Estigma provoca aumento de casos de Aids no Brasil!


O estigma carregado pelos portadores de algumas doenças acaba sendo um dos motivos para que os números de casos aumentem. É o que mostra uma pesquisa da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e da Fundação Carlos Chagas Filho de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (Faperj) coordenada pela psicóloga e doutora em Saúde Pública Simone Monteiro, "que investiga os fatores socioculturais, econômicos e institucionais que determinam as decisões e as práticas sexuais e reprodutivas de gestantes vivendo com HIV/Aids".

Segundo a especialista, a forma como o indivíduo enxerga o estigma vai determinar diversos aspectos comportamentais. Em entrevista ao Jornal do Comércio, Simone explicou como esse tipo de preconceito afeta a vida das pessoas. Leia abaixo:

Jornal do Comércio - Mesmo com tendência de queda, os números da Aids ainda são altos no Brasil. Segundo o Ministério de Saúde, a média nacional é de 19,1 casos por 100 mil habitantes. Como isso se explica?

Simone Monteiro - A despeito de termos obtido muitas conquistas, notamos um foco nessa política de testagem visando ao tratamento em detrimento de ações de prevenção, como a instrução ao uso do preservativo e uma série de campanhas. "Há um grande silêncio em torno da Aids, que parece ter se tornado uma questão crônica, de fácil tratamento. Além disso, em função da persistência do estigma, muitas pessoas optam por não fazer o teste".

Estudos mostram que aderir ao tratamento não é tão simples. Existe uma série de fatores. "Um deles tem a ver com efeitos colaterais, e outro, com o estigma". Se as pessoas descobrirem que alguém está tomando medicamentos, o diagnosticado pode ser discriminado. Ou seja, é preciso conjugar essa ênfase na questão do tratamento com uma série de outras ações no campo da prevenção, envolvendo não só o uso do preservativo, mas campanhas e até o enfrentamento de desigualdades.

Jornal do Comércio - A taxa de detecção em bebês vem crescendo. A cada mil nascidos vivos, 2,7 foram diagnosticados com HIV/Aids em 2015 - em 2006, eram 2,1, o que corresponde a um aumento de 28%. O que justifica esse crescimento?

Simone Monteiro - A testagem no pré-natal busca pegar todas as gestantes para realizar o teste. Hoje, se uma grávida chega à maternidade sem o resultado, ela é testada na hora, até porque isso interfere na forma como é feito o parto. "Mas dados apontam que o número de mulheres que busca o teste de forma espontânea é muito menor que a quantidade que o faz porque estava em gestação. Isso mostra que as pessoas, em especial as mulheres, ainda estão atreladas àquela ideia de que a mulher é menos vulnerável à Aids, e não procuram o teste".

Jornal do Comércio - Há também casos de mulheres que relutam em aderir ao tratamento por medo de causar prejuízos ao bebê. Como conscientizar as gestantes nesse sentido?

Simone Monteiro - Nesse estudo que fizemos, percebemos que, em geral, quando a pessoa é testada na atenção básica e encaminhada para um serviço especializado em gestantes, ela leva um susto com o resultado positivo. Acha que tanto ela como o bebê vão morrer. "Estando em contato com um serviço qualificado, de referência, elas mudam de perspectiva, e entendem que não só elas não morrerão como há chance de que o filho nasça sem o vírus". Esse tipo de atendimento permitiu que as gestantes se convençam de que é importante tomar a medicação. Ainda assim, percebíamos que várias aderiam durante a gestação, mas depois do nascimento do bebê, abandonavam o tratamento. "O desafio está, então, nessa pós-gestação, porque muitas voltam novamente grávidas ou doentes".

Jornal do Comércio - Qual o melhor caminho? Investimento em prevenção, conscientização por meio de políticas públicas?

Simone Monteiro - Não dá para colocar tudo no colo do serviço público. Mas é preciso que sejam desenvolvidas políticas associadas, afinal, grande parte da situação de vulnerabilidade dessas mulheres não é atendida pelo serviço público. "As pessoas buscam a testagem e voltam para as condições que viviam antes". Teria de ser um trabalho mais integrado, para que fosse possível acessar a realidade daquela mulher, e, além de tudo, é preciso enfrentar o estigma. "Parte da não adesão ao tratamento tem a ver com ele. A pessoa não quer que ninguém saiba que está tomando medicamento, mas, ao se esconder, acaba reforçando essa condição de marginalidade. É preciso dar visibilidade a essas questões".

Entrevista: Suzy Scarton

Fonte: Jornal do Comércio/Porto Alegre

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