas sendo tratadas tenham o vírus suprimido. "Isso faria com que 73% da população soropositiva tivesse o vírus em níveis baixos, o que serviria para barrar a propagação da doença".

Como fica a vida de quem vive com HIV?

O conhecimento sobre os riscos de transmissão do HIV pode sugerir a possibilidade de que pessoas infectadas negociem com parceiros outras formas de prevenção "além da camisinha". Especialistas discordam da flexibilização do uso do preservativo, no entanto:

"Feridas causadas por DST (doenças sexualmente transmissíveis) como gonorreia por exemplo, podem anular a proteção para o parceiro gerada pelo antirretroviral".

Casais sorodiscordantes sempre existiram, e essas novas informações trouxeram bastante alívio para essas pessoas, que às vezes não usam preservativo. "Espero que o conhecimento do fato de que as pessoas com HIV em tratamento eficaz não transmitem o vírus sexualmente faça com que comecem a ser menos vistos como vetores de transmissão de uma doença", disse Jorge Beloqui, professor do Instituto de Matemática e Estatística da Universidade de São Paulo, soropositivo e diretor do Grupo de Incentivo à Vida, que luta pelos direitos de pessoas infectadas por HIV no Brasil, em entrevista ao Nexo Jornal.

Segundo o médico familiar Juan Carlos Raxach, assessor da Abia (Associação Brasileira Interdisciplinar de Aids), o tempo de tratamento com antirretrovirais para que o HIV se torne indetectável varia de acordo com a carga viral presente no sangue da pessoa no início do processo.

"Ele afirma que é necessário acompanhar a taxa de vírus no sangue por um período de no mínimo seis meses antes de se pensar em fazer sexo sem camisinha. E essa taxa viral deve continuar a ser acompanhada de três em três meses".

"Terto, também da Abia, afirma que o tratamento com antirretrovirais deve ser encarado como uma medida protetiva a ser usada em conjunto com a camisinha, que continua indispensável".

4 comentários :

NEURI disse...

Muito interessante a matéria...isso trás uma luz com certeza, incentiva a aderir o tratamento e decidir levar uma vida normal...sem desespero, sem revolta...pois a vida precisa prosseguir!!!
Obrigada Alexandre por vc sempre na luta nos manter informados...
A medicina já avançou muito e isso proporciona melhor qualidade de vida aos paciente!!!

Alexandre Gonçalves de Souza disse...

Neuri, muito obrigado pelos comentários e apoio. Um abraço.

Anônimo disse...

Boa tarde, Alexandre!

Pode me ajudar com a dúvida abaixo:


"Feridas causadas por DST (doenças sexualmente transmissíveis) como gonorreia por exemplo, podem anular a proteção para o parceiro gerada pelo antirretroviral".

Se estou com o virus do HIV indetectado a mais de 6 meses, porém tenho gonorreia, transmito o HIV ou apenas a gonorreia"Não sei se tenho"? Isto no caso de estourar a camisinha.

Pode tirar essa dúvida?

Obg!

Alexandre Gonçalves de Souza disse...

Boa tarde. Esta afirmação "feita por especialistas" lhe responde. Porém você pode e deve fazer esta pergunta "ao seu médico infectologista pessoalmente" para obter uma resposta com mais detalhes para não deixar nenhuma dúvida.