‎Dra. Marcia Rachid: A importância do autocuidado, do diagnóstico e do tratamento!


"Agora, um ano depois, o vejo saudável, trabalhando, malhando, passeando, namorando, viajando, comemorando a vida e a liberdade de ir e vir".

Por diferentes razões, lembrei de algumas cenas, que vou descrever, mais ou menos, como ocorreram. Entrei no CTI e encontrei no leito com o número que procurava, um jovem bem magrinho, cerca de 40kg, sem força até para falar comigo. Não levantava e sequer sentava. Não podia comer nem beber nada. Estava internado havia meses. 'Diagnóstico tardio da infecção pelo HIV'. Talvez decorrente do medo. Não o medo que desafia, mas aquele que imobiliza e não deixa ver nem o óbvio.

Custei a crer que estava ali vendo uma quadro que fazia parte de minha rotina profissional há uns 30 anos. Não fiquei lamentando, pois para mim o desafio estava lançado. Disse ao médico do CTI que meu lema sempre foi lutar e que, se ele ficasse ao meu lado, teríamos chance de vencer a morte que rondava aquele menino no auge da juventude e diante de todos os avanços científicos que já tínhamos em 2015.

Não conseguia olhar e engolir aquele risco enorme de morte iminente e não tentar reverter. Estava morrendo pelo medo, pelo desconhecimento, pela falsa sensação de liberdade que alguns jovens experimentam ao não procurarem ajuda até por não saberem que poderão viver muito mais ao se cuidarem, ao se tratarem, tomando conta do corpo e da mente!

Tentei conversar, mas ele não conseguia responder. Fiquei ali pertinho dele e e pedi que todos os dias olhasse para a parede branca em frente ao seu leito e se visse de pé, que visualizasse seus dias felizes, pensasse em seus desejos, se visse em casa, no trabalho, na rua com os amigos, enfim, que visse dias melhores, enxergasse futuro.

Aos pouquinhos foi melhorando, porém estava grave e parecia muitas vezes retroceder e desanimar. Um dia, sei lá porquê, perguntei se ele sabia como muletas eram usadas. Sacudiu a cabeça que sim. Perguntei se muletas se mexiam sozinhas. Fez com a cabeça que 'não'. Então eu disse, de forma determinada:

"Você tem duas muletas nas mãos, uma sou eu e os outros médicos do CTI lutando pela sua vida, a outra é sua família que não sai daqui todos os dias, só que muletas não se movem sozinhas. Você tem que acreditar em sua força para tirá-las do chão e precisa dar o primeiro passo".

Tudo foi dando certo. Pedi para começar a sorrir e dizer 'bom dia' para as enfermeiras para mudar o clima do ambiente. Começou a ganhar peso, sentar, ficar em pé, dar alguns passos até conseguir andar todo o corredor do hospital e voltar para casa!

"Agora vive com saúde, voltou a trabalhar, à academia e curte a felicidade e liberdade de estar vivo, se amando e se cuidando".

Autora: Marcia Rachid
(Médica Infectologista)

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