"A luta de Felipe Ortolan contra o HIV e o CÂNCER"

Por: Átila Moreno
(Jornalista, com passagem pela TV Globo Minas, TV UFMG, Infoglobo e Universidade Corporativa do Transporte. É editor-chefe de conteúdo deste blog e escreve mensalmente para a Flesh-Mag)

“A história que a coluna DP com Átila Moreno tem para contar surpreende pela garra de um garoto, de apenas 20 anos, que descobriu ser portador do vírus HIV e, quatro meses depois, um outro golpe: um câncer raro e agressivo”.

No entanto, durante o relato a esse jornalista, sua fala pausada combinava com o semblante calmo diante das porradas que a vida lhe deu, em menos de dois anos. “Mesmo assim, Felipe Ortolan não se escondeu”. Fala da sua luta abertamente nas redes sociais. A naturalidade em abordar o assunto revela a força descomunal de um titã. Hoje, vive entre Balneário do Camboriú e Curitiba, “e tem muito o que ensinar sobre persistência, resiliência e um outro jeito de ver a vida”. Acompanhe com toda calma do mundo.

AM – Quando e como você descobriu que tinha o vírus HIV?

FO – Foi em setembro de 2015 quando comecei a passar mal. Fiquei doente e não sabia o que era. Fiz uma bateria geral de exames, que não mostrava nada. Só que ainda não tinha feito o teste para DST. Lembro que chegou no final do ano e fui para São Paulo, para passar o Natal com a minha família. Lá piorei muito e peguei uma infecção pulmonar e na garganta. Então, entrei em desespero. Pensei: preciso, outra vez, ir ao médico. Voltei para Balneário. Os médicos olharam pra mim e falaram assim: “ah, você não tem nada”. Me mandaram embora. Daí vim para Curitiba onde fui atendido por um médico, que passou quase duas horas conversando comigo. Aí, ele falou que eu poderia ter duas coisas: HIV ou CÂNCER, porque os sintomas eram muito parecidos.

AM – Quais eram os sintomas?

FO – Eu perdi peso, tinha suor noturno, dor nas articulações, tinha infecção porque minha imunidade havia caído. Aí, o médico falou: “não posso deixar você sair dessa sala sem os exames”. Fiz e o resultado veio depois. Eles me ligaram e disseram que tinham marcado uma consulta com uma especialista mas não falaram o que era. Quando cheguei lá, ela me perguntou: “o que o médico comentou com você?” Eu respondi: “ele me falou que poderia ser isso, isso e isso”. Ela falou: “ah, então, seu teste deu positivo para HIV”. Meu chão abriu na hora.

AM – Quando foi isso?

Foi no dia 23 de fevereiro de 2016, quando recebi o diagnóstico. Foi aquele baque, né. Fiquei meio atordoado. Eu estava sozinho na sala. Minha mãe e minha tia estavam do lado de fora. Super curiosas para saber o que era. Quando eu saí, elas perguntaram e eu falei que não era nada demais, que estava bem. Apesar de estar atordoado na hora, a consulta foi super de boa e tranquila, pois eu não me desesperei tanto assim. A médica e eu conseguimos conversar sobre o tratamento e medicação.

No dia seguinte, comecei a tomar as medicações e tive efeitos colaterais horríveis. Lembro que era a minha primeira semana de aula na faculdade e passava muito mal. Não estava conseguindo estudar.

Quando você descobre que é soropositivo, você passa por exames mais específicos. Esses exames vão determinar em qual estágio da doença ou do vírus. A carga viral é muito variável. Tem casos que ela vai de 500 a milhões. No meu, ela correspondia a 1 milhão e 400. É muito alta mesmo. Eu estava praticamente na merda.

O CD4 mede pra ver se você tem a doença ou não. O CD4 de uma pessoa saudável fica, em média, entre 1.200 a 1.600. Quando você chega a 200, é sinal que você tem Aids. O meu estava em 80.

“EU TIVE UMA INFECTOLOGISTA QUE FEZ UMA COMPARAÇÃO PARA ENTENDER MELHOR: TEM UM TREM E ELE ESTÁ NO TRILHO. E, NESSE TRILHO, TEM UM ABISMO. PENSE QUE O TREM TÁ VINDO, A VELOCIDADE DELE SERIA A CARGA VIRAL. A DISTÂNCIA ENTRE O TREM E O ABISMO É O CD4”.

