APESAR DOS TRATAMENTOS EFICAZES PARA COMBATER A INFECÇÃO PELO HIV, A EPIDEMIA DE AIDS NÃO É COISA DO PASSADO E AINDA NÃO ACABOU!

"Hoje, das 3 milhões de crianças que convivem com o HIV no mundo, somente 900 mil têm acesso aos medicamentos, cerca de 38 milhões de pessoas vivem com HIV, e por volta de 18 milhões estão em tratamento. Agora, tem um grande número de pessoas que não têm conhecimento do seu status, ou seja, 40% das pessoas que vivem com HIV não sabem que têm o vírus".

O médico brasileiro Luiz Loures, um dos pioneiros no tratamento da Aids no Brasil e Diretor Adjunto da Agência das Nações Unidas para a Aids (Unaids), afirma que os avanços científicos não bastam para acabar com a epidemia, é preciso levar o teste a todos. Ele alerta ainda para o alto índice de recorrência de infecções entre os jovens. A AIDS NÃO É COISA DO PASSADO!

Na opinião de Luiz, a cura provavelmente vai vir antes de uma vacina e, hoje, "uma pessoa que faz o tratamento corretamente", tem uma expectativa de vida normal, tem uma inserção social, familiar e pessoal da mesma forma". Cada vez mais temos disponibilidade de tecnologias, de tratamentos, que vão ter um impacto muito grande na qualidade da vida da "pessoa tratada".

O que está se tornando uma realidade hoje? Ao invés de uma pessoa com HIV tomar uma droga todos os dias, "num futuro muito próximo eu espero que esteja disponível um injeção a cada três meses, sem ter esse incômodo do tratamento que é a adesão diária às drogas". Então, existe progresso e eu tenho uma expectativa muito positiva que vamos chegar à cura. Porém, somente a ciência não resolve: "A questão central hoje é garantir que todos, independente de onde vivem, tenham acesso sem discriminação a essa ciência". Leia abaixo a entrevista que Luiz Loures concedeu aos sites: A Criatura e Rádio Vaticano:

Muitos adolescentes de hoje pensam que a Aids é coisa do passado!

Luiz Loures: Não é. Apesar de termos as ferramentas para tratar e para levar essa epidemia ao fim, ainda não acabou!

O que nós observamos no mundo é que existe uma tendência de recorrência da Aids principalmente entre pessoas mais jovens. Isso está claramente ligado a esta percepção que Aids não é importante: uma baixa da guarda, uma baixa do ponto de vista da prevenção em relação ao HIV. Este talvez seja o desafio mais importante hoje: "o que eu chamo de fechar a lacuna de geração".

Minha geração viu uma epidemia que a geração mais jovem não vê mais, felizmente. "Mas a consequência disso é que existe também uma percepção incorreta de que a Aids já acabou". Vamos acabar! Mas para isso precisamos sem duvida de um engajamento total da população mais jovem em prevenção, tratamento e teste, principalmente! O chamado principal para um jovem hoje: "faça o teste". É muito importante conhecer o seu estado.

"Se negativo, que se mantenha negativo, continue utilizando todas as opções de prevenção. Se positivo, vai ter uma vida normal com o tratamento disponível. Mas faça o teste: isso ajuda muito a uma tomada de posição do jovem em relação à epidemia da Aids".

Acabar com a Aids até 2030 é meta do UNAIDS. Até lá, a prevenção e o tratamento vão evitar que 28 milhões de pessoas e quase seis milhões de crianças sejam infectadas pelo vírus HIV. Qual o maior desafio?

Luiz Loures: É a complacência. "É a percepção de que a Aids acabou". A complacência leva a menos interesse político, a menos recursos financeiros, a menos mobilização da sociedade. Esse é o maior desafio, sem nenhuma dúvida.

E como se dá essa complacência?

Luiz Loures: É a posição da sociedade hoje "de achar que a Aids não existe mais. De que o problema está resolvido porque você tem tratamento".

