VIVO COM HIV DESDE 1997

O resultado positivo/reagente do teste de HIV, "é um diagnóstico médico", não de caráter!
Nasci no dia 01 de Outubro de 1958 e na mesma data, só que no ano de 1997 passei a  con-VIVER com um inimigo íntimo que atende pelo nome de HIV. Essa coincidência de datas não me trás nenhum sentimento de inconformismo, tristeza ou tragédia pessoal, até porque esses dois fatos marcantes me fazem um privilegiado. Sim, privilegiado, pois posso comemorar dois aniversários, um de nascimento e outro de renascimento.

Propositadamente coloquei o 'renascimento' nessa prosa exatamente para contrariar as falas apocalípticas daqueles que insistem, ainda hoje, no erro de definir o diagnóstico de HIV+ como sentença de morte como se ainda estivéssemos nos anos iniciais da epidemia.
"Não...não estamos mais naqueles anos e atualmente com os avanços no tratamento o portador tem a chance de seguir com sua vida praticamente de maneira normal, se optar em fazer o tratamento corretamente".
Sim, os efeitos colaterais existem. Mas ao contrário do vírus, esses efeitos, 'caso ocorram', podem ser amenizados e curados e, inclusive podem ser evitados com ações preventivas feitas pelo portador sempre com orientação do seu médico infectologista. Lembro ainda que, 'todo remédio', do mais simples ao mais complexo, causa efeitos colaterais. Já os efeitos colaterais da infecção pelo HIV são irreversíveis e incuráveis, 'caso o portador opte em não fazer o tratamento'.
Eu enquanto portador, tomo remédios para lutar pelo direito, pela escolha de seguir vivendo. Já algumas pessoas, que não convivem com o vírus e se entopem de remédios, os tomam para suportar viver!
No meu conceito, 'a vida, ou melhor, o seguimento dela é o mais importante efeito colateral causado pelo tratamento', e eu posso sim fazer esta afirmação pois senti e sinto na própria pele e na prática esta realidade.

Finalizando e enquadrando os terroristas sociais: nenhum ser humano é uma 'mortadela' que tem prazo de validade. No máximo podemos até ganhar o apelido de 'presunto', mas somente após o ultimo suspiro. Inclusive quero sugerir aos terroristas que estudem, pesquisem um pouco mais antes de dizer bobagens. Estudando, pesquisando e principalmente se informando corretamente com quem tem conhecimento real sobre o assunto, com certeza irão ficar surpresos ao constatar que:
'A pessoa que vive com HIV e que se trata corretamente, além de ter sua expectativa de vida semelhante as daquelas que não são portadoras, também não transmitem o vírus. Estes fatos não fazem parte da teoria do ouvi dizer, são constatações comprovadas cientificamente'.
Algumas pessoas me perguntam como consigo falar de HIV com naturalidade, algumas até duvidam disso. Mas sinceramente, este intrometido nunca me amedrontou, até porque se alojou na minha 'casa' com a minha permissão, pois apesar de saber de sua existência e de como evita-lo, não tomei as atitudes necessárias para tanto. Porém, não responsabilizo ninguém pela 'minha' contaminação, não me considero vítima, culpado e nem mesmo um injustiçado. Apenas e tão somente sou um ser 'sexuado' que não soube controlar seus impulsos 'humanos', e nunca sofri de hipocrisia crônica.
'Aos HIPÓCRITAMENTE CORRETOS eu deixo um recado: Antes de apontar seus dedos para acusar, julgar e condenar os outros olhe-se no espelho. Incluindo o retrovisor'.
O mais importante é que enxergo e trato o HIV como acho que devo, ou seja, um vírus como qualquer outro e milhões de vezes inferior a 'vida'. Como a minha 'intimidade' com este insuportavelzinho, foi firmada através de sexo sem proteção e, como falo de sexo com total naturalidade também, seria hipocrisia minha tratá-lo de maneira diferente. Pois, que eu saiba todos nós somos seres 'sexuados' e não aterrissamos por aqui trazidos pela cegonha. Alguns poucos (raros) até podem dizer que foram 'provetados', mas mesmo assim a 'matéria prima' para encher o tubinho e fertilizar o óvulo, não foi produzida pela ave pernalta.

Eu também não tenho nenhum tipo de temor quanto as opiniões alheias sobre o fato de ser portador e nem sinto necessidade de 'me esconder', pois não sou um criminoso.

É claro que não uso uma placa pendurada no pescoço dizendo...'eu tenho HIV'...mas também não tenho nenhum constrangimento em dizer que tenho. Até porque esse constrangimento faz parte do conceito do 'outro', não do meu.

Desde que me conheço por gente, priorizei sempre a minha consciência e a censura alheia não me incomoda nem um pouco, tipo assim:

O que os outros pensam ou vão pensar me afeta em que?
Que importância tem a opinião alheia para mim?
Quem, além de mim mesmo, sabe exatamente o que sou, como sou e quem sou?
Quem tem o direito de me julgar?
Quem é dono da razão e da verdade?
Quem é assexuado?
Quem pratica sexo sem proteção somente para procriar?
Quem foi, é, e será imune às doenças?

