Como o HIV, a informação precisa ser viral para disseminar!

O Portal Imprensa recrutou formadores de opinião, youtubers, vloggers, jornalistas, profissionais de saúde e artistas, para viralizar a informação no 4º Fórum Aids e o Brasil, realizado em parceria com o Ministério da Saúde e o UOL e apoio da UNAIDS. Confira alguns dos tópicos debatidos ao longo do painel.

"Mídia precisa ter o papel da desconstrução, diz editor do HuffPost Brasil sobre a Aids"

O segundo bloco do evento, com apresentação da jornalista Marilu Cabañas, focou na "Educação sexual e prevenção na mídia", com os convidados: Rafael Bolacha (Chá dos 5), Sandra Santos (Fundação Poder Jovem), Dayana Dias Carneiro (Projeto Bem-me-quer) e Diego Iraheta (HuffPost Brasil). 

"Responsabilidade"

"Há a responsabilidade da família, a importância do ambiente escolar. Há escolas que, às vezes, não dão abertura para discussão. Alguns professores têm uma luta individual. Muitos me procuram e falam: Quero abordar isso na minha aula, de que forma posso fazer? Às vezes eles estão passando por cima da direção". (Rafael Bolacha)

"O Jairo Bouer foi um grande tutor para mim. Assim como o programa Erótica, da MTV. Vejo a importância da televisão e da internet. Acho que o papel da mídia é de falar com os jovens e as jovens (mulheres), porque são realidades particulares". (Diego Iraheta)

"Sou de família conservadora. Há pais que tem aquela coisa do não pode. Ainda existe isso. Eu trabalho com adolescentes e quando falo em reunião de pais, alguns falam que os filhos vão experimentar a sexualidade, mas não querem admitir isso e nem ter essa abertura de conversar com eles. Sentem que estão incentivando". (Dayana Dias Carneiro)

"Cobertura da mídia"

"Quando lancei o meu livro Uma Vida Positiva, editora Cidade Viva, fui capa de um dos maiores jornais do Rio de Janeiro. A jornalista quis me encontrar, fazer foto. Ficou duas horas conversando comigo. O título da matéria foi O dia que minha vida acabou. Eu estava lançando o livro nesse dia, em 2012. Mandei e-mail para ela, dizendo que aquilo era uma frase mentirosa. A pergunta era: O que você sentiu no primeiro momento que viu exame? Eu falei que nos primeiros dez segundos pensei isso, mas depois mudei meu pensamento. Falei para ela você está acabando com um projeto inteiro. Muita gente quer fazer coisa ao vivo hoje por causa da edição". (Rafael Bolacha)

"Teve uma reportagem chamada Os filhos da Aids. Um dos personagens era um adolescente, ativista e estava na melhor fase da vida dele. Namorando, trabalhando. A reportagem acabou com ele. Ele abriu a vida dele, queria mostrar o que tinha mudado. Isso foi distorcido e mostrou a pior fase. Ele acabou terminando o relacionamento. Foi muito traumático. Com os jovens que iniciávamos o trabalho de aceitação na época também foi muito difícil".

"Não somos filhos da aids, somos fruto de um relacionamento de amor e acabou acontecendo de vir soropositivo. Em contrapartida, o Profissão Repórter fez uma matéria maravilhosa, trouxe muitos jovens para procurar ajuda, conselho. A mídia tem esse poder: de trazer o jovem para a realidade, de querer tirar suas dúvidas". (Sandra Santos)

"Minha melhor entrevista foi com a Marília Gabriela. Foi respeitosa. Hoje não existe mais o programa, mas toda semana vem alguém falar que viu o vídeo na internet. Quando é feito de uma forma boa, vai replicar. A grande mídia ainda tem uma barreira muito grande". (Rafael Bolacha)

"A imprensa tem que ter, além do papel da prevenção, o da desconstrução. O Rafael Bolacha faz muito isso, usa humor para falar de HIV, o que já quebra uma expectativa. É sério, mas pode ser levado com leveza. Quando entrevistamos, em 2015, o Gabriel Estrela, que havia descoberto recentemente que era soropositivo, o título foi Ele é positivo. A ideia é de positividade. Mostra a narrativa dele, de choque primeiro, achar que vai morrer e superar a expectativa". (Diego Iraheta)

"Há um tom de condenação, diz ativista sobre preconceito contra soropositivos"

Atualmente, 827 mil pessoas vivem com HIV/Aids no Brasil. Dessas, cerca de 112 mil não sabem que estão infectadas. "Quase 40 mil novos casos são registrados, por ano, no país", segundo dados do Ministério da Saúde.

