Cazu Barros: As pessoas devem evitar o vírus e não o portador do vírus!


Ator Cazu Barros, protagonista de propagandas oficiais de combate ao HIV, critica a campanha do governo para o Carnaval 2017. Cazu assina nota de repúdio afirmando que o vídeo potencializa o estigma e a discriminação contra as pessoas que vivem com HIV/Aids. "As pessoas devem evitar o vírus e não o portador do vírus, como sugere a campanha", diz Cazu. Leia na íntegra a carta do ator ao ministro da Saúde, Ricardo Barros:

"CARTA DE REPÚDIO"

 V.Ex.ª. Ministro da Saúde Ricardo Barros

NÃO TEMOS CULPA, NÃO SOMOS VETORES A SEREM EXTERMINADOS!

Eu, Cazu Barroz, ator, pessoa vivendo com HIV/Aids desde 1990,  protagonista das Campanhas "A Vida é  mais forte do que a Aids 2006 e Dia internacional da mulher" 2008, do MS,  campanhas das quais tive o maior orgulho em participar, venho desta vez  manifestar MEU REPÚDIO à campanha publicitária que o Ministério da Saúde lançou no dia 21 de fevereiro 2017, no intuito de chamar a atenção para a prevenção do HIV/Aids no período do Carnaval.

Entendo que campanhas de prevenção são necessárias e importantes para a conscientização da população no que se refere aos cuidados com a saúde, porém, a referida campanha lançada este ano:

"Está totalmente equivocada, ATERRORISANTE ao potencializar o estigma e a discriminação às pessoas atingidas pela Aids, trazendo um tom de suspeita sobre essas pessoas e, de forma subliminar, culpabilizando as pessoas vivendo com HIV/Aids (PVHA) pelo avanço da epidemia".

Tirando a "responsabilidade da gestão pública no que tange à construção de uma resposta efetiva no seu enfrentamento que, desde 2010, os esforços do Ministério da Saúde vem caindo e retrocedendo a cada ano, visto que os dados alarmantes do avanço da epidemia, reconhecido pelo próprio MS e, publicizados na referida campanha de conscientização reflete o atual descaso das autoridades publicas de saúde no combate a aids em nosso país".

Os trechos da campanha: 260 mil pessoas tem HIV e não se tratam e 112 mil pessoas tem HIV e não sabem e Vc?

Manda uma mensagem subliminar para a população "tomar cuidado com essas pessoas que estão por aí, não se cuidam e podem te infectar e, por isso, devem usar camisinha. Na verdade, as pessoas devem evitar o vírus e não o portador do vírus, como sugere a campanha". Ao afirmar que não nos tratamos, "a população pode entender que estamos saindo por aí disseminando o vírus para todo mundo". Além disso, sua fala em rede nacional dizendo que estas 260 mil pessoas que não se tratam, precisam procurar um  Psicólogo, analista e tratamento espiritual:

"Reforçou ainda mais a mensagem subliminar de ódio, preconceito e estigma. Nos chamou de malucos e pecadores pra baixo".

 Recentemente a Rede Globo publicou uma serie chamada "Os Carimbadores",  onde mostravam  PVHAs que estavam disseminado o HIV e a TV RECORD apresentou uma serie de matérias sobre "O Maníaco da Seringa na Paulista" que também insinuava que eram pessoas PVHAs disseminado o Vírus. No BBB 2016, a advogada e participante  Angela, "sugeriu como forma de acabar com a Aids no Brasil,  exterminar todas as pessoas com HIV/Aids", além de no congresso, "tramitar um projeto de lei para criminalizar o transmissor do HIV, como se em nosso país já não existe um lei que pune quem transmite doenças  infectocontagiosas e fatais".

"Minha indignação maior  é agora ver numa campanha em massa, durante o carnaval, um órgão do governo que deveria combater o estigma, preconceito e discriminação, reforçar todas essas teorias de que quem tem HIV, está revoltado e dissemina o vírus,  reforçando que todos nós somos "carimbadores e ou maníacos da Seringa" e como sugeriu o BBB, merecemos ser EXTERMINADOS".

Para o conhecimento de V.Ex.ª. há anos venho a publico, junto a estas mesmas emissoras de TV, "denunciar que não estamos conseguindo tratamento adequado para nosso cuidado no RJ e, o que vemos e sabemos em todo o país, são as pessoas conseguindo apenas adquirir seus ARVs e lhes faltando médicos, medicamentos de infecções oportunistas, leitos, exames e até mesmo psicólogos, como o Sr. mesmo sugeriu que  procurássemos . No dê condições de tratamento que iremos nos tratar".

"Como pode ver não nos tratamos por que não queremos e sim, por que não estão nos dando condições de se tratar, agora, se V.Ex.ª entende que se tratar de Aids é somente ter acesso ao coquetel e pronto, me desculpe, o Sr. precisa se informar melhor sobre como é um tratamento de pessoas com HIV/Aids ou se infectar com o HIV para viver na pele o descaso do MS, com nós, pessoas vivendo".

Saliento ainda que tal campanha não respeita os direitos das pessoas vivendo com HIV/Aids (PVHA). Precisamos refletir se no Brasil as ações e serviços de saúde pública alcançam a todos e a todas, respeitando suas singularidades e suas diferentes demandas e garantindo o acesso de cidadãs e cidadãos de forma equânime.

"A atual política do Ministério da Saúde somente prioriza a testagem e o tratamento como formas principais de prevenção atua de uma forma mínima e simplista, ignorando as novas tecnologias e estratégias de gerenciamento de risco".

Importante lembrar que a resposta brasileira à epidemia de Aids se projetou internacionalmente por contemplar inúmeras narrativas, conciliando o discurso biomédico e a garantia dos direitos humanos das pessoas atingidas pela epidemia de Aids, em um processo de construção coletiva com participação efetiva do movimento nacional de luta contra a Aids, principalmente se referindo as campanhas onde existia o GT de comunicação formado pelos técnicos do MS e pessoas vivendo com HIV/Aids, "que Infelizmente, na atualidade, esses elementos não são considerados relevantes pela gestão pública e a resposta brasileira se pauta unicamente no discurso biomédico, desvalorizando a participação dos atores sociais e o protagonismo das PVHA".

"Diante deste cenário, expressamos nossa preocupação e total rejeição a esta campanha e sugerimos, em respeito e pela dignidade das PVHAs, a sua imediata suspensão".

Desde já fico grato pela sua atenção dada ao assunto.

Cazu Barroz

Fonte: Agência de Notícias da Aids

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