Não temos culpa, não somos vetores a serem exterminados!

Em uma carta aberta à sociedade brasileira, a Rede Nacional de Pessoas Vivendo com HIV e Aids (RNP+), o Movimento Nacional das Cidadãs PositHIVas (MNCP) e a Rede Nacional de Adolescentes e Jovens Vivendo com HIV/Aids (RNAJVHA) manifestaram o descontentamento com a campanha de prevenção do HIV para o carnaval 2017, lançada pelo Ministério da Saúde. No documento, emitido na quarta-feira (22), os ativistas dizem que o vídeo da campanha estigmatiza as pessoas vivendo com HIV e Aids no Brasil. Leia abaixo a carta na integra:

Não temos culpa, não somos vetores a serem exterminados!

A Rede Nacional de Pessoas Vivendo com HIV e Aids (RNP+), o Movimento Nacional das Cidadãs PositHIVas (MNCP) e a Rede Nacional de Adolescentes e Jovens Vivendo com HIV/AIDS (RNAJVHA) vêm à sociedade brasileira manifestar descontentamento com a campanha de prevenção do HIV para o carnaval, lançada pelo Ministério da Saúde nesta terça-feira (21), em Salvador. O vídeo, No Carnaval use camisinha e viva essa grande festa:

"Estigmatiza a nós, cidadãs e cidadãos de todas as idades, gêneros, raças e orientações sexuais vivendo com HIV e Aids no Brasil".

Supostamente a título de informação, o Ministério escolheu ressaltar que 260 mil pessoas com HIV ainda não iniciaram o tratamento antirretroviral com o coquetel de medicamentos fornecidos pelo Sistema Único de Saúde (SUS), quando poderia afirmar que:

"Das 715 mil pessoas diagnosticadas com o vírus, 455 mil estão em tratamento com o coquetel. E que destas, 410 mil, 90% das pessoas em tratamento, são tão pontuais com suas doses diárias que já alcançaram a supressão viral, o que, segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), torna a pessoa não transmissível. Para a OMS, estas 410 mil pessoas não transmitem o HIV porque alcançaram a supressão viral".

Nos serviços de saúde são cada vez mais frequentes "as reclamações sobre a falta e/ou o fracionamento destes mesmos medicamentos antirretrovirais". O Brasil que adotou a estratégia Testar e Tratar é o mesmo que:

"Relega a assistência a segundo plano, que omite que em algumas cidades pode haver espera de até seis (6) meses do diagnóstico positivo à primeira consulta com um médico que possa orientar corretamente a pessoa com HIV para o início de seu tratamento". 

O HIV e a Aids são carregados de estigma. "Por isso, pessoas com HIV sofrem diariamente com o preconceito e a discriminação, maior causa de abandono do tratamento". O acolhimento, "que há tempos deixou de existir", e um serviço com profissionais de saúde capacitados e especializados garantiriam a adesão e a continuidade do tratamento. "O governo sabe disso". É de responsabilidade executiva do Ministério da Saúde que a política de Aids esteja implementada por todo o País, para que:

"Sejam evitadas e reduzidas a média de mais de 12 mil mortes anuais ocorridas nos últimos cinco anos".

Voltando ao lançamento da campanha realizado no templo de Carlinhos Brown, o artista elogiou a iniciativa do Ministério; o ministro da Saúde, em meio à apresentação de dados epidemiológicos, recomendou que as 260 mil pessoas com HIV que não iniciaram seus tratamentos procurassem por apoio espiritual. O cerimonial encerrou a solenidade. O vice-governador da Bahia, o prefeito de Salvador, os secretários estadual e municipal de saúde, e representantes do movimento social organizado, "sem entender nada, enfeitaram a mesa".

Brasil, 22 de fevereiro de 2017.

Rede de Adolescentes e Jovens Vivendo com HIV/Aids – RNAJVHA
Movimento Nacional das Cidadãs PositHIVas – MNCP 
Rede Nacional de Pessoas Vivendo com HIV e Aids – RNP+ 

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