Para poder reverter essa situação temos que retomar a mobilização social, todos têm que entender que uma pessoa que contraiu o HIV, "se começa a se tratar cedo, vai ter a mesma expectativa de vida de alguém que não tem o vírus". Não tenha dúvida. "O tratamento possibilita que as pessoas voltem ao trabalho, as famílias sejam reconstituídas, as crianças voltem à escola. É um grande progresso, mas não significa que a epidemia acabou".

Então o primeiro passo é esse, um novo entendimento. Nós temos agora que usar o progresso para ir até o fim da epidemia. Há um paradoxo: "as pessoas com o vírus estão vivendo mais, mas ao mesmo tempo observamos crescimento nas novas infecções pelo HIV. Principalmente entre os grupos vulneráveis". Essa contradição tem que ser resolvida para que a gente avance.

Acredita que os jovens, por não terem vivido o drama dessa geração, encaram o tema com descaso?

Luiz Loures: Sem dúvida há o que em inglês chamamos de "generation gap". Uma geração que viu a Aids no seu começo e viveu o seu momento mais dramático, mais duro, e as gerações que vieram depois. Essa diferença existe do ponto de vista do conhecimento, e principalmente em relação à percepção do risco. Existiu um momento na história da Aids em que os jornais, a televisão, as headlines, eram sobre o impacto da Aids em personalidades, indivíduos e sociedades. "Felizmente esse não é mais o caso. Mas isso tem levado a uma percepção de risco que não é correta. Principalmente a turma mais jovem pensa que acabou. O que não é real".

O vírus da Aids continua atuando, tomando qualquer oportunidade para ser transmitido. "Baixou a guarda em relação ao contato sexual, ao uso de drogas. O resultado é o HIV. E tem alguns fatores que complicam mais, como a violência doméstica, situações onde a mulher tem menos controle em relação ao seu corpo e à relação sexual".

Qual a sua missão nessa batalha?

Luiz Loures: Minha responsabilidade nas Nações Unidas é a coordenação internacional da resposta à epidemia de Aids. Levar informação correta sobre o que acontece, mas fundamentalmente trabalhar para mudar esse panorama com os governos, a sociedade civil, com o setor privado e com as pessoas afetadas para que a gente construa um novo pacto. "Um pacto que foque no risco permanente da infecção pelo HIV, e ao mesmo tempo garanta que o acesso ao tratamento é igual para todos".

Muitas hipóteses foram formuladas sobre a origem do HIV. Qual é a mais plausível?

Luiz Loures: Tem um monte de estudos e análises retrospectivas e mais históricas com relação à epidemia. Algumas coisas parecem que são certas. Aonde começou, provavelmente no continente africano. Existem algumas hipóteses da relação, transmissão animal-humano, dos macacos. Tem evidências nesse sentido. Mas a realidade é que se tornou muito rapidamente uma epidemia global, uma pandemia. E a questão da origem passa a ser só uma questão de interesse histórico.

É mais importante focalizar na realidade atual. "Não me preocupa mais a questão da origem, mas sim chegar ao fim da epidemia. Não esperava que isso acontecesse durante a minha carreira: ver o começo e agora estar discutindo que é possível chegar ao fim. Isso é fascinante".

O senhor já disse que a África, uma das regiões mais afetadas, pode surpreender, e trazer, de alguma forma, a solução para a epidemia. Mas é um continente tão pobre e sem recursos. Como isso se daria?

Luiz Loures: A esperança hoje vem do continente africano, onde está a maior parte das pessoas em tratamento. "Um país como a África do Sul, que continua sendo o mais afetado, trata mais gente do que qualquer outro país no mundo, quase 4 milhões de pessoas". Com isso, a experiência, o conhecimento e a mobilização social é mais forte nos países africanos. E mais do que isso, a África está nos dando o caminho para chegar ao fim da epidemia. Do ponto de vista da disponibilidade de recursos, são países pobres e alguns considerados de médio ingresso, mas que também têm seus problemas econômicos. Então, é claro que a solidariedade internacional é fundamental. "A África vai nos levar ao fim desta epidemia desde que a solidariedade exista".

