"Vergonha e estigma retardam diagnósticos e geram mais mulheres vítimas do HIV"


POR: FABIANA PINTO

(Carioca, escritora e comunicadora. Estuda Saúde Coletiva na Universidade Federal do Rio de Janeiro e colabora para portais como Revista Capitolina, Alma Preta e Rede Comum. Tenta em suas escritas e pesquisas associar temáticas de gênero, raça, saúde e educação. Acredita no potencial dos comunicadores como agentes de mudança social em nosso país).

Silenciamento e opressão, quando pensamos em mulheres, são males que atingem as mais diversas esferas de nossas vidas. Seja mudando de calçada para não passar em frente a um bar, ou não emitindo uma opinião durante uma reunião por medo de não ser levada a sério, somos constantemente silenciadas nos mais diversos espaços da nossa vida. Para além dos danos à nossa saúde mental, que essas "pequenas" opressões diárias podem causar, muitas vezes o medo que nos acompanha acaba por agravar também quadros de nossa saúde física. "Esse é o caso por exemplo de mulheres portadoras de HIV/AIDS".

Após muitas discussões e leituras a respeito de transmissão de doenças sexualmente transmissíveis (DST) e seus determinantes sociais, uma coisa parece ser comum em todos os casos, "as pessoas têm medo de saber". Há alguns anos, o governo do estado do Rio de Janeiro lançou uma campanha em que dizia "Faça o teste" e "Descubra e comece o tratamento o quanto antes". Esse esforço para que a população se dirija às unidades de saúde e saibam se são portadoras ou não de HIV, é compreensível e de fato, necessário. "O medo de descobrir, e não poder mais ignorar aquela situação, faz com que os diagnósticos demorem meses para acontecer, mesmo que a pessoa em questão tenha suspeitas, mas não apresente nenhum sintoma".

Devido a associação da AIDS com comportamento sexual promíscuo ou imoralidade em nossa sociedade, mulheres sofrem ainda mais, uma vez que demoram a buscar unidades de saúde para seu tratamento, "fazendo com que muitas vezes aconteça a transmissão vertical da doença, ou seja, que a mãe transmita para seu bebê durante a gestação e, a mesma só venha a descobrir sua condição de saúde durante a realização dos primeiros exames de pré-natal". A questão dos modelos de relações heterossexuais também precisa ser pautado na discussão da prevenção às DST e em especial, na prevenção do HIV no país, já que:

"A cada dia mais mulheres que mantém relações (teoricamente) monogâmicas são infectadas. O medo da doença transmitida pelo parceiro, condiciona o comportamento de mulheres e as mantém assim, em silêncio a respeito de suas dúvidas em relação à sua própria saúde, já que as mesmas não querem duvidar da fidelidade do parceiro e ao mesmo tempo, têm medo de pôr a relação estável em risco, com um confrontamento a respeito da saúde sexual do casal".

É importante sabermos também que, estar infectado, diferentemente do que era por exemplo na década de 1970 e 1980, "não significa o fim da vida social de ninguém". Se informar é necessário já que, "a cada dia mais medicamentos e novas formas de prevenção e tratamento estão sendo desenvolvidas, como é o caso por exemplo da profilaxia pré-exposição (PREP), além de métodos como o uso do preservativo que, segue sendo o mais eficiente".

"No contexto atual de avanço da epidemia, outro aspecto a ser considerado são as novas possibilidades de recursos biomédicos de prevenção do HIV. A infecção pelo HIV tornou-se administrável, mesmo não devendo se ignorar os efeitos colaterais decorrentes do tratamento (Parker, 2015)".

A política também tem grande papel na promoção de saúde, já que é através da cooperação entre órgãos que a grande camada da população e de mulheres poderão ser atingidas. O que vivemos atualmente em nosso país no entanto, é um grande retrocesso no que diz respeito a políticas públicas de promoção de saúde e prevenção a HIV/AIDS. Os que viveram sua juventude nas décadas passadas certamente se lembram de propagandas mais incisivas na prevenção da AIDS se comparadas aos últimos anos. Em grande parte, o retrocesso de políticas públicas no controle e prevenção do HIV/AIDS no Brasil se deve ao avanço do congresso conservador nos últimos anos e que permanecerá até 2019. "Esse retrocesso vem acertando exatamente quem mais precisa, homens gays e mulheres com pouca instrução".

O diálogo é importante principalmente para disseminação de informação. Vale lembrar por exemplo, o caso das campanhas de vacinação contra HPV em 2014 para meninas adolescentes, onde em diversos momentos víamos campanhas de setores conservadores da sociedade civil tentando deslegitimar ou, passar falsas informações a respeito da vacinação de adolescentes que iriam começar ou, já estavam começando a vida sexual. Alguns acontecimentos políticos mais recentes também nos demonstram o perigo que representa o avanço de questões morais e religiosas em discussões de saúde pública, principalmente para as populações mais vulneráveis, como a feminina.

Em ordem cronológica, em 2011, houve a proibição por parte da circulação na rede pública de educação de kits com vídeos educativos sobre diversidade sexual; em 2012, uma campanha em vídeo de prevenção ao HIV voltada em especial para os homens gays durante o carnaval foi censurada pelo ministério da Saúde e, em 2013, uma campanha também de prevenção de HIV voltada para prostitutas foi censurada pelo congresso, fazendo com que o diretor do Departamento de HIV, AIDS e Hepatites Virais pedisse exoneração do cargo.

Pode-se dizer assim que o diálogo e campanhas que estimulem o empoderamento feminino seja o melhor caminho para reverter esse quadro que vivemos atualmente. É preciso que mulheres se empoderem quanto aos seus corpos e consequentemente sua saúde, física e mental.

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