"Linhagens do vírus HIV resistentes aos antirretrovirais mais antigos e mais novos preocupam especialistas"

Por: Cesar Baima - O Globo

"Um número significativo de soropositivos na África está infectado com linhagens do vírus HIV, resistentes tanto a remédios mais antigos quanto a mais novos, com mutações que antes se achavam incompatíveis. Diante disso, cresce a preocupação dos especialistas com a disseminação destas linhagens, o que pode prejudicar a meta global de controlar a epidemia da doença até 2030".

No estudo, publicado nesta quarta-feira (30/11/2016) no periódico científico "The Lancet Infectious Diseases", uma equipe internacional de pesquisadores analisou casos de 712 pacientes com HIV da África Subsaariana "cuja infecção fugia ao controle das terapias antirretrovirais de linha de frente atualmente recomendadas pela Organização Mundial da Saúde (OMS), baseadas no tenofovir, medicamento também muito usado na chamada profilaxia pré-exposição (Prep) ao vírus".

Em 16% deles, porém, os cientistas também identificaram mutações no HIV que "conferia resistência a uma geração mais antiga de remédios, conhecidos como inibidores da transcriptase reversa por análogos da timidina, entre os quais se destaca o AZT (zidovudina)", um dos primeiros medicamentos desenvolvidos contra o vírus. "Além disso, num cálculo invertido, eles verificaram que 80% dos pacientes cujos vírus que tinham essas mutações também eram resistentes ao tenofovir. Ficamos muito surpresos em ver que tantas pessoas eram resistentes a ambas drogas, já que não achávamos que isso era possível".

Disse Ravi Gupta, professor da University College London e líder do estudo. Pensava-se que as mutações para a resistência aos análogos da timidina eram incompatíveis com as mutações para a resistência ao tenofovir, mas agora vemos que o HIV pode ser resistente a ambos ao mesmo tempo. "Isto enfatiza a necessidade de verificar o perfil genético do vírus do paciente antes de prescrever a primeira linha de tratamentos, pois eles podem já ter desenvolvido resistência a outras terapias, mesmo que não as tenham tomado".

A resistência a um remédio normalmente ocorre "quando um paciente não toma a medicação na regularidade adequada e, no caso da primeira linha de tratamentos contra o HIV, eles devem ser tomados corretamente no mínimo 85% e 90% das vezes". Mas quando isto não acontece, o que é comum na África devido às dificuldades socioeconômicas da grande maioria dos países do continente, "o vírus pode desenvolver resistência às drogas, e o estudo agora mostra esta resistência pode ser múltipla e simultânea, e se um paciente se torna resistente a estes medicamentos de primeira linha, o próximo estágio é tomar remédios de segunda linha, mais caros e com efeitos colaterais mais fortes, cujo acesso também é mais difícil no continente".

"Para prevenir que estas linhagens multirresistentes se desenvolvam, precisamos ter sistemas baratos e confiáveis para avaliar os pacientes antes do tratamento, defende Gupta". Idealmente, necessitaríamos apenas de simples kits de teste de resistência para fazer a triagem antes de iniciar o tratamento. Isto nos ajudaria a monitorar a resistência do HIV de forma global de maneira mais eficaz. Mas, até que estes kits estejam disponíveis, poderíamos testar a carga viral na corrente sanguínea antes e depois de inciar o tratamento. "Embora isto não seja tão preciso quanto os testes de resistência, essa estratégia poderia nos ajudar a detectar precocemente o fracasso do tratamento e mudar a terapia".

Fonte: Extra - O Globo

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