"Como a interrupção de gestações se insere na vida de mulheres vivendo com HIV/Aids"

(O direito ao aborto seguro está entre as demandas de movimentos feministas em todo o mundo - Foto: Thercles Silva/Flickr)

"Mulheres com HIV e a decisão de abortar"

(Pesquisa premiada pela Capes investigou como a interrupção de gestações se insere na vida de mulheres vivendo com HIV/Aids)

Desde o início da epidemia de Aids no Brasil, em 1980, foram registrados 491.747 (65%) casos de Aids em homens e 265.251 (35%) em mulheres, segundo o Boletim Epidemiológico do Ministério da Saúde.  Embora a doença ocorra mais entre os homens, a diferença oscila ao longo dos anos. Entre as gestantes infectadas com HIV, foram notificadas mais de 84 mil, a maioria delas residente na região Sudeste (41,1%), seguida pela região Sul (31,1%).

Em meio a esse cenário também está a discussão sobre as decisões reprodutivas das mulheres: como elas lidam com a possibilidade de interromper a gravidez? Há diferença na tomada de decisões entre as mulheres que não vivem com o vírus?

Foi o que Flávia Bulegon Pilecco, pesquisadora da área de Saúde Coletiva, procurou investigar em sua tese de doutorado intitulada "Aborto provocado em mulheres vivendo com HIV/Aids". Sob a orientação dos professores Daniela Riva Knauth e Álvaro Vigo, o trabalho foi defendido no Programa de Pós-Graduação em Epidemiologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).

Foram entrevistadas mulheres de 18 a 49 anos, 684 vivendo e 639 não vivendo com HIV/Aids em Porto Alegre. Aquelas vivendo com HIV/Aids foram entrevistadas em serviços de saúde especializados no tratamento da doença, e as que não vivem com HIV/Aids foram entrevistadas em Unidades Básicas de Saúde da capital. De acordo com Flávia, o estudo de Epidemiologia foi realizado de maneira transversal, ou seja, uma avaliação "instantânea" da situação de saúde. Com base na literatura estudada, a pesquisa mostra que houve uma diminuição nas taxas de aborto após a introdução do Protocolo para Prevenção da Transmissão Vertical, em 1996:

"Esse protocolo permite que mulheres vivendo com HIV tenham chances muito diminuídas de transmitir o vírus ao feto, explica a pesquisadora. No Reino Unido e na Irlanda, por exemplo, a prática decresceu de 29,6% em 1990, para 3,4% em 2004".

Segundo Flávia, "os abortos acontecem, em sua maioria, antes do diagnóstico de HIV". Assim, as mulheres entrevistadas que estavam vivendo com HIV/Aids já haviam procurado um serviço de saúde em consequência de aborto. "Esse serviço de saúde, no entanto, perdeu uma importante oportunidade para abordar a importância do uso de camisinha, uma vez que essas mulheres se infectaram com o vírus", afirma.

Vulnerabilidade Socioeconômica: Ainda que a pesquisa tenha concluído que mulheres com HIV têm maior risco de ter aborto induzido do que mulheres não portadoras do vírus, as razões que influenciam na prática de aborto são as mesmas. "Apesar de o HIV impactar na decisão por abortar, a vulnerabilidade socioeconômica e a relação com o parceiro destacam-se como fatores frequentemente associados à prática de aborto. Como, por exemplo, estar em situação empregatícia instável, não ter apoio social do parceiro e/ou da família, estar em uma relação não estável com o parceiro, não ter planejado a gestação, ou ter sofrido violência ao longo da vida (física e sexual)".

Reconhecimento: A Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) outorgou a Flávia o Prêmio Capes de Tese 2015 da área de Saúde Coletiva. Interessada pela temática desde a sua graduação em Biomedicina, a pesquisadora encontrou dificuldades na bibliografia para o estudo, já que a prática de aborto é ilegal no Brasil: "Existe uma dificuldade maior na obtenção de dados sobre a prática de aborto. Mas, mesmo em países em que o aborto é legalizado, estudos mostram que existe uma sub-declaração".

No Brasil, "não existem dados oficiais que contemplem esse tema, então nós sempre partimos do pressuposto de que nossos dados são subestimados", diz. Questionada a respeito de um possível posicionamento do trabalho quanto à legalização do aborto no país, ela enfatiza que "o trabalho defende que o acesso ao aborto, de forma legal e segura, é um direito de saúde às mulheres".

Autora: Flávia Bulegon Pilecco
Orientadora: Daniela Riva Knauth
Coorientador: Álvaro Vigo
Unidade: Programa de Pós-graduação em Epidemiologia

Texto: Gabrielle Paula


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