"Casos de HIV/AIDS cresce 289% em 10 anos, no Grande ABC/SP"


Com o fim do Carnaval, as campanhas de conscientização sobre uso de camisinha enfraquecem. E isso afeta, principalmente, o público jovem. Um levantamento realizado pelo jornal Diário do Grande ABC, aponta que em cinco das sete secretarias municipais da Saúde da região (exceto São Caetano e Rio Grande da Serra, que não retornaram):

"Os casos de HIV/AIDS entre jovens de 15 a 24 anos cresceram 289,18%, na comparação de 2007 com 2016, passando de 37 registros para 144. A situação é maior do que o cenário do país. Segundo o Ministério da Saúde, os números nacionais no público desta faixa etária cresceram 85%, nos últimos 10 anos".

São Bernardo teve o maior aumento: de 14 ocorrências, em 2007, saltou para 45 em 2016. Santo André, de 10 jovens infectados, pulou para 43, no ano passado. Mauá, que tinha seis registros, viu o número subir para 35. Diadema passou de sete para oito, e Ribeirão Pires, que em 2007 não tinha contabilizado paciente dentro dessa faixa etária, diagnosticou 13 pessoas em 2016. O professor responsável pela disciplina de Infectologia da FMABC (Faculdade de Medicina do ABC) Hélio Vasconcellos Lopes lembra que:

"Com a evolução do tratamento, e a oferta dele gratuitamente no SUS (Sistema Único de Saúde), acredita-se que as pessoas não morram mais vítimas da doença. Caiu no gosto popular à ideia de que a AIDS hoje é tratável, controlável e se tornou doença crônica. Que não chega a tornar o paciente inválido nem o leva a sofrer. Isso é ignorância, lamenta".

O infectologista ressalta que, embora o tratamento possibilite que a pessoa leve uma vida normal, há diversos fatores graves a se considerar. "O problema não é somente para a própria pessoa, mas sim epidemiológico, com o risco de transmissão e a propagação da doença, diz. A segunda questão de gravidade são as pessoas de nível intelectual e aquisitivo baixos, que não têm noção do que está acontecendo e, quando vão procurar assistência, já estão no estágio praticamente terminal. E o terceiro ponto é quando a pessoa desenvolve resistência ao tratamento. Isso ocorre em casos sem adesão ao tratamento".

"Segundo o Ministério da Saúde, dentre todas as faixas etárias, a adesão ao tratamento no grupo de 15 a 24 anos é a mais baixa. Apenas 29,2% dos 44 mil jovens identificados com a doença estão em tratamento no SUS".

Os dados mostram que a cobertura cresce na medida em que aumenta a idade das pessoas. Na faixa de 25 a 34 anos, esse percentual é de 77,5%, mantendo-se superior a 80% em todas as outras faixas etárias até chegar a 84,3% entre os indivíduos acima de 50 anos. O Boletim Epidemiológico de HIV e AIDS, divulgado no fim e 2016, informa que 827 mil pessoas vivem com o HIV no Brasil. O SUS oferece 22 medicamentos para os soropositivos. Desse total, 11 são produzidos no país.

"Cidades da região afirmam desenvolver ações aos jovens"

As secretarias de Saúde do Grande ABC afirmam fazer um trabalho especial de conscientização ao público jovem. Em Santo André, a Pasta declara que as ações são desenvolvidas por meio do projeto Juntos na Prevenção, no qual são pensadas estratégias específicas por regiões. No momento estamos com três bairros mapeados para inserir o projeto, sendo que dois deles (Clube de Campo e Jardim Carla) já estão em execução. O próximo será Utinga, informou em nota.

Segundo a Secretaria, o projeto facilita o diálogo entre os equipamentos da Saúde e da Educação, fundamentais para o acesso a cuidados preventivos tanto de jovens como de adultos. "A prevenção não pode ser pensada apenas por use camisinha, mas por mudanças culturais de comportamentos, que envolvam não apenas o jovem, mas também as referências e modelos que os adultos oferecem a eles".

Em Diadema, o CR (Centro de Referência) em DST/AIDS e Hepatites Virais desenvolve projeto de formação de adolescentes multiplicadores em prevenção das doenças, há mais de cinco anos, em parceria com a ONG (Organização Não Governamental) Beija Flor, a qual realiza trabalho com crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade.

Em Mauá são realizadas orientações sobre prevenção e uso de preservativo. "Também fazemos ações em colégios, faculdades, Caps (Centro de Atenção Psicossocial) Infantil e Fundação Casa, onde são promovidos palestras e testes rápidos para HIV e sífilis", informa em nota.

Ribeirão Pires possui ações de prevenção realizadas continuamente no Centro de Testagem e Aconselhamento e em outros locais do município, além de manter o 0800-7731661 para dúvidas. As demais cidades não retornaram a equipe de reportagem do Diário do Grande ABC.

"O papel do estado de São Paulo"

O aumento no número de casos de HIV, entre os jovens de 15 a 24 anos, é também uma tendência observada em todo o estado de São Paulo. O ano de 2007 teve 589 novos casos notificados. Em 2015 foram 787, ou seja, um aumento de 30%. A afirmação é da coordenadora do Programa Estadual de DST/Aids de São Paulo, Maria Clara Gianna, para a reportagem da Agência de Notícias da Aids. No entanto, a coordenadora explica que esse aumento acontece entre os jovens gays e HSH (homens que fazem sexo com homens): "Há uma queda no número de casos entre as mulheres e aumento entre os homens. Esse aumento entre os jovens gays e HSH é de 85%, se comparado o ano de 2007 com 2015".

O estado tem articulado junto aos municípios estratégias conjuntas de prevenção, como ampliar o diagnóstico entre os jovens, trabalhar a prevenção combinada, divulgar e discutir a PEP (profilaxia pós-exposição) e continuar investindo na popularização e oferta da camisinha, Segundo Maria Clara. "Quando as pessoas infectadas são diagnosticadas, além de melhorar a sobrevida deste indivíduo, é possível diminuir a circulação do vírus, por meio do tratamento", disse a coordenadora.

"Ter serviços que oferecem a PEP nessas regiões também é muito importante. É fundamental levar informação as escolas e trabalhar a educação com um olhar para a saúde no âmbito dos direitos humanos", continuou. De acordo com a especialista, o aumento no número de casos está relacionado com o crescimento da epidemia entre os jovens gays.  "Tudo isso mostra a necessidade de trabalhar a prevenção combinada com essa população. Cada município atua de maneira diferente, mas nosso trabalho é integrado", concluiu.

Fontes: Diário do Grande ABC e Agência de Notícias da Aids
"Matéria original escrita por Vanessa de Oliveira"

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