A minha vida é meu único bem real e, óbviamente, também sou seu único dono. Portanto, dela cuido eu!

Complementando, vou citar uma frase de um amigão que diz assim...

Eu estou com hiv, mas não sou o hiv. Portanto quem me trata como um vírus, será tratado como um verme!

E para dar 'meu' pitaco nesse chute no balde:

O preconceito é o veneno da sua alma, e o antídoto ao seu veneno é o meu desprezo por você!

Voltando ao assunto, a partir de 1996 a minha vida 'social' estava um terrível caos; a profissional foi destruída por vários fatores que me levaram a desacreditar e desistir de tudo, de todos, até porque só sofri perdas, tantas que até hoje não consegui recupera-las. E a partir daí, sem 'grana', sendo pressionado de todos os lados por, oficiais de justiça, credores, locadores e mais uma infinidade de 'ores' obcecados pelo meu sangue, 'socialmente' cheguei ao fundo do poço.

Entrei numa depressão gravíssima, tanto que a descoberta do HIV se transformou, 'na minha cabeça enlouquecida', como a solução de todos os meus problemas 'sociais'.

De que maneira?

Na minha 'teoria auto-destrutiva', se eu não fizesse ou abandonasse o tratamento, em poucos dias o meu querido HIV faria a sua parte, matando e libertando-me de tudo e todos. O besta aqui acreditou nisso e, como já havia iniciado com a medicação, simplesmente abandonei tudo e aguardei o momento final.

Resumindo, entre 1998 e 2000 me transformei em um 'zumbi', isolei-me do mundo e a cada dia ficava mais parecido com uma 'caveira ambulante' e, nada nem ninguém me convencia que estava cometendo um injustiça comigo mesmo e, com aqueles que me amavam. Nenhuma palavra eu aceitava, estava obcecado em acabar com minha própria vida, 'tendo como carrasco e cúmplice, o talzinho que dava pulos de alegria e lotava meu organismo com seus clones'.

Resultado dessa imbecilidade: Perdi 30 quilos (pesava 90); cabelos; adquiri várias doenças oportunistas, como herpes zoster, pneumonia, disfalgia e outras; não conseguia me alimentar; tomava banho sentado para não cair; até minha bunda virou uva passa, um bagaço só. E nada de 'bater as botas'. Porém, causando auto sofrimento terrível que se se estendia aos familiares e raríssimos amigos.

Enfim, numa tarde do ano 2000 estava passando muito mal, sem sequer respirar direito ou falar e, em casa só estávamos eu e minha mãe. Ela vendo seu filho daquela maneira não aguentou mais e deu um basta. Sentou-se ao meu lado e disse...Eu sei que você está com aids e não vou deixar você se matar...levantou-se, pegou e telefone e ligou para um serviço de ambulância para me levar ao hospital. Chegando na Santa Casa de Santos fui encaminhado ao Secraids/Santos, especializado no tratamento de pessoas com HIV, onde fui prontamente atendido pelo 'Dr. Paulo Renato', o qual foi o responsável pela minha recuperação através de um atendimento competente, solidário e humano ao mesmo tempo.

Desde a minha saída de casa eu não disse uma só palavra, somente o fazendo quando estava a sós com o médico, relatando todo o ocorrido. Para dar uma idéia do estrago feito pelo HIV, 'com a minha cumplicidade':

Meu cd4 era de apenas '10' e a carga viral acima de vários milhões'. Pena que não era de dólares.

Reiniciei meu tratamento e vagarosamente fui me recuperando voltando ao estado praticamente normal no ano de 2002, readquirindo tudo, menos a bunda. Meu cd4 estabilizou, variando entre 400 e 700 e a carga viral tornou-se indetectável até os dias atuais. Mas aqui é necessário afirmar que a minha recuperação foi 'uma exceção', pois quando o portador abandona o tratamento, na maioria das vezes este 'quadro/estágio, grave, torna-se irreversível'. Portanto se passar pela cabeça de alguém, a repetição desse meu erro imbecil, 'saibam que essa viagem geralmente não tem volta'. Lembrando também que 'quando a pessoa se recusa a fazer o tratamento após o diagnóstico os efeitos devastadores são os mesmos'.

Nem é preciso pensar muito para deduzir o que me fez, retornar a realidade e desfazer a minha sociedade mórbida com o HIV:

Despertei da hipnose graças ao amôr incondicional e eterno da minha mãe. E porque ví o sofrimento nos seus olhos. Na realidade sou um privilegiado, pois em duas vezes ela me presenteou com a vida, ô mulher danada sô!

Sociedade desfeita e enterrada, HIV devidamente enquadrado e colocado no seu lugar sem destaque algum, agora era seguir em frente com uma única prioridade...

Viver!