AM – Qual foi a sua impressão sobre o atendimento que os profissionais de saúde deram nesse primeiro momento da descoberta do vírus HIV?

FO – Tudo foi feito pelo SUS em dois momentos: o atendimento em Balneário de Camboriú e em Curitiba. No primeiro, foi horrível. O médico disse que a minha infecção na garganta era porque não escovava os meus dentes e me passou um spray para mau hálito. Eu sabia que era algo mais sério. E, no posto de saúde, já me mandaram embora apesar de ter falado todos os sintomas e da necessidade de fazer uma bateria de exames. Aqui, em Curitiba, foi tudo totalmente diferente. O médico me pediu a bateria de exames, conversou com calma, pediu raio-X, etc. E, no dia do resultado, foram dois médicos: um clínico geral e uma infectologista.

Ela foi muito humana e disse para que ficasse tranquilo. Foi muito atenciosa. Pelo o que a gente conseguiu conversar lá, notei que nem todo mundo reagia de uma maneira tão tranquila como eu. Ela contou que, em alguns casos, as pessoas desmaiam e tinha gente que saía da sala chorando.

“ACHO NECESSÁRIO TER UM PSICÓLOGO NO MOMENTO QUE VOCÊ RECEBE O DIAGNÓSTICO. EU LIDEI BEM PORQUE NUNCA TIVE PRECONCEITO COM SOROPOSITIVO. CLARO QUE, PRA MIM, FOI UM BAQUE, MAS LIDEI DE BOA. A INFECTOLOGISTA INCLUSIVE FALOU QUE FUI UM DOS ÚNICOS PACIENTES QUE, NA MESMA CONSULTA, ELA CONSEGUIU DAR O RESULTADO E FALAR SOBRE MEDICAÇÃO. HÁ PESSOAS QUE RECEBEM O DIAGNÓSTICO E DESABAM ALI; O  MUNDO ACABA”.

AM – Você tem apenas 20 anos e me surpreende a forma como tem lidado com isso. Mas queria também saber como foi a reação dos seus pais?

FO – Eu contei primeiro para minha mãe, no mesmo dia, em casa. Ela chegou pra mim e falou: “filho, conta pra mim o que é, eu estou preocupada”. Respondi: “mãe, não sei se devo contar”. Ela questionou: “Só me diz uma coisa: é Aids?”. Falei: “mãe, então…”. Aí, ela começou a chorar e veio me abraçar muito forte, dizendo que estaria comigo em todo momento e que iríamos batalhar juntos. Era o que eu precisava ouvir, saca?

Ela ligou para o meu pai. Eles são separados. Quando ela contou pra ele, por telefone, meu pai surtou naquela noite, ficou mal e disse que queria me ver. Então, saí de Balneário e voltei pra Curitiba. Ele me abraçou muito forte, quase me quebrou. Ele tem 1,95 de altura. Foi muito bonito, sabe? Ele me deu um super apoio. Sentou comigo e quis entender o que tinha acontecido e porque eu tinha contraído o vírus. Fiquei chocado com essa reação deles.

AM – Seus pais já sabiam que você é gay?

FO – Sabiam. Sempre fui muito honesto com meus pais. Minha mãe é pessoa muito religiosa, então, ela não falava sobre o assunto. Quando contei pra ela tinha 13 anos.

AM – E como foi isso?

FO – Eu sempre soube, sabe? Eu sempre contei tudo pra eles, principalmente, para minha mãe. Quando contei foi “mãe, eu tô sentindo atração por um menino”. Ela achou que era só uma fase. Já meu pai ficou sabendo quando eu tinha 15 anos.

AM – E qual foi a reação do seu pai?

FO – Ele ficou sabendo por meio da minha madrasta, pois eu havia contado pra ela. Ele me ligou e disse para ir a Curitiba. Ele me colocou no carro e me levou a um morro que dava para ver o horizonte e pôr do sol. Me mandou sair do carro. Aí pensei: pronto, ele vai me jogar daqui de cima (risos).

AM – Pois é…pensei a mesma coisa (risos).

