"O DESAFIO DE ENVELHECER COM O VÍRUS HIV: O tratamento reduz a carga viral, garante a longevidade aos pacientes, mas impõe a convivência com efeitos colaterais que ainda desafiam médicos"


Quando recebeu o diagnóstico de HIV no final dos anos 80, Rosemari, de 62 anos, foi avisada que, em condições favoráveis de saúde, "poderia viver por no máximo mais cinco anos". Contrariando as expectativas dos médicos que a atenderam na época, porém, "ela continua viva 31 anos depois do fatídico dia em que compartilhou uma seringa para uso de drogas com a turma de amigos de uma prima e acabou contaminada pelo vírus".

Como muitas pessoas que vivem há muito tempo com HIV, Rosemari sobreviveu à epidemia de Aids que se espalhou pelo mundo na década de 1980, "mas agora começa a apresentar consequências da doença inerentes ao início da velhice". A reação desta e de outros portadores aos longos anos de tratamento impõem um novo desafio aos profissionais de saúde que atendem essa população.

"Cada vez mais, é preciso conciliar o tratamento para controle da carga viral com outras doenças inerentes à idade e as próprias sequelas do tratamento".

Rosemari mora no Recanto Amigo, uma casa de apoio de Jaguapitã (Região Metropolitana de Londrina). A unidade abriga 62 pacientes que não mantêm vínculos familiares, sendo 58 deles portadores de HIV.

As dificuldades sobre envelhecer com HIV foram tema de uma das mesas redondas do 1º Congresso Paranaense de Infectologia, realizado recentemente em Londrina. "Até pouco tempo, as crianças com HIV não viviam e os jovens não envelheciam", aponta o médico José Ricardo Dias, de Maringá (Noroeste), um dos palestrantes do evento.

"Hoje, ao contrário, já são 8 milhões de pessoas vivendo com HIV no mundo e, até 2030, há uma estimativa de que 60% dos pacientes tenham mais de 60 anos, conforme dados divulgados pelo pesquisador".

O Ministério da Saúde informa que 827 mil pessoas vivem com HIV e Aids no Brasil e que, em 20 anos, a queda de mortalidade caiu 42,3%. O incentivo ao diagnóstico e ao início precoce do tratamento, antes mesmo do surgimento dos primeiros sintomas da doença, refletiram na redução dessas mortes. A taxa caiu de 9,7 óbitos por 100 mil habitantes, em 1995, para 5,6 óbitos por 100 mil habitantes em 2015. A epidemia no Brasil tem uma taxa de detecção em torno de 19,1 casos a cada 100 mil habitantes. "Isso representa cerca de 41,1 mil casos novos ao ano". Entre todas as pessoas convivendo com HIV e Aids no Brasil, "372 mil ainda não estão em tratamento, e, destas, 260 mil já sabem que estão infectadas. Além disso, 112 mil pessoas que vivem com HIV não sabem".

"O envelhecimento, segundo Dias,provoca o aparecimento mais precoce de osteopatias, doenças cardiovasculares, nefropatias, doenças reumatológicas e uma frequência maior de doenças psiquiátricas, além de doenças sexualmente transmissíveis e neoplasias".

Os pacientes acabam tendo que tomar outros remédios além dos indicados para controle do HIV. A qualidade de vida nesta fase extrapola o desafio de manter a carga viral indetectável, diz". Uma das possibilidades para garantir sobrevida com qualidade "é individualizar o tratamento, oferecendo combinações com menos efeitos colaterais". O médico tem que ficar muito atento às queixas dos pacientes, considerar a história de vida e a condição social. "Ninguém orienta pacientes com mais de 50 anos sobre sexualidade, por exemplo, apesar dessa faixa etária ter uma baixa adesão ao sexo seguro, alerta".

Para Dias, o segredo é que os profissionais de saúde tenham uma visão holística sobre cada paciente, para administrar melhor as comorbidades e interações medicamentosas. "Com o envelhecimento, os pacientes precisam não apenas do infectologista, mas também de cardiologista, endocrinologista, nutricionista e outras especialidades. O médico tem que enxergá-lo de forma geral e não só o HIV". No Centro de Testagem e Aconselhamento (CTA) de Londrina, o enfermeiro Edvilson Cristiano Lentine acompanha a rotina de pacientes que, ao longo de anos usando o chamado coquetel anti-HIV, apresentam diferentes efeitos colaterais:

"Alterações cardíacas, renais, no fígado ou no pâncreas não são incomuns, assim como colesterol alto, alterações de metabolismo, pressão alta, depressão, alterações corporais decorrentes de perda de massa ou acúmulo de gordura, disfunção sexual e até alguns tipos de cânceres".

O protocolo do Ministério da Saúde impõe a realização de exames anuais para identificar e tratar as possíveis comorbidades que apareçam, tanto em função do tratamento para o HIV como pelo avanço da idade. "O protocolo é o mesmo para adolescentes a partir de 12 anos e adultos, não há recomendação especial para os mais velhos", explica. O uso dos chamados antirretrovirais é o básico, mas Lentine explica que, diante das reações, é possível individualizar. Ele esclarece também que os novos medicamentos que surgem no mercado, via de regra, são receitados para novos pacientes. "Os médicos não costumam mexer nos esquemas que já estão funcionando. Se a carga viral está indetectável, não justifica mudar de medicamento. Cabe ao médico avaliar os riscos possíveis", diz, lembrando que:

"Em relação aos novos medicamentos, não é possível avaliar todas as consequências que podem gerar no futuro".

Entre os pacientes que ele acompanha e que estão há muitos anos em tratamento, a maior queixa é que eles se cansam da doença. "Tem que tomar remédio todo dia e lidar com as reações, o que não é fácil. Além disso, ainda precisam enfrentar a maior dor, que é o preconceito", lamenta. O enfermeiro destaca que as pessoas vivendo com HIV e Aids precisam entender que, mesmo com o vírus indetectável, não podem abrir mão do uso do preservativo. "Além do risco de se contaminarem por outras Infecções Sexualmente Transmissíveis (IST), podem entrar em contato com outros subtipos do próprio HIV, o que também pode elevar a carga viral e colocar o tratamento em risco", alerta.

O educador social Paulo Wesley Faccio, membro voluntário da Associação Londrinense Interdisciplinar de Aids (Alia), acompanha a rotina de pessoas que convivem há anos com o HIV e observa que o envelhecimento é um desafio:

"Os medicamentos são potentes na supressão viral, mas os efeitos colaterais provocam problemas renais, afetam as cartilagens das rótulas e causam osteoporose. Envelhecer com HIV é complexo, considera".

O militante observa que falta aparelhamento do sistema de saúde para lidar com essa nova realidade. Segundo ele, apesar dos portadores de HIV possuírem especificidades inerentes à doença, quando manifestam as chamadas comorbidades são encaminhados para a fila de espera "comum" do SUS, mesmo com o risco de outras doenças aparecerem rapidamente, aumentando inclusive o custo do tratamento. "Não tem um programa específico para os mais velhos", lamenta. "Ele conhece histórias de pessoas que esperarem por mais de três anos por uma cirurgia de hérnia, por exemplo, além de gente com risco de infarto que espera por mais de um ano na fila da cardiologia".

A reportagem da FOLHA DE LONDRINA entrou em contato várias vezes com o Ministério da Saúde para saber sobre a possibilidade de implementação de atendimento específico para pessoas vivendo há muito tempo com HIV e Aids, "mas não obteve retorno".

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