O odioso da hipocrisia começa obscuramente no hipócrita. Causa náuseas beber perpétuamente a impostura!


 "O sofrimento do hipócrita"
Autor: Victor Hugo
(1802 - 1885)

Ter mentido é ter sofrido.

O hipócrita é um paciente na dupla acepção da palavra; calcula um triunfo e sofre um suplício.

A premeditação indefinida de uma ação ruim, acompanhada por doses de austeridade,
a infâmia interior temperada de excelente reputação, enganar continuadamente,
não ser jamais quem é, fazer ilusão, é uma fadiga.

Compor a candura com todos os elementos negros que trabalham no cérebro,
querer devorar os que o veneram, acariciar, reter-se,
reprimir-se, estar sempre alerta, espiar constantemente,
compor o rosto do crime latente, fazer da disformidade uma beleza,
fabricar uma perfeição com a perversidade, fazer cócegas com o punhal,
por açúcar no veneno, velar na franqueza do gesto e na música da voz,
não ter o próprio olhar, nada mais difícil, nada mais doloroso.

O odioso da hipocrisia começa obscuramente no hipócrita. Causa náuseas beber perpétuamente a impostura.

A meiguice com que a astúcia disfarça a malvadez repugna ao malvado, continuamente obrigado a trazer essa mistura na boca, e há momentos de enjôo em que o hipócrita vomita quase o seu pensamento.

Engolir essa saliva é coisa horrível. Ajuntai a isto o profundo orgulho. Existem horas estranhas em que o hipócrita se estima. Há um eu desmedido no impostor. O  verme resvala como o dragão e como ele retesa-se e levanta-se.

O traidor não é mais que um déspota tolhido que não pode fazer a sua vontade senão resignando-se ao segundo papel. É a mesquinhez capaz da enormidade.

O hipócrita é um titã-anão.

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