"Brasil tem arsenal limitado de antirretrovirais para tratamento do HIV/Aids em crianças"


Apesar de termos um grande arsenal de antirretrovirais disponíveis para adultos, "o número de medicamentos disponíveis para as crianças no Brasil é infinitamente menor". A justificativa: a incidência da doença entre os mais novos vem diminuindo de forma global e a busca por novas drogas ou adequação da formulação não acontece. A explicação é da pediatra Cynthia Lorenzo.

A médica atende crianças e adolescentes vivendo com HIV/aids no Cedap (Centro Estadual Especializado em Diagnóstico, Assistência e Pesquisa em Salvador) e pediu, durante sua fala, na manhã desta quinta-feira (15), no 6º Congresso Brasileiro sobre HIV/Aids e Vírus Relacionados e 11º  Simpósio Brasileiro de Atualização na Patogenia e Manejo da Aids, mais atenção para o tratamento de crianças.

 "Que bom que tem nascido cada vez menos crianças infectadas com o vírus HIV no Brasil, isso quer dizer que a profilaxia de transmissão vertical está funcionando, mas não podemos desconsiderar as crianças que ainda são infectadas durante a gestação, no parto ou na amamentação. Muitas vezes elas são infectadas com um vírus resistente", lamentou a especialista.

Outra justificativa para aumentar o leque de opções  de antirretrovirais para as crianças com HIV, segundo Cynthia, é que elas vão tomar o medicamento por mais de 20 anos. "Nos primeiros anos de vida a carga viral costuma ser muito alta, acima de 100 mil cópias. Não temos uma formulação adequada e há ausência de medicações em apresentação combinada".

A médica lembrou que o acompanhamento das crianças e dos adolescente com infecção pelo HIV vai muito além do exame clínico e da prescrição médica, o apoio emocional e a inserção social são muito importantes junto aos antirretrovirais. "O HIV na infância continua uma doença negligenciada. De que adianta genotipagem pre tratamento se não temos a disposição antirretrovirais para tratar vírus resistentes em crianças?", questionou a pediatra.

Cynthia explicou ainda que a medida em que bebês são expostos a antirretrovirais para a prevenção da transmissão vertical do HIV (de mãe para filho), a tendência é aumentar a resistência do vírus transmitido para a criança. "É fundamental desenvolver fórmulas pediátricas adequadas para diminuir a distância entre o tratamento de crianças e adultos. 20% das crianças com HIV tem evolução grave da doença, dessas, 50% vão a óbito até o segundo ano de vida".

No Brasil, segundo dados do último Boletim Epidemiológico do Ministério da Saúde, foram registrados 389 casos de aids em menores de cinco anos, ou seja, 2,8 casos a cada 100 mil habitantes. O Estado de São Paulo registrou 32 casos, o Rio Grande do Sul, 47 e o Rio de Janeiro, 49

O aumento da variabilidade genética do vírus HIV no Brasil também foi pauta nesta manhã. O pesquisador Ricardo Diaz (foto), da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), explicou que os tipos e subtipos do HIV são 'entidades' geneticamente e biologicamente distintas. "A diversidade genética do vírus é o que mais dificulta a criação de uma vacina contra a aids."

Segundo Ricardo, existem diferentes subtipos de HIV porque o vírus sofreu modificações genéticas desde que passou do macaco para o homem. "São as diferenças no genoma que determinam a que subtipo cada vírus pertence. Pesquisas já comprovaram que o homem adquiriu o vírus HIV a partir do cruzamento com dois tipos de macacos: o HIV-1 no cruzamento com o chimpanzé e o HIV-2 com o sooty mangabey. Mas há diversos subtipos do vírus, essa diversidade viral tem impacto no diagnóstico, monitoramento, terapia e desenvolvimento de vacinas para o HIV".

O HIV-1, segundo ele, está disseminado no mundo e é o responsável pela grande maioria dos casos de aids, mas a distribuição dos subtipos é heterogênea. "O subtipo B, por exemplo, é encontrado na Europa e nas Américas, mas apresenta uma frequência menor na África e na Ásia, onde os subtipos A, C, D e E são predominantes. No Brasil, estudos indicam que o subtipo B é o mais prevalente na maioria das regiões, seguido pelos subtipos F e C, com poucos casos identificados dos subtipos D e A. A região Sul apresenta a maior frequência do subtipo C".

O infectologista Estevão Portella, do Instituto Nacional de Infectologia da Fiocruz,  falou sobre a resistência às drogas antirretrovirais. O especialista explicou que quando uma pessoa é infectada pelo HIV, seu sistema imunológico devolve estratégias de defesa. Na maioria dos casos, o genoma do vírus se modifica rapidamente, a fim de driblar as estratégias do sistema imunológico.

Segundo ele, para manter o vírus controlado, é preciso tomar uma combinação de antirretrovirais diariamente. "Quando essa combinação não funciona é necessário investigar. A indicação é que o paciente faça a genotipagem, só assim será possível identificar o genoma, a presença de mutações de resistência do vírus e, assim, trocar as medicações".

"No Brasil, uma amostragem sobre a resistência transmitida do HIV indicou diferentes taxas de resistência a medicamentos no pré-tratamento".

As taxas variaram de 8 a 10% de resistência em todos os pré-tratamentos. No sudeste e, principalmente, em São Paulo essa taxa chega a 14%. Ou seja, 1 em cada 6 pacientes estão iniciando o tratamento com resistência.

"A resistência aos medicamentos pode acontecer quando um paciente deixa de fazer o tratamento regularmente ou o abandona. Em caso de transmissão, ele passa a ser infeccioso para um vírus resistente. A pessoa que é infectada por um vírus resistente, também transmite resistente".

O evento reúne, em Salvador, 400 especialistas e pessoas interessadas no tema e segue até sexta-feira (16), no Othon Palace Hotel.

Fonte: Agência  de Notícias da Aids

Nenhum comentário :

Postar um comentário