O último painel do 4º Fórum Aids e o Brasil, realizado em parceria com o Ministério da Saúde e o UOL e apoio da UNAIDS, debateu a prevenção, preconceito e riscos. Com mediação da jornalista Marilu Cabañas, o bloco contou com a participação de Pierre Freitaz (RNAJVHA), David Schurmann (cineasta), Gustavo Mendes (ator) e Alexandre Magno (Ministério da Saúde).

Para Mendes, o humor é a melhor forma para abordar qualquer assunto. "Sou de uma geração que não perdeu amigos para a Aids. Tenho 28 anos, não vi isso. Até que, de dois anos para cá, morreram quatro amigos meus de pneumonia". Comecei a pensar: não, não pode. Por que morrem de Aids? As pessoas têm vergonha de fazer exame, medo. Qualquer um está sujeito, como vamos falar se temos toda a limitação sexual, o tabu de sexo, da prevenção?

Freitaz concorda que será possível falar sobre DST, HIV e prevenção quando não existir mais tabu. "Fui infectado aos 15 anos. Tenho certeza que se o HIV não entrasse na minha vida, não estaria falando sobre aids hoje. Temos essa questão de se não faz parte de nossa vivência, não falamos sobre. Quando vem informações, são pontuais, algum artista, carnaval, 1 de dezembro. Nada além disso. Temos a dificuldade de trazer a pauta da juventude, não temos referência".

Magno conta que começou a trabalhar com o tema em 1993, menos de 15 anos depois do aparecimento da Aids. Em 1996, surgiu o coquetel que revolucionou o vírus e, em 1997, passou a existir a distribuição gratuita. "Nosso objetivo é retardar, ao máximo, a Aids".

"Apesar do avanço, Freitaz pontua a existência do preconceito. Quando a pessoa se descobre com câncer, há um olhar de cuidado. Com o HIV é você procurou, né. Um tom de condenação".

Para Schurmann, há o conceito de que se a pessoa se infectar, vai tomar remédio e viver. "Claro que existe qualidade de vida, mas, mesmo assim, existe essa segurança de que há remédio pago pelo governo e de que o risco não é tão grande. Precisam entender que a doença pode vir a ter complicações grandes. Esse lado que as pessoas precisam acordar novamente".

"Cinema"

O cineasta David Schurmann falou um pouco sobre seu filme Pequeno Segredo, que conta a história de Kat, filha caçula da família de navegadores catarinenses Schurmann que foi adotada aos cinco anos e morreu aos 13, em 2006, por complicações da Aids. Veja o depoimento do produtor do longa:

Minha mãe disse na época: ela não tem capacidade de entender o que tem. Havia aquele preconceito de chegar perto e não abraçar. Nós sabíamos quais os riscos, tínhamos uma vida normal. A Kat, com 11 anos, tomava os remédios, não crescia, mas, principalmente, por um fator genético. Ela se revoltava, todas as amigas se desenvolveram e ela não.

Se revoltou e encarou a minha mãe, que não havia contado para ninguém, a não ser família e para a diretora da escola. Elas deitaram na cama e minha mãe contou, de uma forma direta. A Kat tinha 11 anos e se apoderou da doença. Pediu para a minha mãe não contar para ninguém. Ela aparecia na tevê sempre e ela queria contar para todo mundo. Infelizmente, faleceu antes. Então, me inspirei em contar o seu legado. O preconceito era enorme, continua sim, mas mudou.

"Na missa de sétimo dia dela, em uma igreja em Ilha Bela (SP), a mãe de uma amiga dela disse para a minha mãe: Se eu soubesse, nunca teria deixado minha filha brincar com a sua. Você vê a ignorância, no sentido de não ter informação".

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