A HEPATITE C, HOJE, TEM CURA!


O ano de 2016 vai entrar para a história de muitas pessoas como o melhor de suas vidas. E não podia ser diferente. Afinal, elas alcançaram o maior sonho que um ser humano pode ter: A CURA. No caso, DA HEPATITE C, graças à incorporação ao SUS dos medicamentos sofosbuvir, simeprevir e daclatasvir. Os remédios começaram a ser distribuídos numa cerimônia no Ministério da Saúde, no dia 20 de outubro de 2015, elevando de 40 para 95 a 100% a chance de o paciente ficar curado".

Um ano depois, mesmo quem ainda aguarda na fila espera com confiança, mirando no exemplo dos que já se trataram e se curaram. "Inicialmente, o novo tratamento foi para 30 mil pessoas de grupos prioritários, como coinfectados com HIV, transplantados e candidatos a transplante de fígado". A AGÊNCIA DE NOTÍCIAS DA AIDS conversou com dois beneficiados: Marinei Morais da Silva, 60 anos, que começou a tomar os remédios na sexta-feira (21) e Ronaldo Telles, que já teve alta

A Agência ligou para a enfermeira Marinei Moraes da Silva, 60 anos, e a encontrou dentro de um ônibus, indo de Limeira para Franca, no interior de São Paulo. Estava numa alegria contagiante. Imagina que quando tomava outros remédios eu podia cair na estrada! Nunca!

Detalhe: Ela havia começado o novo tratamento com sofosbuvir e daclatasvir havia só cinco dias. A Agência falou com ela na quarta (26/10/2016) e Marinei contou que tomara os primeiros comprimidos na sexta-feira (21/10/2016), em Santos, onde mora. "Eu me animei a fazer esta viagem para ver como me sinto. Passei na casa de amigos em Limeira e sigo para Franca. Vou ficar no sítio da minha irmã, onde vou relaxar, comer verduras orgânicas e respirar ar puro".

Marinei disse que nem está acreditando, mas, nesses cinco dias, não sentiu absolutamente nada de efeito colateral. "Tive uma insônia, mas não posso dizer que foram os remédios. Saí da rotina, estou viajando, dormindo fora de casa, é normal estranhar um pouco". A enfermeira faz parte do grupo prioritário porque tem fibrose de nível F3 para F4, ou seja, "o grau mais adiantado da doença e seu organismo não respondia aos tratamentos anteriores".

Tive o diagnóstico em 1999, quando fui doar sangue para meu marido. Ele fez uma cirurgia de coração. Eu estava bem, nunca tinha sentido nada, nada, nada. Nem acreditei. Em 2000, ela fez seu primeiro tratamento: Três injeções de interferon na semana. "Reagi muito mal. Tive sudorese intensa, dores de cabeça, irritação, sangramento nasal, gengival, vaginal, anal, queda de cabelo. Mesmo assim, eu aguentei firme. Como os sintomas eram mais fortes durante o dia, passei a trabalhar a noite, porque eu não podia parar". Disse a enfermeira, que ficou viúva alguns meses depois do diagnóstico. "Hoje, ela está aposentada, mas ainda atua numa cooperativa e é voluntária do Grupo Esperança, ONG focada em hepatites, com sede em Santos".

Em 2001, ao repetir os exames, ela disse que teve uma sensação de fracasso horrível. "Meu organismo não respondeu". O médico receitou uma nova droga, o interferon peguilado mais ribavirina. Como era só uma injeção na semana, o efeito colateral diminuiu e eu suportei melhor. Mesmo assim, tive manchas pelo corpo, especialmente no rosto, e uma hemorragia tão forte que me levou para a emergência e eu tive de tirar o útero. "O pior para ela foi quando, de novo, repetiu os exames. Fiz tudo certinho e o vírus da hepatite C só aumentou".

Em 2010, segundo Marinei, ela tentou o remédio telepravir. Dez dias depois de iniciado o tratamento, voltou a ter sangramentos e descobriu que também não estava diminuindo a carga viral. "Passei a me isolar, me esconder das pessoas para não causar preocupação e também por causa do meu sentimento de impotência". O que deu força a Marinei foi saber que novas drogas estavam a caminho. "No Grupo Esperança, a gente tem acesso a informações e eu, então, fiquei esperando. Acho que ninguém esperou mais do que eu".

No ano passado, ela não entrou na lista dos beneficiados porque não estava bem fisicamente. "A contagem de plaquetas do sangue estava em 32 mil e o mínimo é 150 mil. Também estava abaixo do peso. O médico me deu um tratamento para eu me fortalecer e foi monitorando". A enfermeira contou que no início de 2016 já atendia os requisitos do protocolo médico. "Mas a medicação só chegou agora, acho que por causa dessas mudanças de governo". Para depois da temporada no sítio da irmã, ela já planejou o Natal. Vai ser na casa dela, em Santos.

