"Especialistas alertam: Meta 90-90-90 deixa 9 milhões de soropositivos para trás"


“A meta 90-90-90, não é factível, mas é importante”, disse o dr. Mauro Schechter, professor titular de infectologia na Universidade Federal do Rio de Janeiro.

 “Toda a meta se resume a 73% das pessoas vivendo com HIV. Sendo assim, ainda ficamos com 1/4 das pessoas sem tratamento”, afirmou em outro momento o dr. Celso Ferreira, membro titular da Academia Nacional de Medicina.

“A meta deixa para trás 9 milhões de pessoas viremicas (com o vírus circulando no sangue). Isso é fim de epidemia?”, questionou dr. Mauro.

A discussão a respeito da meta 90-90-90 foi intensa,  durante o 6º Congresso Brasileiro sobre HIV/Aids e Vírus Relacionados e 11º Simpósio Brasileiro de Atualização na Patogenia e Manejo da Aids, realizado na semana passada em Salvador (BA).

O tempo da mesa, que contou com a presença da diretora do Departamento de DST, Aids e Hepatites Virais, do Ministério da Saúde, Adele Benzaken, acabou sendo curto para os questionamentos e reflexões dos especialistas. "Porém, mesmo com as críticas, todos consideram que a meta é um caminho para o combate da epidemia".

A meta mundial tem objetivo de acabar com epidemia de HIV/aids até 2030. "O objetivo é que até esta data 90% de todas as pessoas vivendo com HIV saibam que têm o vírus; 90% das pessoas diagnosticadas recebam terapia antirretroviral; e 90% das pessoas que fazem o tratamento estejam com carga viral indetectável".

Segundo o último boletim epidemiológico, da estimativa de 781 mil pessoas que vivem com HIV, 649 mil foram diagnosticadas, 405 mil entraram em tratamento e 356 mil apresentaram carga viral indetectável. “Hoje, temos 473 pessoas vivendo com HIV com CD4 acima de 500. No entanto, não conseguimos reverter o diagnóstico tardio. Em alguns estados, ele chega a 40% (...). Acho urgente trabalhar os novos modelos de prevenção, por isso, o Departamento vai trabalhar a prevenção combinada com os CTAs (Centro de Testagem e Aconselhamento)”, afirmou a Dra. Adele.

O Dr. Celso Ramos observou que embora o Brasil tenha sido pioneiro nas ações de combate ao HIV, o país não está mais a frente das ações mundiais, mas acredita que o país consiga alcançar a meta estabelecida: “Tivemos muito trabalho para que o país entendesse que era necessário tratar a todos antes da doença. Isso também aconteceu com a prevenção combinada. E, agora, a dificuldade é com o teste nas farmácias. Em vez de 90 por que a nossa meta não é 95? Eu não acho que, com a meta, devemos deixar 27% de pessoas no caminho. O tratamento tem que alcançar a todos”.

Em contrapartida, o Dr. Mauro afirma que se a base dos especialistas para tratar imediatamente todas as pessoas diagnosticadas for o estudo Start, a interpretação do resultado do estudo está errada. “Eu sou um dos autores do Start e ele é um grande estudo. As pessoas interpretam mal o resultado dele. Como um todo, ele mostra que é melhor tratar antes, mas quando você divide essas pessoas em subgrupos, é possível ver que eles não se beneficiaram com o tratamento imediato. Estamos falando sobre o tratamento em pessoas assintomáticas e com a imunidade normal".

Por exemplo, "pessoas com carga viral baixa não se beneficiaram do tratamento imediato. Assim como pessoas com menos de 30 anos que, se tiveram benefícios, foi muito pequeno. E as que tinham CD4 e CD8 normais também não se beneficiaram. Então, você junta essas pessoas e elas não ganharam nada. Por que eu vou tratar uma pessoa que não se beneficiou, tem carga viral baixa e imunidade boa? O risco de ela interromper o tratamento é grande. Não me parece uma boa política tratar essa pessoa, principalmente se for jovem”, afirmou o dr Mauro.

Ainda segundo o Dr. Mauro, outro estudo, o Smart, mostrou que as pessoas com carga viral muito baixa, por exemplo, "controlam a infecção". Ele afirma que o principal problema do HIV não é só a imunidade, mas o processo inflamatório. “Quando dizemos no Start que independentemente do CD4 as pessoas precisam ser tratadas, não estamos dizendo para tratar todo mundo, mas que ele é um bom preditor de quem precisa ser tratado. Então, tem grupos que precisam ser tratados já, mas tem grupos que podem esperar um pouquinho. Outros que podem esperar mais. No entanto, todos precisam de acompanhamento”, explicou o médico.

A Dra. Adele afirmou que para o sistema público de saúde é muito mais importante investir na qualidade da abordagem, assistência, ter grupos de adesão, locais específicos e melhorar o sistema “do que ficar pensando nas exceções”.

"Se você pensar em políticas públicas individualizadas, ela se torna muito mais complicada de ser colocada em todos os lugares do país. Da mesma forma que um jovem será atendido em um centro especializado em São Paulo, esse jovem também pode ser atendido em uma unidade de Tabatinga (AM) onde o médico não é infectologista e pode cometer erros muito mais graves ao querer interpretar exceções do que dizer que é importante testar e tratar”, afirmou a Dra. Adele.

“Temos que ser conscientes que boa parte dos nossos pacientes não são atendidos por superespecialistas que podem fazer as interpretações colocadas pelo palestrante (Dr Mauro). Isso necessita de um refinamento técnico muito maior e o Ministério tem que pensar no país como um todo. Eu acredito que vamos conseguir pensar nessas exceções, mas ainda não estamos nesse momento".

 Incidência:

Da plateia, o infectologista Ricardo Diaz fez críticas com relação à forma de determinar o aumento da epidemia. Segundo ele, com a mudança de estratégia para o testar e tratar muito mais pessoas foram testadas e iniciaram o tratamento. Sendo assim, o aumento no número de casos não é sinônimo de aumento na incidência ou prevalência da doença. “O médico que inicia o tratamento de um paciente, faz a notificação, isso no mesmo momento em que começamos a tratar todo mundo. No entanto, não é assim que vemos se a epidemia está aumentando ou não. Nós vemos isso pela prevalência e incidência, não pelo número de casos. Então, se está aumentando a prevalência, quer dizer que está tendo uma incidência alta. Não existe uma forma simples de você determinar se uma epidemia está aumentando, mas do jeito que estão fazendo, está errado”.

Resistência:

Outra crítica feita pelo dr Mauro foi a respeito da resistência ao medicamento de primeira linha. Ele explicou que há um número grande no Brasil de pessoas com resistência primária aos medicamentos e que adquiriram o vírus resistente. "No Brasil, estudos já mostram que pelo menos 15% dos soropositivos são resistentes ao efavirenz, medicamento de primeira linha e que compõe o 3 em 1".

“Essa pessoa não pode ser tratada com um remédio ao qual é resistente. Mas, se ela começa o tratamento imediatamente após o diagnóstico, as chances de o remédio não funcionar são grandes. Então, temos apenas três opções: não usar o 3 em 1; fazer a genotipagem antes de iniciar o tratamento em todos; ou se conformar que 15% vão falhar. Esses que falharem transmitirão vírus resistente e isso aumentará o número de pessoas com vírus resistente. Essa é uma escolha de política de governo. O pesquisador fornece dados. Quem toma decisões é o político”, concluiu.

 Fonte: Agência de Notícias da Aids

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