O TRATAMENTO DO HIV/AIDS NO BRASIL VEM SE ESTAGNANDO. É PRECISO QUE COBREMOS MELHORIAS!

"Artigo publicado originalmente no site "Universo AA", por Antonio Trigo" 

"Nos Estados Unidos, pacientes começam seu tratamento como o Dolutegravir, um dos melhores antirretrovirais que existem. O Brasil, que é modelo para tantos outros, vem se estagnando. É preciso que cobremos melhorias".

Vamos lá, você sempre ouviu que o Brasil é um país referência no tratamento contra o HIV, certo? E isto é verdade, durante muito tempo, nossa nação, com investimento e ousadia, foi modelo e comprou brigas internacionais quebrando patentes de um antirretroviral que, na época, era bastante caro. Deste modo, fomos notícia por ser um lugar que ampliou o acesso a pessoas que não tinham alternativa de tratamento para continuarem vivas e com saúde. E isso tudo gratuitamente, ao contrário de tantos outras nações.

"O Brasil fez e faz maravilhas no campo da resposta à epidemia de HIV. Temos um Programa Nacional que oferece o tratamento de forma gratuita para mais de 500 mil pessoas no país inteiro, com 91% de sucesso da terapia e carga viral indetectável entre os seus usuários. A gente trata as pessoas que vivem com HIV muito bem, mas poderia tratar melhor ainda", explica para a Universo AA o médico infectologista Ricardo Vasconcelos.

Segundo relatório da Agência Aids, a mortalidade por AIDS simplesmente aumentou 11% entre 2004 e 2014 no Estado do Rio de Janeiro, o mesmo estado onde centros de referências foram fechados e alguns pacientes já não conseguem medicamentos. Esta é a realidade cruel de um País que tirou da prioridade os avanços na luta contra a epidemia. E isto não é uma boa notícia. "Tratamos bem as pessoas que conseguem fazer o diagnóstico em tempo oportuno e se vincular a algum serviço, mas ainda temos muitas pessoas se infectando sem diagnóstico e/ou tratamento. E isso fazendo com que muita gente ainda morra pela doença", explica Ricardo.

A verdade é que a última novidade contra o HIV no Brasil foi a aquisição, em 2015, da dose tripla do 3 em 1 que inicia a maioria dos tratamentos de novos pacientes, ou seja, para soropositivos que acabaram de descobrir ou aderir os coquetéis contra o HIV. Essa medicação compreende na combinação de Tenofovir + Lamivudina + Efavirenz, este último um medicamento com efeitos colaterais que costumam tirar o sono, literalmente, dos pacientes, tonteiras, pesadelos ou o contrário: excesso de sonolência, são as consequências comumente relatadas.

"Somos um bom país? Somos. Mas poderíamos continuar na vanguarda. Para isto, é preciso melhorar os protocolos, bem como iniciar o tratamento com o Triumeq, também uma única pílula diária que combina Abacavir + Lamivudina + Dolutegravir, algo que já ocorre nos Estados Unidos".

A saber: O Dolutegravir é um dos melhores antirretrovirais que existem e já chegou no Brasil, mas, conforme normas do Ministério da Saúde, entrou na chamada "linha de resgate".O que isso significa? Que o Dolutegravir só é dado ao pacientes caso falhe o tratamento de primeiras e segundas linhas. E quase ninguém pode importá-lo ao custo de mais de 10 mil reais mensais, certo? Sobre este assunto, o Ministério até recebeu críticas de ativistas, porém se defendeu dizendo que não atualizou os medicamentos "porque o atual protocolo está dando certo".

A seguir, a conversa que o "Universo AA" teve com Ricardo Vasconcelos sobre o novo medicamento e por que a sociedade precisa cobrar melhorias do governo. Sim, assunto urgente, como não?

Universo AA: Porque parece que o Brasil já não avança mais como no passado no tratamento contra o HIV?

Ricardo Vasconcelos: Atualmente temos apenas uma opção de tratamento inicial com pílula única diária. E Não temos disponíveis para os que acabam de aderir ao tratamento as opções mais modernas de antirretrovirais, como o Dolutegravir, superpotente contra o vírus e que tem pouquíssimos efeitos colaterais. Isso significa que o que temos disponível não presta? De jeito nenhum! Significa que temos que ficar em cima e cobrar a melhoria constante do nosso Programa. Mas, isso depende muito de investimento e vontade política. Se pensarmos que somos um país pobre e ainda com um abacaxizão pra descascar na questão da epidemia de HIV, o principal é garantir o acesso ampliado ao tratamento.