Quanto aos problemas 'sociais', estes há muito tempo já haviam deixado de me perseguir, até porque onde não há nem cheiro de dinheiro 'todos eles', fogem e querem distância de você.

Enfim a rotina estava de volta; refiz meus documentos pessoais para recuperar, no papel, a minha 'condição de cidadão' e fui atrás de recolocação profissional, porém esbarrei no 'impedimento da idade'. Já que estava com mais de trinta e aqui nessa terra outrora fértil, nessa fase da vida você é considerado 'persona non grata no mercado de trabalho e na tal sociedade'. Mas também, logo constatei que eu não teria condições de trabalhar, em virtude de algumas 'sequelas causadas por aquela fase de sociedade maldita'. Agora era pensar no caminho a ser seguido a fim de, pelo menos, ter um trocadinho para comprar um 'x-bacon com coca cola'.

Lembrei-me que até 1997 trabalhava feito um trator e contribuindo religiosamente todo mês para o nosso solidário inss (diminutivo mesmo), 'e fui atrás dos meus direitos'. Para não fugir da regra, deles, muitas batalhas foram travadas pois 'eles' descaradamente fizeram o possível para que eu desistisse. Como sei exigir aquilo que me cabe 'por justiça', briguei até que o 'meu direito' fosse concedido.

Nesses longos anos de convivência com este viruzinho sem noção, claro que tive e continuo tendo sérios problemas financeiros. Porém, assim como ele, os tais bens materiais, supérfluos, desnecessários etc etc., também ficaram sem lugar de destaque no meu dia a dia, pois ficou evidente, pelo menos para mim, que para sentir o prazer de viver preciso de muito pouco. O resto é só isso mesmo...resto!

Claro que não posso esquecer do meu 'amiguinho íntimo'. Este já se convenceu que não lhe dou a mínima importância, pois tenho coisas muito mais importantes para me preocupar. E como fui eu que o convidei para entrar, vamos nos suportando e nos aturando, até o dia que nossa 'chefa' resolva o que fazer conosco.

Não posso nem tenho o direito de pedir que ninguém acredite nas minhas palavras, mas é assim que sou e penso. Para mim não vale a pena, não é justo entregar o que tenho de mais valioso para um insignificante vírus que nem vida própria tem!

Aprendi a lição e jamais deixarei de 'priorizar' o que realmente importa:

A VIDA!



Por: Alexandre Gonçalves de Souza

4 comentários :

  1. Alexandre,
    Aqui é Cláudia,
    Há muito acompanho seu blog. Hoje li o que escreveu sobre um pouco da sua história.Me lembrei que sou HIV+ desde 1992...ou quem sabe um pouquinho mais... Eu estou bem. Já tive meus baixos e altas com meu "hóspede chatinho". Já pensei em desistir também...mas estou com o que disse: Viver! É tão bom, apesar da pouca grana! Sonho muito. Sempre! Tenho "invejinha de você" sabe. Você escreve, se informa, ajuda a outras pessoas. Talvez nunca nos conheceremos, mas tenho muito orgulho de escrever essas poucas palavras para você. E que mãezinha querida a sua! A minha também é. Bom...fica aqui um beijo, um abraço. Até qualquer dia meu amigo!

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  2. Oi Cláudia. É claro que existem milhares de pessoas que vivem com HIV há muito tempo, mas "aqui e agora" rsrs, nós dois estamos mostrando duas pessoas "reais" que convivem com este viruzinho babaca há anos, e esse viruzinho não teve o poder de interromper as nossa VIDAS. Eu e você sabemos o que passamos e também sabemos porque vencemos todas as adversidades. Com certeza quem chegar até este espaço de comentários vai se sentir "inspirado" pelos nosso relatos, simplesmente porque mostramos que TODAS AS PESSOAS podem vencer essa guerra, basta QUERER! Um beijo no seu coração.

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  3. GOSTEI MUITO DO SEU RELATO DESCOBRI FAZ MENOS DE 2 ANOS, AINDA ME RECUPERO, TENHO PISCICÓLOGO, PISIQUIATRA E EM FIM TOMO 4 COMPRIMIDOS DO COQUETEL E MAIS 4 DO TRATAMENTO DE TOTAL DEPRESSAO, AINDA NÃO E SINTO PREPARADO NEM PRA SAIR NA RUA, VIVO COM UM SALÁRIO MINIMO MAIS DA PRA EU VIVER POIS TENHO CASA PRÓPRIA, TENHO MEDO DE VOLTAR A TRABALHAR, PEÇO A Deus todo dia que o inss me aposente pois não existe mais condições físicas e piscicologicas pra eu voltar a trabalhar, meu email. emedc84@gmail.com, um abraço

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  4. Alexandre, parabéns mais uma vez...Te acompanho faz muito tempo e mesmo que vc não admita, vc é uma inspiração para continuarmos a viver....Parabéns por sua história e tanta determinação!!! Saúde e muita vida é o que te desejo.....

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