''Nossa chance de controlar a epidemia de HIV aumentou muito, diz chefe da OMS, o santista Fábio Mesquita, atual coordenador desta temática na organização"

Por: Gustavo T. de Miranda
(A Tribuna de Santos)

O santista Fábio Mesquita é doutor em saúde pública e esteve à frente do Departamento de DST/Aids e Hepatites Virais, do Ministério da Saúde. Um dos maiores especialistas no assunto, hoje é chefe da equipe que trabalha com esta temática na Organização Mundial da Saúde (OMS), na Indonésia. "Para ele, nossa chance de controlar a epidemia aumentou muito graças ao uso estratégico dos antirretrovirais como elementos de prevenção". Nesta entrevista cedida ao Jornal A Tribuna de Santos, ele cobra a modernização das estratégias de combate à epidemia no Brasil.

A Tribuna: Quais pesquisas são promissoras na tentativa enfrentar a epidemia de HIV?

Fábio Mesquita: Na linha de frente das pesquisas, existe uma retomada promissora do estudo de vacinas, mas a mais promissora das pesquisas está na chamada "cura da Aids, onde os medicamentos antirretrovirais conseguiriam tirar os vírus escondidos nos reservatórios e eliminá-los de vez do corpo humano".

No campo do diagnóstico, os avanços são também incríveis "com destaque para o autoteste" (pessoa comprando em farmácia e fazendo o teste em casa).

Na semana passada, foi lançado "um pendrive (clique aqui para conhece-lo) que a pessoa pode usar em casa para medir de maneira constante sua carga de vírus, e monitorar o sucesso do seu tratamento, como pode ser feito com diabetes".

No campo da prevenção, todo destaque se dá para "o uso dos antirretrovirais como medida de prevenção, particularmente com o acesso à chamada Profilaxia Pré-Exposição (PrEP). Você usa o medicamento até duas horas antes da relação sexual e fica completamente protegido".

A Tribuna: Por que ainda temos índices de infecções tão altos?

Fábio Mesquita: A resposta não é tão simples. Fazendo uma analogia de porque as pessoas que sabem que preservativo é importante não usam preservativo, "diria que seria igual ao fato de que ainda há médicos que fumam".

Certamente ninguém poderia saber mais dos malefícios e riscos de fumar que um médico, mas conheço vários colegas que ainda assim fumam. "Felizmente nossa estratégia de controle da transmissão do HIV não depende só da camisinha".

A Tribuna: Como assim?

Fábio Mesquita: Ela conta com o que nós chamamos de prevenção combinada. Para além da camisinha, para os que não usam ou esquecem de usar, "existe TASP" (o uso do tratamento como prevenção); "PEP" (uso da medicação antirretroviral após qualquer situação em que exista o risco de contato com o vírus); "PrEP" (o uso do medicamento antirretroviral por aqueles indivíduos que não estão infectados mas se encontram em situação de elevado risco de infecção). "Nossa chance de controlar a epidemia aumentou muito graças ao uso estratégico dos antirretrovirais como elementos de prevenção".

A Tribuna: Há muito tempo se fala da PrEP. Por que ela não virou uma realidade efetiva aqui?

Fábio Mesquita: Não virou realidade ainda no Brasil, mas felizmente já é realidade em vários países. Quando deixei o Departamento, em junho de 2016, já tínhamos construído um Protocolo de Uso de PrEP com um comitê técnico. Deixei o protocolo submetido à Comissão de Incorporação de Tecnologias do SUS (Conitec). Deixamos um estudo de custo beneficio, que mostrava que seria de extremo custo-benefício lançar a estratégia. E programamos para que ela fosse lançada no Dia Mundial de Luta Contra a aids de 2016. "Estou longe do País, mas espero ouvir esta música para meus ouvidos e, na verdade, para os ouvidos da juventude brasileira".

A Tribuna: O senhor crê que a falta de informação e educação dificultam o enfrentamento?

Fábio Mesquita: Sem dúvida nenhuma. "Não somente o medo e o pânico, que vão num dos extremos da curva, mas também o desprezo e a banalização, que estão no outro extremo. Aids continua sendo uma doença séria e uma importante causa de morbidade e mortalidade. A informação é essencial, para desmistificar e para que a epidemia continue sendo levada a sério".

FONTE: JORNAL A TRIBUNA DE SANTOS

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