O Brasil tem um papel histórico. Foi o primeiro país a tratar pacientes com a HIV fora os países desenvolvidos, mais ricos. O Brasil foi o país, em muitos aspectos, que mudou a resposta à epidemia. Foi o primeiro país do sul que tomou uma decisão política, econômica e social de responder à epidemia como é necessário. E muitos países no continente africano seguiram esse caminho.

Quantas pessoas convivem com o vírus da HIV atualmente no mundo e quantas convivem já com a doença desenvolvida?

Luiz Loures: Cerca de 38 milhões convivem hoje com o HIV, e por volta de 18 milhões estão em tratamento. "Agora, tem um grande número de pessoas que não têm conhecimento do seu status, ou seja, 40% das pessoas que vivem com o HIV não sabem que têm o vírus". Mas hoje essa diferenciação entre quem tem o vírus ou a doença importa menos que no passado. "Porque antes tratávamos só gente que estava com a doença mais avançada".

Hoje tratamos qualquer pessoa que tenha o HIV. Parte do desafio é colocar mais 20 milhões de pessoas em tratamento. Tenho que tratar todo mundo, mas existem essas pessoas que não têm conhecimento da sua situação. E isso é superimportante principalmente em relação aos jovens. "Se submeter ao teste da Aids hoje pode fazer uma diferença fundamental entre ter uma vida normal, se a pessoa tem o HIV, ou não. Direitos humanos não podem ser submetidos à moral e à cultura".

Mundialmente, a epidemia fez quantas vítimas desde que tomamos consciência dela nos anos 1980/90?

Luiz Loures: Quase 40 milhões. Isso é um número brutal!

De acordo com o UNAIDS, até 2015, 36 países barravam a entrada ou permanência em seu território de pessoas vivendo com HIV. Aqui na América do Sul, apenas o Paraguai. Apesar de toda informação que existe hoje, a que se deve essa postura?

Luiz Loures: Não existe nenhuma razão científica, sem dúvida nenhuma. Em alguns países, acho que seja a desinformação. "Mas, em grande parte, o problema é simples: discriminação".

Por que o estigma ainda existe, apesar do comprovado conhecimento científico sobre os meios de contração doença?

Luiz Loures: A partir do momento que temos o tratamento, além da complacência, a discriminação e o estima passam a ser o problema mais importante que temos para avançar. "Porque isso faz com que as pessoas discriminadas não procurem os serviços de saúde, faz com que haja menos aderência à prevenção e vivam com medo. A discriminação leva ao medo. E medo não ajuda do ponto de vista de saúde pública. A pessoa com medo não participa".

E a questão de acesso à prevenção, ao tratamento para o HIV "é um direito humano". Independente de orientação sexual, independente de tipo de trabalho, se é uma trabalhadora sexual ou não, independente se usa droga ou não, é um direito humano. "Todos devem ter acesso da mesma forma. E direitos humanos não podem ser submetidos à moral e à cultura. Essa é a realidade". Nesse momento conto mais com a vacina social. Com a mobilização da sociedade para ir à frente. Independente de ter uma vacina biológica.

Quando atuava como médico, o que mais tocou o senhor ao tratar de pessoas com a doença?

Luiz Loures: Muitas vezes tive que ficar no hospital à noite, depois do meu período de trabalho porque não conseguia passar meus casos. Houve uma época que, mesmo dentro do serviço de saúde, o medo era predominante. "O que mais me marcou foi o medo da epidemia".

 A erradicação da doença depende da descoberta de uma vacina. O senhor é um otimista?

Luiz Loures: Sou realista. A pesquisa continua, mas infelizmente acho que não tem os fundos necessários, teria que ter mais investimento na busca da vacina. "Nesse momento conto mais com a vacina social. Com a mobilização da sociedade para ir à frente. Independente de ter uma vacina biológica, é possível avançar numa resposta e levar essa epidemia ao fim, mesmo que não exista uma vacina".

Fontes/Links: A Criatura - Rádio Vaticano

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