FO – A gente sentou e ele começou a conversar comigo. Ele foi sempre assim: um pai que tenta entender o que está acontecendo. Ele disse que não aceitava mas que nunca ia deixar de me amar e que estaria do meu lado pra sempre. Foi lindo.

“ELE FALOU: ESSE CAMINHO, TALVEZ, POSSA TE FECHAR MUITAS PORTAS E SERÁ MUITO DIFÍCIL. AÍ, ELE APONTOU PARA O HORIZONTE E DISSE: FILHO, EU QUERIA QUE O HORIZONTE FOSSE SEU, QUE VOCÊ FOSSE CAPAZ DE VOAR E SER LIVRE. E ISSO VAI TE IMPEDIR MUITO. AÍ, ELE ME ABRAÇOU”.

Até então, a gente tinha uma relação muito distante. Passei anos sem vê-lo. A partir desse momento, começamos a nos aproximar mais. Ele passou a ficar mais presente no meu dia a dia, me mandando mensagem.

AM – E agora? Nesta fase recente, como foi a reação dele?

FO – No início do tratamento, me chamou pra ficar com ele, pois todos os meus médicos são daqui, de Curitiba. Ele e minha madrasta sempre me deram muito apoio.

AM – Pelo que percebi, foi tudo muito rápido: da contaminação até agora.

FO – Sim, foi tudo muito rápido. Até minha médica achou estranho. Para chegar no estado que estava, leva em torno de dez anos. Em um mês, eu já tinha emagrecido, já sentia dores, passava mal. Foi um estalo.

AM – Em que ano você supõe que tenha contraído o vírus?

FO – No ano de 2014.

AM –  É muito pouco tempo se considerar a manifestação dos sintomas.

FO – A minha infectologista disse que tem recebido alguns casos específicos em que, em pouco tempo, as pessoas estavam chegando nessa situação. Provavelmente é um vírus extremamente resistente, até porque nem todos os vírus são iguais.

AM – Aí você foi fazendo o tratamento. Pelo visto, os sintomas da Aids vieram de forma muito forte. Quando a sua saúde voltou a ficar boa de novo?

FO – Demorou uns 25 dias. Lembro que, nos primeiros dias, tinha sonhos bizarros, não conseguia me mexer, porque fiquei totalmente “drogado” na cama. Depois fui recuperando e já tinha engordado. Meu cabelo voltou a crescer e ficou bonito de novo. Tudo estava fluindo maravilhosamente. No meu aniversário, dia 13 de maio, foi quando senti a primeira dor do câncer. Foram apenas quatro meses depois de descobrir o vírus HIV. Tcharammm: surprise (risos).

AM – Como estava sua carga viral quando você descobriu o câncer?

FO – Eu estava quase zerando. Meu CD4 estava em trezentos e setenta e pouco. Minha carga viral, de um milhão e quatrocentos, passou para 200, em quatro meses de tratamento. Mais uma semana, provavelmente teria zerado. Atualmente sou indetectável.

AM – E onde exatamente foi essa dor que você sentiu?

FO – Foi no fêmur. Comecei a mancar. Daí passou uma semana, fui à UPA. Fizeram uns exames e não acharam nada. Me deram remédio para dor e me mandaram pra casa. Só que, a cada dia, a dor se intensificava mais. Cheguei a passar 20 dias em claro, porque não conseguia dormir devido a tanta dor.

Voltei à UPA. Aí, a médica de lá disse que havia uma suspeita de necrose do fêmur. Quando você toma o retroviral, esse é um dos efeitos que pode vir a ocorrer. Só que fazia pouco tempo que tomava o remédio. Geralmente acontece depois de cinco anos de uso.

Fui atrás da minha infectologista. Marquei uma ressonância que confirmou ainda mais a suspeita. Cheguei a marcar a cirurgia mas aí já estava muito mal. Fui perdendo peso bem rápido. A minha pele inteira começou a escamar. Minhas dores eram tão grandes que chegava desmaiar cinco vezes durante o dia. Sentia a dor espalhar pelo corpo. Fiz a biópsia. Mas tive que ser internado.