"Vou dar uma festa para os amigos, como faço todo ano. Mas vou avisar que não vai ter bebida alcoólica. Meu filho, de 29 anos, vai ficar sem beber até eu ficar curada. Conto com o mesmo gesto de solidariedade dos amigos. Estou de alta".

Ronaldo Telles, 55 anos, tomou as novas drogas de dezembro de 2015 a fevereiro de 2016. Não teve nenhum efeito colateral. "Com 30 dias, minha carga viral para hepatite C estava totalmente negativada e os marcadores de enzima tinham caído muito", contou ele, que também mora em Santos e é voluntário do Grupo Esperança, onde atua como diretor administrativo. "Eu fui privilegiado". Estou muito feliz. Luto para que outros consigam o tratamento também. Quantos não têm uma ONG que os ajudem, não têm um gestor sensível? Quantos vivem sem informação?

A inquietação faz parte da veia de ativista que Ronaldo descobriu ter assim que recebeu o diagnóstico da hepatite C, no fim de 2001. Ele estava saindo do consultório do médico Evaldo Stanislau, referência no tratamento da doença e integrante do Comitê Consultivo de Hepatites do Ministério da Saúde. "O Dr. Stanislau disse que havia uma pessoa lá fora que ia conversar comigo. Era a dona Zaira Beatriz, na época também portadora de hepatite C e hoje curada". Ela integrava o Grupo Esperança e ficava ali, no hospital, numa mesinha, esperando os pacientes para acolher, conversar. E me convidou para ir a uma reunião da ONG.

Ronaldo contou que, nessa época, não sabia nada sobre a hepatite C. Descobriu ter o vírus da doença ao fazer uma doação de sangue. "Eu não apresentava sintomas. Tinha umas prostrações, à tarde sentia que a pilha arreava, mas achava que era o cansaço do dia a dia. Fui aconselhado a procurar um hematologista e descobri, além da hepatite, uma cirrose de grau 3, bem evoluída". Ele revelou que, uns quatro meses depois, foi à reunião do Grupo Esperança e lá, ao conhecer tanta gente na mesma situação ou em situação pior, sentiu alegria em saber que um apoiava o outro e ninguém estava sozinho. "Pensei que a doença não era tão grave porque as pessoas ali estavam bem".

Ainda bem que ele encontrou apoio, pois a realidade que conheceu depois foi muito dura. "Fiz dois tratamentos com efeitos colaterais horríveis que não surtiram efeito. Em 2011, sofri uma intervenção no fígado para tratar um carcinoma. Tive de me aposentar, pois trabalhava com produtos químicos numa indústria siderúrgica. Como sou muito ativo, entrei em depressão e só não me afundei porque passei a me dedicar cada vez mais à ONG. E também porque sabia que o novo tratamento estava sendo bem-sucedido nos Estados Unidos, na Europa, então isso me dava esperança de que ele chegaria aqui e eu o alcançaria".

No fim de 2014, Ronaldo estava com o grupo de ativistas que foi ao gabinete do então ministro da Saúde Arthur Chioro pedir a incorporação das novas drogas. "Por meio do Fábio Mesquita (ex-diretor do Departamento de DST, Aids e Hepatites Virais), o ministro nos recebeu e saímos de lá esperançosos. Soubemos que o governo havia conseguido uma boa negociação de preços dos remédios e a estimativa é de que eles chegariam para nós em seis meses". Demorou um pouco mais: Chioro foi trocado e os portadores receberam os primeiros medicamentos da mão de Marcelo Castro, que também já passou o cargo para Ricardo Barros.

"Para o ano que vem, Ronaldo, casado há 30 anos e pai de uma moça de 28, espera que haja mais remédios para contemplar com a cura da hepatite C muito mais pessoas. Para isso, torce pelo fortalecimento da saúde pública. O SUS não pode acabar. Ele é a retaguarda do país. É a grande escola dos médicos e tem de ser defendido".

Segundo o Ministério da Saúde, desde a primeira distribuição, em outubro de 2015, foram dispensados tratamentos com os remédios sofosbuvi, daclatasvir e simeprevir para 36.525 pacientes. "A pasta informa que o novo tratamento, aliado ao diagnóstico precoce, vai evitar consequências mais sérias às pessoas que vivem com a hepatite C no país. No Brasil, estima-se que a hepatite C atinja 2 milhões de pessoas".

"No mundo, são 200 milhões, cerca de 3% da população. Por ano, 1,5 milhão de pessoas morrem devido a suas complicações. O HIV, por exemplo, tem hoje 37 milhões de infectados em todo o mundo. A HEPATITE C é chamada de doença silenciosa, pois ela leva cerca de 20 a 30 anos para apresentar os primeiros sintomas, momento em que a doença já está grave. Dos 200 milhões de portadores no mundo, apenas 10% sabem que têm a doença. O exame que detecta o vírus é feito desde 1992".

FONTE: AGÊNCIA DE NOTÍCIAS DA AIDS

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