"Preferi lutar e quebrar tabus, diz Marcia Pinheiro de 51 anos, amapaense, mãe de quatro filhos e que vive com HIV há 16 anos"

Por: Fabiana Figueiredo do G1 Amapá

Acordar cedo, cuidar dos filhos, arrumar a casa e sair para trabalhar. A rotina da amapaense Marcia Pinheiro, de 51 anos, não tem nada de diferente, se comparada a de outras mulheres. "No entanto, há 16 anos, ela convive com o HIV, e com todo o preconceito que os portadores do vírus enfrentam". Bem resolvida, ela abriu mão da vida amorosa e diz que optou em ser feliz, ao invés de se tornar vítima da própria condição.

"Hoje, nós mulheres não temos os mesmos direitos que deveríamos ter em relação ao homem. Ainda existe preconceito. Mas também depende do modo como você vê as coisas, eu preferi lutar pelo meu espaço e quebrar tabus, assim a gente chega lá".

Eu sou realizada pelas conquistas que a gente já conseguiu. A minha fé é muito grande. Sou muito feliz e passei a dar mais valor para a vida, para o ser humano, disse Marcia, que é presidente da Associação de Amigas e Mulheres Amapaenses Posithivas (A.Amaph). A amapaense é mãe biológica de um casal, de 32 e 27 anos, mas adotou, após o diagnóstico de HIV, duas meninas, hoje com 18 e 10 anos de idade. "De todos os desafios da vida, Marcia diz que o mais difícil é ver o filhos sofrerem preconceito por terem a mãe soropositiva".

"Os pais dos colegas da Clarinha, que tem 10 anos, já pediram para eu tirar ela da escola porque eles têm medo dos filhos brincarem com ela, pois se acontecer um acidente com corte, ela poderia contaminá-los. Isso é um absurdo, porque ela não é soropositiva, mas o fato dela ser minha filha, já é julgada. Aos 13 anos, meu filho tentou suicídio porque na escola as crianças zombavam dele, lembra emocionada".

A força para combater os preconceitos de ser mulher e portadora do HIV vem do apoio que recebe da família. "Marcia acredita que a história dela é exceção, numa realidade onde o preconceito está fortemente presente dentro de casa".

"Infelizmente o que acontece com os soropositivos é que muitos são abandonados pela família. São coisas que me chocam. As pessoas que deveriam te apoiar, são as primeiras a te excluírem. Se não tem apoio da família, a pessoa desiste, até mesmo de viver, ressalta".

Sobre a vida amorosa, Marcia diz que qualquer relacionamento entre homem e mulher é normalmente complicado, e, "quando se é portadora de um vírus, a convivência é mais frágil". Solteira há dois anos, a vendedora conta que desistiu de encontrar novos parceiros.

"Parece que nós mulheres com HIV/Aids fomos condenadas a não amar ou a ter um parceiro. Eu já tive grandes decepções. 'Eles jogavam na cara que eu era aidética'. Isso me machucou muito, então optei em não me envolver mais com homens. Não namoro, nem beijo na boca. Eu sinto falta, mas transformo esse amor para meus filhos e me sinto feliz assim, descreveu".

Mesmo optando em ficar solteira e não ter mais relações sexuais, Marcia incentiva outras mulheres soropositivas a encontrar um amor, sempre reforçando que elas carregam a responsabilidade de não colocar a vida de outra pessoa em risco ao fazer sexo sem proteção.

"Eu não admito, não aceito as pessoas praticarem o sexo sem camisinha. Eu jamais iria colocar a vida de uma pessoa em risco. Eu sofreria muito se fizesse isso. [...] Têm pessoas que não tomam da nossa água, não comem da nossa comida, não tomam banho de piscina junto com a gente, achando que estão correndo risco, e em compensação, muitos transam sem camisinha por aí. É isso que eu não entendo, argumenta".

Por liderar um movimento de mulheres com HIV, ela também entende que precisa ouvir as outras portadoras do vírus. Sinto que ajudo quando paro para ouvi-las. Eu sou como uma psicóloga, que ouve os desabafos, as angústias. "A gente tem que passar amor para o nosso próximo, independentemente de ser homem ou mulher. As pessoas precisam ter mais amor no coração, se colocar no lugar do outro", reforça. Na associação, Marcia ajuda os pacientes a conseguirem tratamento, consultas médicas e remédios, além de buscar identidade de garimpeiros deportados da Guiana Francesa que foram contaminados com o HIV e perderam os documentos.

Marcia descobriu ser soropositiva há 16 anos, quando estava separada do primeiro marido e iniciava um novo relacionamento. À época, com 35 anos, ela morava em São Paulo e não tinha parceiro fixo, por isso não sabe por quem foi contaminada. "Quando descobri, meu mundo desabou. Achei que ia morrer. Meu medo era morrer longe da minha família. Aquilo me apavorou. Meu desespero foi grande que eu vim embora de São Paulo para Macapá", conta. Após iniciar o tratamento no Amapá, ela começou a militar pelos direitos dos soropositivos no estado. Em 2003, resolveu fundar a Associação de Amigas e Mulheres Posithivas e, desde então, faz palestras em instituições e escolas sobre o assunto.

"Muitos agem como se o vírus nos diferenciasse dos outros seres humanos. [...] Somos muito julgados e condenados. Se uma pessoa tem câncer, todo mundo acolhe. Se a pessoa tem HIV, todo mundo quer distância, disse".

Um comentário :

NEURI disse...

É falta muito conhecimento por parte das pessoas que sabem apontar,condenar e julgar, + têm tremenda dificuldade em acolher, entender e apoiar....Morrer todo mundo vai, com ou sem doença,agora penso que enquanto ditos seres humanos o mínimo que podemos fazer é tentar tornar o fardo dos outros um pouco + leve! Pesquisar mais, conhecer a doença e exercer a alteridade!!!!