Mães e Aids: tempos difíceis, precisamos avançar!

Autora: Jenice Pizão (foto)
(Ativista e fundadora do Movimento Nacional das Cidadãs Posithivas)

Antes de iniciar este texto, é necessário fazer uma retrospectiva para lembrar que nada nos foi dado gratuitamente, sempre contribuímos para que as condições de atendimento às pessoas vivendo com HIV/Aids se tornassem minimamente satisfatórias. A escalada da epidemia de Aids no Brasil começa na década de 80, entre os homens gays, profissionais do sexo, usuários de drogas injetáveis e daí descobriram que, obviamente, as mulheres e crianças poderiam também se infectar.

Nós, mulheres soropositivas participamos dessa luta desde seu início, nos Gapas, Pella Vidas, na Rede Paulista de Mulheres, na RNP+ (Rede Nacional de Pessoas Vivendo com HIV/Aids), sempre batalhando por espaços próprios, depois com os projetos específicos para mulheres, com o Movimento Nacional de Cidadãs Posithivas e, atualmente, tendo representações nos espaços específicos, que nem sempre tem olhos para ver a realidade, mas isso é outra conversa.

Em 1999, num encontro de mulheres na Colômbia, surgiu o Movimento Latino-americano e Caribenho de Mulheres Positiva, já identificando a vulnerabilidade das mulheres e crianças do nosso imenso e explorado continente frente a epidemia de Aids que se alastrava, principalmente nesta população, enfraquecidas pelas desigualdades econômicas e de gênero.

No início dos anos 2000, oito mulheres que viviam com HIV, algumas ativistas, outras nem tanto, como o apoio do Programa Nacional de DST/Aids, pensaram, escreveram e coordenaram o projeto Cidadã Posithiva, para melhorar a prevenção, estimular o ativismo, discutir as dificuldades na prevenção, atendimento e tratamento para mulheres, homens, crianças e jovens.  A necessidade de reduzir o preconceito dentro dos serviços de saúde, de realizar um pré-natal minimamente de qualidade para reduzir a transmissão vertical do HIV (de mãe para filho), os efeitos colaterais dos antirretrovirais, como a lipodistrofia em nossos corpos, só quem vivia com HIV conseguia enxergar, de discutir a discriminação nas escolas, a prevenção para jovens e adultos com mais de 50 anos, a distribuição dos preservativos masculinos e femininos, enfim dar visibilidade as questões da epidemia em nossa sociedade, eram grandes desafios que precisavam de soluções.

Em 2004, fundamos o Movimento Nacional das Cidadãs Posithivas, enquanto movimento autônomo. Escrevemos livros, como Cidadã Posithiva e Flores Vermelhas, contando a história dos 13 anos do movimento.  E assim, outros projetos foram surgindo como “As Mulheres do Cerrado”, “As Mandacarus”, o “Saber para Reagir”, fundamos a “Comunidade de Mulheres + de Língua Portuguesa”, e por aí fomos contando os “causos”, partilhando as histórias  de  vida de cada uma de nós, mulheres com HIV/Aids. Com essa luta demos voz e empoderamos outras mulheres soropositivas por esse Brasil.

“Sem perder de vista as histórias que poderiam ajudar a construir politicas públicas de saúde, moradia e lazer para tornar melhor a vida das pessoas, independente de sua orientação sexual, da cor da pele, da religião, do tipo de família, do lugar onde mora, mas sempre com ética, beleza e ousadia, nossa melhor marca”.

Agora, leio e tento entender os dados do último Boletim Epidemiológico do Ministério da Saúde. “Apuraram as estatísticas e os números saltam quando olhamos com atenção”. No âmbito da América Latina, o Brasil responde por 40% das novas infecções, embora lento, tivemos um acréscimo de 4%. Em todo país, a mortalidade reduziu 5%, mas ainda temos 15 mil mortes/ano, com crescimento de 78%, em 2015, e no norte dos país, 56%, principalmente na faixa etária de 15 a 19 anos e mais 50 anos, tendo as mulheres negras um acréscimo de 15% no ultimo ano. Nos últimos 10 anos, há redução gradual de novas infecções entre as mulheres, porém, com grande aumento quando se observa a faixa etária de 15 a 19 anos (13%) e entre mulheres com mais de 60 anos (25%). Isto é, ¼ de mulheres com mais de 60 anos podem ter se infectado, sem falar das mais jovens, em plena vida produtiva.

A partir de 2010, tivemos aumento de gestantes soropositivas, principalmente em regiões com mais acesso ao pré-natal. Quanto aos dados de transmissão vertical, tivemos queda de 40% entre 2006 e 2016, porém, quando observei a tabela de categoria de exposição para menores de 13 anos, pasmem, 93% vem de transmissão vertical. Alguma coisa está errada.

A prevenção ao HIV/Aids no Brasil foi modernizada, temos uma mandala linda com diversos métodos de prevenção combinada como a PrEP (profilaxia pré-exposição), PEP (profilaxia pós-exposição), além dos preservativos masculinos e femininos,  testagem, disponibilização dos tratamentos para DST, HIV e hepatites virais e redução de danos.

Penso na demora e dificuldades das gestantes no pré-natal e na hora do parto. Penso também nos custos e efeitos dos antirretrovirais para quem ainda nem é portador do HIV e faz uso de PEP e PrEP. Deixando a hipocrisia de lado, imagino que seria menos oneroso para o país e para as pessoas se tivéssemos um projeto eficaz de prevenção nas escolas, universidades e locais da 3ª idade, campanhas constantes durante o ano, acessadas em espaços de grande circulação de pessoas. Tão mais simples!

“Escuto o discurso de que as estatísticas melhoraram, que aumentaram os métodos de prevenção,  e que se aparecem maior número de pessoas infectadas é porque melhorou o acesso a testagem...”

“Segundo Jacques Prévert, poeta francês, A vida é uma doença mortal e sexualmente transmissível. No entanto, não consigo compreender os números, pois são pessoas que poderiam ter seu sofrimento evitado ou diminuído e, com isso, empobrecemos ainda mais esse vilipendiado Brasil. Sem dúvidas, vivemos tempos difíceis”.

“Artigo originalmente publicado no site da Agência de Notícias da Aids”

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