Universo AA: Por que não temos o Dolutegravir para quem inicia o tratamento?

Ricardo Vasconcelos: Não temos o Dolutegravir disponível para uma pessoa que vai iniciar a terapia antirretroviral, sem dúvidas, por conta do seu alto preço. Se déssemos ele e não o 3 em 1, não conseguiríamos tratar tanta gente no Brasil pelo SUS. O ideal é o esquema capaz de zerar a carga viral de maneira duradoura e que se adapte bem à vida do paciente. A maioria das pessoas que toma o 3 em 1, o que temos pelo SUS, se adapta perfeitamente ao tratamento. Mas claro, poderíamos inovar, voltar a sermos modelo.

Universo AA: Quais os benefícios do Dolutegravir?

Ricardo Vasconcelos: O Dolutegravir tem um excelente perfil de efeitos colaterais, raros e leves, como a dor de cabeça. Além disso, apresenta também bastante segurança no risco de desenvolvimento de resistência viral e tem poucas interações com outras medicações que o paciente possa usar. Isso tudo faz com que seja realmente uma droga muito atraente para se recomendar para os virgens de tratamento. Mas seu preço é proibitivo no contexto de saúde pública.

Universo AA: Há notícias de que ele possa ser dado a pacientes em início de tratamento?

Ricardo Vasconcelos: Ele já faz parte dos esquemas de primeira escolha para virgens de tratamento recomendados nos Estados Unidos e alguns países da Europa, com resultados excelentes. Mas precisamos lembrar que em muitos desses países quem paga pelo tratamento é o paciente do seu próprio bolso ou por meio de seu plano de saúde privado.

Universo AA: Quais os efeitos colaterais do atual 3 em 1 fornecido pelo Ministério da Saúde?

Ricardo Vasconcelos: Os principais efeitos colaterais do 3 em 1 são relacionados com o Efavirenz que o compõe. A maioria das pessoas que o tomam contam que no início do tratamento sentem um tipo de tontura, como uma brisa ou embriaguez que dura cerca de uma hora e depois passa. Esses sintomas costumam ser mais intensos nos primeiros dias de terapia e tendem a diminuir podendo até sumir quando o corpo se adapta a ela. Para reduzir os transtornos relacionados a isso o comprimido deve ser tomado na hora de dormir, fazendo com que no máximo a pessoa conte que tem sonhos vívidos ou mais agitados de vez em quando. Esse é o principal efeito colateral do esquema, sendo os outros mais raros.

Universo AA: Um soropositivo ainda precisa ter medo de lipodistrofia, etc?

Ricardo Vasconcelos: Uma pessoa que descobre que está com HIV em 2016 não precisa ter medo da lipodistrofia pois as medicações que com frequência causavam essa alteração da distribuição da gordura corporal deixaram de ser usados de maneira rotineira no Brasil.

Universo AA: Ao longo da vida, um soropositivo terá de trocar seu medicamento?

Ricardo Vasconcelos: Como disse, um esquema ideal é aquele capaz de manter a doença controlada, com carga viral sempre indetectável, e que seja bem tolerado, causando o mínimo de alteração na rotina de vida de um paciente. Se uma pessoa se adapta ao esquema e o toma de maneira correta, diariamente, não precisará nunca trocar de medicamentos. A troca pode ser necessária por exemplo se surgir um vírus resistente aos medicamentos usados no esquema, o que acontece na maioria das vezes depois de um período de má adesão aos comprimidos. Mas pode-se também trocar o esquema antirretroviral apenas na busca de medicações que sejam melhor toleradas pelo indivíduo. E nesse aspecto, é importantíssimo saber que as pessoas não são todas iguais, e por isso deve-se individualizar o esquema para cada pessoa, com um diálogo franco entre o médico e o paciente.

Ricardo Vasconcelos: Formado pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP), é infectologista do Hospital das Clínicas e trabalha no projeto PrEP Brasil.


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