Ali, começaram a aplicar morfina, gabapentina, tramal, metadona e vários outros remédios que eu tomava de quatro em quatro horas para tentar segurar a dor. Cheguei a tomar 10 miligramas de morfina, que é uma dose mega cavalar. Então, tive que ficar internado até eles saberem que tipo de câncer exato era. Do mês que fiz a cirurgia ao mês que saiu o resultado, perdi 30 quilos. O câncer já tinha tomado boa parte do meu corpo e estava em estágio 4 (que é o último).

AM – Você então estava prestes a descobrir o resultado do exame…

FO – Nessa última semana, antes de sair o resultado, eu estava tão mal que não conseguia me alimentar. Estava usando sonda. Perdi os movimentos. Meus pais tinham que me dar banho. Quando saiu o resultado, na mesma hora, já tive que começar a quimioterapia.

AM – E que tipo de câncer é?

FO – Linfoma de não-Hodgkin. Eles precisavam saber o nome para ter as dosagens de quimioterapia e atingir as células corretas. A quimioterapia que fiz foi muito forte. Foram quatro dias, 24 horas, recebendo o “produto” na veia. Depois entrava uma outra, de mais quatro horas, encerrando primeiro ciclo. Era tão forte, que, no segundo dia, passei a mão no meu cabelo e ele veio todo na minha mão. Senti a quimio entrando no corpo e “segurando” o câncer. Só assim, depois, comecei a melhorar.

AM – Isso durou quanto tempo?

FO – Minha última quimio foi agora, na semana passada.

AM – Terminando esse ciclo, agora você vai fazer o transplante de medula.

FO – No meu caso, como o câncer não tinha infiltrado na minha medula, o meu transplante vai ser autólogo. Não preciso de doadores. Eles usaram a minha própria medula, conseguiram extraí-la, tratá-la. O processo é muito fácil e as chances de recuperação muito maiores quando é autólogo. Eu sou o quarto da fila de espera para fazer a cirurgia.

AM – Os médicos conseguem identificar a origem desse câncer? É genético?

FO – É do HIV. O vírus vem e injeta dentro da célula o DNA dele. Ele acaba modificando o DNA da célula do corpo. Quando ele faz esse processo, a célula começa a se multiplicar erradamente, pois ela possui uma mutação genética. Essa mutação genética acaba ocasionando o câncer, pois são células defeituosas. Como no meu caso, a carga viral era muito grande e o CD4 muito baixo, eu tinha muitas células modificadas. Isso acabou acarretando numa evolução da doença.

AM – Depois dessa fase do transplante, qual é o próximo passo?

FO – Para eu receber a cura só depois de cinco anos, porque o tipo de câncer que tenho é muito agressivo e raro. Ele é muito mais raro ainda em pessoas soropositivas. Eu sou só um pouquinho cagadinho na vida (risos). Aí, a chance dele voltar é muito grande.

AM – De onde você tira tanta força pra enfrentar isso tudo?

Eu tenho uma família muito bonita. Pais maravilhosos. Todos eles até porque tenho dois pais e duas mães. Eu só tenho agradecer, pois foi o que me ajudou muito e me dá suporte para superar tudo o que passei!

“Este artigo e a imagem foram publicados originalmente no blog: Flash Mag”

2 comentários :

NEURI disse...

Nossa que história comovente essa e quanta força desse rapaz!! Exemplos assim precisam ser mostrados para que os jovens adquiram consciência de que o perigo existe e é necessário a prevenção! Linda a atitude desses pais...O mundo precisa de pessoas assim, que compreendam, possam dar apoio e auxiliar a enfrentar esse momento tão delicado que é enfrentar essa doença...Mais amor e menos preconceito e isso mudará o mundo!!! Forças a esse rapaz, espero que possa superar todos esses obstáculos!!!

Horlando Oliveira disse...

Tão bom ler histórias assim, de pessoas fortes que superam a si mesmos e encontram forças em si é, melhor ainda, nos seus.
Não tem como não se comover duplamente, pela história e pela força de um menino tão novo, e fica aqui meu mais sincero agradecimento por esse relato tão verdadeiro.
Sou soro a uns bons 15/16 anos e, com o passar desse tempo, as vezes nos tornamos meio que anestesiados. Precisamos de um golpe de ânimo para seguir na nossa pequena luta de todo dia.
Forças e obrigado por sua coragem